Patti Smith - O ano do macaco

Literatura norte-americana contemporânea
Patti Smith - O ano do macaco - Editora Companhia das Letras - 168 Páginas - Traduçao de Camila von Holdefer - Capa de Fabio Uehara - Foto de capa: Barre (Skills) Durya Lançamento: 28/10/2019.

Assim como Just Kids, vencedor do National Book Award de 2010 e Linha M, seus dois livros anteriores lançados no Brasil, O ano do macaco também não pode ser classificado em uma única categoria, seja autobiografia, ficção, ensaio ou poesia, apresentando uma mistura de todas elas ao mesmo tempo, assim como a performática poeta, compositora, escritora e artista plástica Patti Smith, sem falar nas citaçoes musicais e literárias que extrapolam em muito as referências locais da cultura norte-americana.

Por outro lado, a autora exercita uma técnica pouco explorada nas suas outras obras, a influência do inconsciente ou um certo estado alucinatório na narrativa, fazendo com que o limite entre sonho e realidade se torne indistinto. A prosa poética original foi preservada na excelente tradução de Camila von Holdefer – uma das melhores críticas literárias e resenhistas do país.

Já a passagem do tempo e a solidão não são coisas fáceis de se lidar como bem sabemos, até mesmo para uma artista libertária como Patti Smith, e este sentimento fica claro quando ela descreve as suas memórias de 2016, ano do macaco no horóscopo chinês, em que chegou aos setenta e perdeu dois grandes amigos: o músico Sandy Pearlman e o dramaturgo Sam Shepard. Contudo, o tom geral do texto é bem-humorado, apesar das adversidades, com base na esperança de que "alguma coisa maravilhosa está para acontecer".
"Dez mil anos ou dez mil dias, nada pode parar o tempo ou mudar o fato de que vou chegar aos setenta no Ano do Macaco. Só um número, mas um indicativo da passagem de uma parte significativa da areia prevista na ampulheta. Os grãos caem e me pego sentindo falta dos mortos, mais que o normal. Notei que choro mais quando assisto televisão, reagindo a um romance, a um detetive aposentado baleado nas costas enquanto encarava o mar, a um pai exausto pondo o filho no berço. Notei que minhas lágrimas me queimam os olhos, que não sou mais uma corredora veloz e que minha noção de tempo parece estar se acelerando." (p. 76)
"Sam está morto. Meu irmão está morto. Minha mãe está morta. Meu pai está morto. Meu marido está morto. Meu gato está morto. E meu cachorro que morreu em 1957 continua morto. E ainda assim eu continuo achando que alguma coisa maravilhosa está para acontecer. Quem sabe amanhã. Um amanhã e depois uma sucessão inteira de amanhãs. [...]" (p. 156)
De acordo com o estereótipo que conhecemos das estrelas do Rock, poderíamos imaginar que a inspiração da autora tem origem no álcool ou nas drogas pesadas, mas o fato é que o seu combustível vem unicamente das inúmeras xícaras de café. Surpreende também a simplicidade do seu cotidiano, o processo criativo e o amor pelos livros e autores, de Lewis Carroll a Roberto Bolaño, que estão sempre presentes em cada página do livro, provando que Patti Smith é, entre tantas outras coisas, uma grande leitora.
"É lá que encontro os arquivistas da Casa Fernando Pessoa, onde sou convidada a passar um tempo na adorada biblioteca pessoal do poeta. Deram-me luvas brancas que me permitem examinar alguns dos livros favoritos dele. Há romances policiais, coletâneas de poemas de William Blake e Walt Whitman, e seus preciosos exemplares de As flores do mal, Iluminações e os contos de fadas de Oscar Wilde. Os livros parecem uma janela mais íntima para Pessoa do que sua própria escrita, pois ele criou várias personas que escreveram sob aqueles nomes, mas tinha sido o próprio Pessoa quem adquiriu e amou aqueles livros. Essa pequena compreensão me intrigou. O escritor desenvolve personagens independentes que vivem a própria vida e escrevem sob os próprios nomes, nada mais nada menos que setenta e cinco deles, cada um com seu chapéu e seu casaco. Então como a gente pode conhecer o verdadeiro Pessoa? A resposta está na nossa frente, os livros dele, uma biblioteca idiossincrática perfeitamente preservada." (p. 94)
Em meio a vários personagens reais e fictícios, existe uma preocupação da escritora com a eleição de Donald Trump, um desagrado com a "apatia americana" que ela deixa claro em alguns trechos do livro, relembrando outros momentos de sua carreira como ativista política. "Não se preocupe, todos diziam, a maioria vence. Não é bem assim, eu revidava, o silêncio vence e a decisão vai ser deles, daqueles que não votam."
"Na noite da eleição, me juntei a uma reunião de bons camaradas e assisti à novela horrível chamada eleição americana se desenrolar numa TV de tela grande. Um a um todos tropeçaram no amanhecer. O valentão urrou. O silêncio tomou conta. Vinte e quatro por cento da população tinha elegido o que existe de pior em nós mesmos para representar os outros setenta e seis por cento. Viva a apatia americana, viva a sabedoria distorcida do Colégio Eleitoral." (p. 129) 
Uma obra muito recomendada para os amantes da música, letras e arte em geral. Para aqueles ainda não inciados no universo de Patti Smith, como primeira leitura recomendo seguir a ordem cronológica de lançamento: Just kids, Linha M e O ano do macaco.

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