Zadie Smith - Ritmo Louco

Literatura inglesa contemporânea
Zadie Smith - Ritmo Louco (título original: Swing Time) - Editora Companhia das Letras - 528 Páginas - Tradução: Daniel Galera - Capa: Carlos di Celio - Lançamento no Brasil: 26/10/2018.

Ritmo Louco (Swing Time) é o quinto romance da bem-sucedida bibliografia de Zadie Smith, hoje uma referência na literatura contemporânea em língua inglesa (ler as resenhas de Sobre a Beleza e NW). Filha de mãe jamaicana e pai inglês, assim como sua protagonista e narradora sem nome neste livro, a autora volta a escrever sobre alguns temas recorrentes em suas obras anteriores, a partir do ponto de vista de uma mulher negra e pobre que enfrenta conflitos familiares e tenta encontrar formas de crescimento e participação em uma sociedade de oportunidades desiguais. 

No entanto, apesar da ótica feminista e do caráter de denúncia social e preconceito racial, o livro não se enquadra somente nessas categorias e é, antes de tudo, um romance de formação sobre a amizade e afastamento entre duas mulheres, desde a infância, sua busca de identidade e pertencimento ao longo da vida. Os leitores que já tiveram contato com a tetralogia napolitana de Elena Ferrante, certamente encontrarão muitas semelhanças, apesar dos contextos bem diferentes, com os encontros e desencontros das personagens Elena Greco e Lila Cerullo.

Em Ritmo Louco, duas meninas pobres, filhas de negros e brancos, se conhecem no ano de 1982 em Londres, durante as aulas de dança no bairro onde moravam em diferentes conjuntos habitacionais. As duas são apaixonadas por musicais e a dança de uma forma geral, sonhando com uma carreira artística, mas somente a carismática Tracey tem o talento necessário. A outra menina, narradora do livro, tem uma personalidade intimista e observadora. As semelhanças e diferenças entre elas criam uma conexão que se transforma em forte amizade que será bruscamente interrompida, durante a juventude, por um motivo só revelado ao final da trama.

Apesar de uma abordagem globalizada, com passagens por Londres, Nova York e África, o romance apresenta um tom mais intimista do que outros livros de Zadie Smith, com uma narrativa em primeira pessoa e um tom mais autobiográfico. O título, por exemplo, é uma referência ao musical homônimo de 1936 estrelado por Fred Astaire e Ginger Rogers, sendo a autora uma apreciadora de sapateado, que estudou quando adolescente. A mãe da protagonista, uma das personagens fortes do romance, também parece ter sido constituída a partir de alguns traços da memória familiar da autora, que dedicou o livro à sua própria mãe.
"Minha mãe era feminista. Seu penteado era um afro de um centímetro e meio, seu crânio tinha um formato perfeito, ela nunca usava maquiagem e vestia a nós duas da maneira mais despojada possível. Cabelo não é essencial quando você se parece com a Nefertiti. Ela não tinha nenhuma necessidade de maquiagem, produtos, joias ou roupas caras e, dessa forma, sua situação financeira, suas convicções políticas e sua estética estavam perfeitamente – convenientemente – alinhadas. Acessórios apenas deturpavam seu estilo, incluindo, ou pelo menos era o que eu sentia na época, a menina de sete anos com cara de cavalo a seu lado. Observando Tracey à minha frente, diagnostiquei o problema oposto: sua mãe era branca, obesa, coberta de acne. Usava seus cabelos finos e loiros puxados bem firmes para trás, no que sei que minha mãe teria chamado de 'facelift de Kilburn'. Mas o glamour pessoal de Tracey era a solução: ela era o acessório mais chamativo de sua mãe." (Pág. 18)
Tracey é filha de mãe solteira, sendo o pai um conhecido marginal das redondezas que está preso na maior parte do tempo. Contudo, na imaginação de Tracey ele é um dos dançarinos de apoio de Michael Jackson e vive em uma eterna turnê mundial. Logo, para as duas amigas, a fantasia sobre o pai "era absolutamente verdadeira e obviamente falsa", uma dicotomia que só poderia ser admitida por crianças.  Por outro lado, a narradora tem uma estrutura familiar mais tradicional, apesar dos conflitos cotidianos, decorrentes das diferentes posturas diante da vida. A mãe, interessada em política e ativismo social, tenta compensar a falta de uma formação básica com uma dedicação integral aos estudos em detrimento da atenção à própria família.
"Ao voltar para casa, eu já sabia que uma discussão que ninguém mais sabia onde tinha começado estaria em curso. A preocupação do meu pai seria alguma pequena questão doméstica: quem tinha passado o aspirador onde e quando, quem tinha ido ou deveria ter ido à lavanderia. Ao passo que minha mãe, ao responder, desviaria para tópicos bem distantes: a importância de cultivar uma consciência revolucionária, a insignificância relativa do amor sexual diante da luta dos povos, o legado da escravidão nos corações e mentes da juventude, e por aí vai. Naquela época ela já tinha concluído o ensino médio, estava matriculada na Politécnica de Middlesex, em Hendon, e mais do que nunca nós estávamos defasados, éramos uma decepção, ela precisava ficar explicando os termos que usava o tempo todo." (Págs. 46 e 47)
De uma forma geral, o romance é desenvolvido em três eixos narrativos independentes que convergem aos poucos: o período da infância e adolescência das duas amigas, que tem início em 1982, prosseguindo durante os anos oitenta e início dos anos noventa; a experiência da narradora a partir 1998 quando é contratada por um canal de música jovem chamado YTV (obviamente uma alusão à MTV) como assistente pessoal de uma cantora pop australiana, Aimee, mundialmente conhecida, incluindo aí as suas viagens e experiências na África para gerenciar a construção de uma escola para meninas, patrocinada pela cantora; finalmente o tempo presente em 2008, onde o romance tem início, marcando o retorno da narradora a Londres depois de sua demissão sumária por motivos que serão revelados depois.
"Quando a hora de Tracey chegou, não havia ninguém para guiá-la na transposição do limiar, para aconselhá-la ou mesmo informar que se tratava de um limiar. Mas seu corpo estava se desenvolvendo mais rápido que o de todas as outras, portanto ela precisou improvisar, tomar suas próprias providências. Sua primeira ideia foi a de se vestir escandalosamente. Botaram a culpa na sua mãe – elas costumam levar a culpa –, mas tenho certeza de que sua mãe mal sabia da metade da história. Ela sempre estava dormindo quando Tracey saía para a escola e fora de casa quando retornava. Tinha finalmente encontrado um emprego, acho que fazia faxina num prédio de escritórios em algum lugar, mas a minha mãe e as outras mães desaprovavam seu emprego quase na mesma medida em que antes desaprovavam seu desemprego. Antes ela era uma 'má influência', agora 'nunca estava em casa'. De algum modo, tanto sua presença quanto sua ausência não prestavam, e a maneira como passaram a falar de Tracey foi atingindo contornos trágicos, pois apenas os heróis trágicos não têm escolhas à disposição, nenhuma rota alternativa, apenas destinos inevitáveis." (Pág. 196)
Zadie Smith é uma escritora que não economiza em sua prosa, como tantos outros autores contemporâneos que se limitam a novelas curtas e romances que raramente alcançam as trezentas páginas. O livro é difícil de resumir, mas maravilhoso de se ler, com personagens fortes, principalmente as femininas, e inúmeras passagens de destaque, sempre criativas e verdadeiras, ao longo de mais de quinhentas páginas, em tradução perfeita de Daniel Galera.
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