Luiza Fariello - Um corpo para Jaime
Em seu romance de estreia, Luiza Fariello escreveu uma das melhores frases de abertura que li ultimamente: “Jaime precisava morrer, mas não tinha um corpo.” A narrativa revela que Jaime é uma criação virtual de Mariano, o atormentado protagonista que, para escapar da solidão de uma vida sem sentido após a morte da mãe, recorre à inteligência artificial para gerar um perfil tão realista quanto possível, com defeitos, contradições e, sobretudo, uma qualidade que falta ao próprio Mariano: a capacidade de se relacionar com pessoas. Assim nasce Jaime, Chief Marketing Officer, pós-graduado em Data Analytics, produtor de conteúdo e executivo de uma empresa de investimentos, se preparando para morar na Alemanha.
Não demora para o perfil de Jaime acumular seguidores nas redes sociais e se envolver em uma relação afetiva com Olga, outro perfil fictício, criado por Moema, uma professora que também enfrenta dificuldades em estabelecer vínculos reais. A autora resume bem essa relação: “O que Jaime e Olga viviam não era verdade, tampouco mentira.” O romance explora, assim, o estado permanente de solidão e vulnerabilidade que marca nossas interações na atualidade, tema que Luiza Fariello já havia trabalhado em seu excelente livro de contos Hoje, deserto. Aqui, o estreitamento entre os mundos real e digital revela como as “relações humanas”, se é que ainda podemos chamá-las assim, podem ser criadas e mantidas sem a presença de corpos.
"Jaime precisava morrer, mas não tinha um corpo. E aí estava todo o seu problema. Viver sem um corpo, como ele mesmo provou, era viável, ainda que não fácil ou simples – postagens periódicas nas redes e interações constantes no WhatsApp, uma manobra aqui e ali para continuar assegurando aos outros a própria veracidade, e as coisas caminhavam, de certo modo. Poucos duvidam da existência de alguém, as pessoas têm pouco tempo. Ele seguiu vivendo enquanto pôde, até que não foi mais possível, porque o seu caminho, ao invés de continuar adiante, voltou-se em círculos. Logo: matar-se sem possuir propriamente um corpo. Para um enterro digno de ser acompanhado, fotografado, postado e curtido por outras pessoas, era preciso, ao menos, algo que fizesse um bom peso no caixão. E conseguir um corpo demandaria também obter documentos válidos do defunto, porque qualquer funerária exigiria a comprovação de que o óbito se deu e assim foi registrado, ainda que o cadáver fosse isso, um cadáver." (p. 11)
As constantes interações de Jaime começam a trazer problemas para Mariano, como quando o perfil é convidado a participar de um congresso de marketing como palestrante, obrigando-o a enviar um currículo elaborado a partir da carreira e da tese de mestrado de seu chefe na empresa em que trabalha. Olga, por sua vez, aumenta gradativamente a pressão por um encontro real, esgotando as desculpas de Mariano. O acúmulo de conflitos obriga o protagonista, cada vez mais atormentado, a tomar uma decisão radical: desaparecer com Jaime definitivamente e, para isso, planejar a morte de sua bem-sucedida criação. Não se trata, porém, de uma morte apenas simbólica, mas de um velório e enterro reais, acarretando a necessidade de um corpo para Jaime.
"Agora, na quitinete, poucos móveis e utensílios com a finalidade de possibilitar a uma pessoa comer e dormir. Até respirar podia-se. Mariano tomava um banho rápido, esfregando o sabonete transparente de glicerina da cabeça aos pés, detestava xampu, colocava o pijama, assistia ao noticiário sem prestar atenção, dormia rolando o dedo no celular na busca frenética por qualquer coisa que com frequência acabava lhe fugindo. Dormia mal, comia pior: pão de forma com requeijão pela manhã, muito café, um prato-feito com gosto de arroz com coisas de ontem, feito pelo restaurante PF Bom Jesus em frente à empresa, uma barra de cereal à tarde, de novo, muito café, pão com requeijão à noite, ou miojo, ou dois pacotes de fandangos. Se queria luxo, jantava queijo gorgonzola, achava chique e, por vezes, aproveitava a oferta, quinze reais uma robusta fatia, que mundo bom! Ia acumulando gordura e tédio na mesma proporção, uma se desdobrando em sua cintura, outro, na cabeça." (pp. 15-6)
Na execução do planejamento de seu personagem, a autora desenvolve uma espiral de problemas que tem início com a demissão de Mariano e culmina com o sequestro virtual de dados para chantagear a sua empresa e obter recursos que lhe permitam adquirir, pela Dark Web, um cadáver desconhecido. O resultado é uma sucessão de situações de tom farsesco e humor macabro que nos conduz à reflexão sobre o absurdo de uma época em que estamos permanentemente conectados e, paradoxalmente, cada vez mais solitários. Um romance recomendado, que mescla com habilidade entretenimento e reflexão.
"Mariano caprichara na foto de perfil: olhos misteriosos por trás de um elegante par de óculos escuros, rosto triangular, delicado e masculino ao mesmo tempo, conforme o ângulo que se escolhesse. Um gosto sofisticado o suficiente para apreciar arte moderna e editoriais políticos do Le Monde, e simples o bastante para se derreter com vídeos de gatinhos. Trabalhou também uma foto artística do contorno do seu rosto e tórax, num jogo de sombras, uma imagem que, além de escondê-lo, dava o efeito sensual. Trabalho perfeito, pensou, e saiu para seu passeio pelas quadras residenciais da Asa Sul, dessa vez com a cabeça mais erguida e saltitando um pouco entre um passo e outro, deixando até escapar o assobio de uma música antiga cuja memória o surpreendeu . Na mochila, levava as rações para os gatos já separadas em porções, além dos remédios e vermífugos. Desceu as escadas de seu prédio, observando mais uma vez as infiltrações, as paredes que penetravam em seus pesadelos noturnos, nos quais o seu prédio velho e mal cuidado desmoronava, fazendo-o acordar tossindo como se estivesse dentro de uma nuvem de poeira." (pp. 26-7)
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