Marcos Alexandre Faber - Cinema nacional

Literatura brasileira contemporânea
Marcos Alexandre Faber - Cinema nacional - Editora Reformatório - 224 Páginas - Imagem de capa: Sala do cinema São Luiz (Divulgação São Luiz) - Lançamento: 2026.

O protagonista-narrador do mais recente romance de Marcos Alexandre Faber, assim como o autor, "é um cineasta sem uma câmera na mão, mas com muitas ideias na cabeça". No entanto, o verdadeiro protagonismo é dividido entre o cinema nacional e a cidade-cenário do Recife, que se impõe como uma personagem viva, com sua história e talento natural para a criação artística, reinventando tradições na literatura, na música e nas artes em geral. A obra combina ficção, ensaio e memória, tendo como eixo narrativo a formação de um cineclube caseiro, idealizado como forma de resistência cultural pelo protagonista de trinta e sete anos, que nunca é nomeado, uma espécie de alter ego do autor, sua esposa Fernanda e o casal de amigos, Arthur e Helena. 

Em uma edição cuidadosa da Editora Reformatório, o livro é enriquecido por uma seleção de cartazes da extensa filmografia citada ao longo da narrativa que é apresentada no anexo em detalhes, além de epígrafes com citações de diretores, críticos e trechos de famosos roteiros. O amor e o conhecimento de Faber pelo tema transparecem em cada página, compondo um painel consistente da história do cinema nacional, com nomes como Nelson Pereira dos Santos (Rio, 40 graus e Vidas secas), Glauber Rocha (Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe), Anselmo Duarte (O Pagador de Promessas), Carlos Diegues (Bye, Bye Brasil), Arnaldo Jabor (Eu Sei que Vou Te Amar), entre outros. Enfim, um paraíso para os amantes da sétima arte.

"Eu e o Arthur tivemos a adolescência pelo Recife dos anos oitenta e, sempre que arranjávamos algum dinheiro, íamos ao cinema. Tínhamos a meta inviável de assistirmos a um filme por dia. E a nossa queixa era sempre o fechamento das salas que tanto amávamos (Trianon, Art Palácio, Moderno, Veneza, Astor, AIP, Ritz), transformadas em farmácias, igrejas evangélicas. O único sobrevivente era o São Luiz. Sediado na surreal Rua da Aurora, em frente ao Capibaribe, o cinema foi inaugurado em 1952 como a sala de projeção mais luxuosa do Recife. Com a transferência das salas para os shoppings e o empobrecimento cultural do Centro, o São Luiz agora é uma 'espécie rara' na paisagem recifense. Um animal exótico. Não se sabe até quando! De qualquer forma, já não é a mesma coisa, pois agora exibe uma programação segmentada, sem a espontaneidade de quando entrávamos sem horas marcadas. É como se ele tivesse se tornado oficial, com programações alternativas." (p. 32)

No campo da ficção, a amizade entre o protagonista e seu melhor amigo Arhur se sustenta em um sonho comum de realizações que, dia após dia, nunca se concretizam: "Dois homens de sensibilidade e criação superiores, destinados a uma compreensão mútua apenas. Parecia mesmo pouco, mas era quase o suficiente." Essa relação, contudo, acaba contaminada por uma traição entre os casais, como no roteiro de O Quatrilho de Fábio Barreto, levando ao isolamento do protagonista e a uma viagem ao interior de Pernambuco, em busca de um enredo inspirado nos clássicos do cinema nacional, questionando: "Como fazer um romance ou um filme regionalista sem uma seca?".

"Também era comum irmos, no final da tarde, à Livro 7, reduto dos intelectuais recifenses dos anos 80, particularmente dos poetas, já que no Recife os poetas nascem à solta como as plantas do mangue. [...] Uma vez, ao acaso, avistei o próprio João Cabral. Tive vontade de falar-lhe sobre O Cão sem Plumas, mas ele me parecia tão superior e distante como se fossede outra casta, Ou, pelo menos, era assim que eu o imaginava enquanto artista juvenil. Afinal, o que eu poderia acrescentar ao seu poema? O que poderia eu dizer que ele já não soubesse? Toda aquela minha excitação e alumbramento apenas o incomodaria. Afinal de contas, ele não fizera o poema para ser devassado. Ele também tinha a fama de chato, de pouco receptivo, não frequentava nem os saraus literários. Enfim, em torno da Livro 7 — uma espécie de L´art industriel, de Flaubert — desfilavam desde os poetas e artistas que queriam ser vistos e criar ali seu ciclo de relações dentro do campo da arte pernambucana àqueles leitores anônimos que simplesmente amavam os livros." (pp. 55-6)

A filmografia não se limita aos clássicos: o autor também evoca filmes de sua memória afetiva, nacionais ou estrangeiros, vistos na infância nas matinês do Recife ou em sessões da tarde, como O Mágico de Oz e Os Trapalhões. Destaque para o capítulo dedicado ao impacto causado por Amarelo Manga de 2002, dirigido por Cláudio Assis e ambientado no centro histórico de Recife. Mais do que uma coleção de grandes produções, o autor transforma o ato de assistir aos filmes em uma experiência literária e certamente vai te fazer lembrar de alguns filmes que marcaram a sua história, termino com a epígrafe de Luiz Carlos Barreto, bem alinhada com a visão da obra: "Um país sem cinema é como uma casa sem espelho."

"O filme, da nova cena pernambucana, foi literalmente uma porrada no estômago, semelhante à primeira vez em que assisti a Taxi Driver ou Laranja Mecânica. Amarelo Manga, simples assim. A verdade é que eu já tinha visto muitos curtas sobre o Recife, mas aquele filme penetrava as entranhas da cidade como uma faca de açougueiro, transpassava aqueles becos cheios de pensões e pessoas decadentes que eu conhecia tão bem de passagem, como se fosse eu mesmo um passageiro de Travis Bickle, a personagem corrosiva do Robert De Niro. Meu Deus, este é o Recife dos artistas marginais que conheço: do Ivinho, gênio da guitarra que tocou em Montreux, e de poetas, como Erickson Luna, que solvem a dor da cidade e adormecem nas calçadas. Aquele filme era forte demais para mim, mas, ao mesmo tempo, era a primeira vez que eu via o Recife sem maquiagem alguma, assim na tela, como vísceras no açougue." (pp. 93-4)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Marcos Alexandre Faber é natural do Recife, na adolescência frequentou os cinemas da cidade e espaços como a Livro 7. Da geração do rock nacional, formou com amigos uma banda, a Expoente, e tocou em cenários como a Sala Clênio Wanderley, a Arte Viva e o Teatro Valdemar de Oliveira. A sua jornada literária, iniciada na poesia, expandiu-se para música, ensaios e ficção. Em paralelo à sua poética, a sua formação compreende: graduação em Letras e em Direito; doutorado em Literatura pela Universidade do Porto; e dois estágios pós-doutorais abordando a relação entre literatura, cinema e música (FLUP – UFPE). Atualmente é docente de Letras na UFAL. É autor, entre outros, de A leitora de poesia (Reformatório, 2021) e Por dentro de Rita Hayworth (Reformatório, 2023).

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Cinema nacional de Marcos Alexandre Faber

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