Mieko Kawakami - Peitos e ovos

Literatura japonesa contemporânea
Mieko Kawakami - Peitos e ovos - Editora Intrínseca - 480 Páginas - Capa: Elisa von Randow - Imagem de capa: Ana Matsusaki - Tradução de Eunice Suenaga - Lançamento no Brasil: 2023.

O romance da premiada escritora japonesa Mieko Kawakami reafirma que a literatura contemporânea do país vai muito além de Haruki Murakami e evidencia a força crescente das vozes femininas. Autoras como Hiromi Kawakami (A valise do professor) e Banana Yoshimoto (Kitchen e Tsugumi) vêm ampliando esse espaço ao explorar, com sensibilidade e coragem, a experiência das mulheres em uma sociedade tradicionalmente patriarcal. De fato, Peitos e ovos se destaca ao abordar questões profundamente ligadas ao universo feminino — da relação com o próprio corpo às transformações da puberdade, passando pela complexa decisão de criar um filho sozinha ou envelhecer sem filhos, algo que até pouco tempo seria impensável em um Japão marcado pelo envelhecimento populacional e pela preocupação com suas baixas taxas de natalidade.

O livro é narrado do ponto de vista de Natsuko Natsume, que vive em Tóquio tentando se sustentar como escritora. A primeira parte, "Verão de 2008", começa com a visita de sua irmã mais velha, Makiko, que viaja de Osaka acompanhada da filha, Midoriko — uma menina prestes a completar doze anos, na transição entre a infância e a adolescência, e que há meses só se comunica com a mãe por escrito. O motivo da viagem é aproveitar a estadia na capital para que Makiko realize uma cirurgia de aumento dos seios, uma ideia que se transformou em verdadeira obsessão. Essa primeira parte, ambientada em um bairro pobre de Tóquio durante dias sufocantes de verão, é narrada em primeira pessoa por Natsuko, com inserções do diário de Midoriko que ajudam a contextualizar as tensões e o distanciamento emocional entre as três mulheres.

"Quando estávamos andando em grupo num passeio da escola, alguém disse que, já que nasci mulher, com certeza quero ter filhos um dia. Como elas podem pensar dessa forma? É só começar a sair sangue daquele lugar que já se sentem mulheres e, sendo assim, querem dar à luz outra vida. Como podem generalizar assim? E como conseguem acreditar que isso é uma coisa boa? [...] Por alguma razão tenho um corpo que sente fome por conta própria, que fica menstruado por conta própria, e estou presa dentro dele — essa é a sensação que tenho. E, uma vez que nascemos, está tudo decidido: temos que continuar vivendo, comendo, ganhando dinheiro, e é muito duro viver dessa forma. Minha mãe trabalha pesado todos os dias, mas mesmo assim leva uma vida difícil e, vendo-a, penso: para quê? Já é duro uma pessoa sozinha sobreviver, ainda vai gerar outro ser? Para quê? Não consigo nem imaginar passar por isso, e será que quem diz que é algo maravilhoso sente isso espontaneamente? Está pensando mesmo com a própria cabeça? Fico deprimida ao pensar nessas coisas quando estou sozinha. Para mim, não parece nada bom, tenho quase certeza disso." (p. 44) - Trecho da Parte I, Cap. 2 - Para ser mais bela, diário de Midoriko.

Na segunda parte, "Verão de 2016 a verão de 2019", o foco se desloca para Natsuko e seu desejo de se tornar mãe sem recorrer ao modelo tradicional. Para ela, sexo nunca trouxe prazer, segurança ou satisfação, e a possibilidade de usar um doador de esperma esbarra em barreiras legais: no Japão, o procedimento é restrito a casais inférteis. À medida que investiga alternativas e consequências, Natsuko se vê diante de um impasse existencial, em que a maternidade é discutida não apenas como escolha, mas como ato que pode ser interpretado como egoísmo ou violência., principalmente quando a origem do nascimento é escondida do filho.

