Por que a guerra? Das batalhas gregas à ciberguerra: uma história da violência entre os homens

História, Antropologia, Estudos Sociais
Por que a guerra? Das batalhas gregas à ciberguerra: uma história da violência entre os homens - Organização de Francisco Carlos Teixeira da Silva e Karl Schurster Sousa Leão - Editora Civilização Brasileira - 448 Páginas - Lançamento: 27/08/2018.

Alguns historiadores, influenciados pelas teorias de Carl von Clausewitz (1780-1831), que considerava a guerra como uma forma de ação política, acreditam na hipótese de que a guerra é uma característica permanente da condição humana. Esta teoria é confirmada, de certa forma, por outras áreas de estudos. Sigmund Freud, por exemplo, admitia, na sua Teoria dos Instintos, que a natureza violenta é intrínseca a todos os homens. De fato, as narrativas literárias mais antigas, tais como a Epopeia de Gilgamesh ou a Ilíada de Homero, provam que a guerra sempre foi inerente à história da civilização.

Por outro lado, a busca pela paz também é uma constante aspiração humana, representada por filósofos como Immanuel Kant (1724-1804) e a ação de políticos pacifistas tais como: Mahatma Ghandi (1869-1948), Martin Luther King (1929-1968) e Nelson Mandela (1918-2013, para citar alguns dos mais recentes. A criação da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1945, com o objetivo de manter a segurança e a paz mundial, também foi uma iniciativa que, apesar dos resultados limitados, tenta ainda hoje (sem muito sucesso, diga-se de passagem) administrar os conflitos internacionais da melhor forma possível. Ocorre então que muitos Estados ainda investem pesadamente em suas forças militares, acreditando no famoso provérbio romano: "Si vis pacem, para bellum" [se desejas a paz, prepare-se para a guerra].

Afinal, como se explica que as guerras representem um fenômeno tão constante na história, aprimorando-se ao longo do tempo e atingindo os níveis de matança inéditos e industriais do século XX, com duas Grandes Guerras Mundiais que quase levaram a raça humana a um processo de autoextinção em uma absurda escalada nuclear. Seria possível evitar novas guerras no futuro? Para tentar responder a essas questões, Francisco Carlos Teixeira da Silva e Karl Schuster Sousa Leão, organizaram este livro com 17 ensaios de pesquisadores e historiadores que avaliaram a evolução de diversos conflitos da Antiguidade Clássica até os dias de hoje. Os textos apresentam sempre uma carga de informação validada por extensa bibliografia de referência, mas sem uma formulação excessivamente acadêmica.