"Eu o adorava. Queria muito continuar ao lado dele por mais algumas décadas, queria falar de vários assuntos com ele, ver várias coisas com ele, ou seja, pensava seriamente em construir uma vida com ele. Mas, por outro lado, não gostava de fazer esse tipo de coisa com ele. Queria proporcionar prazer a ele, e teve uma época em que tentei encarar de forma positiva, achando que essas coisas demandavam esforço, que era eu quem não entendia direito como isso funcionava. Mas, por mais que tentasse, não conseguia me acostumar. Não era que eu sentisse qualquer dor física, mas sentia uma inquietação indescritível, quase insuportável. Quando me deitava de costas, nua e com os olhos abertos, via redemoinhos pretos que pareciam espirais rabiscadas feitas por alguém girando uma caneta com toda a força nos cantos do teto, das paredes, em lugares mais afastados. Toda vez que Naruse movia seu corpo, esse redemoinho repulsivo crescia gradualmente, se aproximava e engolia minha cabeça, como se a cobrisse com um saco preto. Mesmo com o passar do tempo, o sexo nunca me proporcionou prazer, segurança ou satisfação, e toda vez que Naruse ficava por cima de mim, nu, inevitavelmente me sentia completamente sozinha." (p. 193 - Trecho da Parte II, Cap. 9 - Segurando as pequenas flores, reflexões de Natsuko Natsume

Com lirismo e coragem, Kawakami expõe as contradições de ser mulher em uma sociedade que ainda dita regras sobre corpo e maternidade. O romance se destaca pela forma como Kawakami aborda o corpo feminino não como objeto de desejo externo, mas como território de conflito interno e social. A escrita é delicada e, ao mesmo tempo, incisiva: cada diálogo e silêncio revelam tensões profundas sobre identidade, envelhecimento e expectativas impostas às mulheres. Ao dar voz às inquietações de Natsuko, Makiko e Midoriko, Kawakami constrói um painel de experiências que desafia convenções e amplia o espaço da literatura feminina no Japão contemporâneo.

"Velkommen era um banco de sêmen dinamarquês, sobre o qual eu ficara sabendo por meio de pesquisas na internet e lendo livros. Era um exagero falar em longa tradição, mas se tratava de uma instituição de renome internacional que funcionava havia várias décadas. Eles divulgavam seus resultados, as instalações usadas eram sempre as mais modernas, pois sempre as renovavam, e, além de testes periódicos para detectar doenças transmissíveis, o sêmen dos doadores era submetido à análise cromossômica e a testes genéticos para saber se havia algum gene relacionado a doenças hereditárias graves. Todo motivo de preocupação, por menor que fosse, era detectado, na medida do possível, e somente o sêmen de homens saudáveis, sem problemas de saúde, era congelado para compor o banco. Como resultado, só dez por cento do sêmen passava na triagem. Ou seja, entre dez homens que se inscreviam para a doação, apenas um era cadastrado. A chance de aprovação era baixa. Velkommen já tinha fornecido sêmen para mais de setenta países e possuía um sistema para atender às demandas de qualquer pessoa pela internet, incluindo casais inférteis, casais homoafetivos e também solteiras como eu." (p. 217) - Trecho da Parte II, Cap. 10 - Escolha a correta entre as seguintes opções, Natsuko descreve um banco de sêmen na Dinamarca

Sobre a autora: Nascida em Osaka, no Japão, Mieko Kawakami fez sua estreia literária como poetisa e publicou sua primeira novela, My Ego, My Teeth, and the World, em 2007. Seus livros, traduzidos para mais de 30 idiomas, são conhecidos por suas qualidades poéticas e reflexões sobre o corpo feminino, a ética e a sociedade moderna.Os prêmios literários de Kawakami incluem o Akutagawa, o Tanizaki e o Murasaki Shikibu. Heaven, traduzido por Sam Bett e David Boyd, foi finalista do International Booker Prize de 2022. Seu romance mais recente traduzido para o inglês é All the Lovers in the Night e foi indicado para o National Book Critics Circle Awards em 2023. Ela mora em Tóquio.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Peitos e ovos de Mieko Kawakami

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