Sem dúvida que as guerras mais absurdas são aquelas influenciadas pelo poder das religiões, sejam elas quais forem. Santo Agostinho, por exemplo, defendia que a paz completa era algo impossível de ser alcançado na Terra, e, portanto, haveria uma guerra justa praticada contra os hereges, o que seria "uma alteração no conceito de guerra, de algo destrutivo para um instrumento da paz e do bem". O movimento das Cruzadas, um conjunto de guerras que atravessou todo o período medieval, representou como a cega polarização levou os homens a usar a violência em nome de Deus, com consequências que explicam a raiz de muitos dos conflitos contemporâneos entre o ocidente e oriente, como descrito no trecho abaixo.
"Deduzimos que a guerra contra os muçulmanos era considerada justa e perene porque eles não aceitariam a conversão, ou o resultado das conversões era insignificante, o que fez do muçulmano um "inimigo conveniente", isto é, ele desempenhou uma função fundamental no discurso da Igreja, que vai sacralizando a guerra e construindo o ideário da guerra santa; e também porque o cristianismo, baseado no Novo Testamento, nos apóstolos, nos padres da Igreja e em seus pensadores, sempre pregou a paz e considerou a guerra como uma exceção. Já o islamismo é uma religião que prega a 'jihad' [guerra santa] e essa ideia está contida no seu livro sagrado, o Alcorão. Assim, temos duas religiões monoteístas e baseadas em livros sagrados escritos com posições diferentes, uma teoricamente mais pacifista e outra teoricamente mais belicista. Essas realidades são revisitadas constantemente e, ainda hoje, temos a guerra santa cristã x a 'jihad' muçulmana em constante embate e sofrendo diversas leituras. Para esses dois grupos, elas são justas, e cada lado lê que o outro é composto por infiéis que devem ser combatidos, e uma das formas para isso é o uso da violência." Capítulo 3 - A Guerra e a Paz de Deus - Gracilda Alves (Pág. 94)
Atualmente, os Estados tradicionais, como definido nos tratados de Westfália de 1648, perderam o monopólio sobre o exercício da violência e da guerra. Prova disso é que as forças militares convencionais enfrentam oponentes não estatais como guerrilheiros, terroristas, insurgentes etc. Por outro lado, em um mundo cada vez mais conectado e globalizado, não conseguimos mais distinguir o teatro de operações nem garantir que as ações ocorram em um campo de batalha tradicional. Em 1999, os chineses Qiao Liang e Wang Xiangsui, na obra Guerra Irrestrita, propõem um novo princípio de guerra, em vez do "emprego da força armada para compelir um inimigo a submeter-se à nossa vontade", para "a utilização de todos os meios, incluindo Forças Armadas ou não, militares e não militares, meios letais e não letais, para compelir um inimigo a submeter-se aos nossos interesses". Isto parece ser uma descrição literal do que vemos hoje, incluindo os ataques cibernéticos.
"Os autores de 'Guerra Irrestrita' prescrevem a utilização de todos os meios disponíveis, a onipresença da informação e a generalização do campo de batalha. Isso significa a fusão de todas as armas com a tecnologia disponível, a eliminação de todas as fronteiras entre as duas ambiências, a da guerra e a da paz, dos meios militares e não militares, e, por fim, advogam uma mudança de todos os princípios e de todas as regras da guerra. Nesse sentido, Liang e Xiangsui estão se referindo à 'guerra' em plena 'paz', se estivermos preparados para ampliar o conceito de combate e entender como guerra distintas formas de ataque, como o de 'hackers' contra sistemas informacionais os mais variados possíveis, como instalações energéticas, sistema contábil/financeiro, redes de comunicação e informacionais/telemática, contra armas tecnologicamente sofisticadas (mísseis, aviões, obuses, torpedos etc.), plataformas C4ISR, ataques econômicos especulativos (moedas, mercadorias, ativos, mercado futuro etc.), roubo de tecnologia, midiáticos (notícias, filmes, games, música etc.), ataques ao meio ambiente, por intermédio de atividades predatórias, controle de recursos naturais e, por fim, o choque entre as Forças Armadas regulares dos Estados." Capítulo 8 - Um estudo histórico sobre a guerra - Ricardo Pereira Cabral (Pág. 281)
Na verdade, a abrangência do livro e dos respectivos ensaios é muito difícil de se resumir em uma única resenha, os textos cobrem as guerras na Grécia Clássica, Império Romano, Idade Média e Cruzadas, Jihad, conflitos com os povos sem Estado, a filosofia chinesa, período do Renascimento, Revoluções, Imperialismo, Primeira e Segunda Guerras Mundiais, batalhas marítimas, extermínio dos judeus na Europa, guerra irregular ou de guerrilha, considerações sobre a ciberguerra, a guerra do futuro e o futuro da guerra. Enfim, um livro imperdível para todos aqueles que gostam de história e pretendem entender um pouco melhor os desafios da nossa época. Uma coisa é certa, independente de nossa vontade, a guerra continuará ainda por muito tempo, mesmo após o Apocalipse, como destacaram os organizadores na introdução.

Ensaios de: Aline Tedeschi da Cunha / Ángel Pablo Tello / Antônio Elíbio / Armando Bittencourt / Dilton Maynard / Francisco Carlos Teixeira da Silva / Francisco Eduardo Alves de Almeida / Gracilda Alves / Guilherme Moerbeck / José Maria Gomes de Souza Neto / Kalina Vanderlei / Karl Schurster de Sousa Leão / Marcelo Bastos de Souza / Norma Musco Mendes / Paulo Possamai / Rafael Pinheiro de Araújo / Ricardo Pereira Cabral
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