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Samuel Malentacchi - Eu sozinho, brincando de vazio

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Samuel Malentacchi - Eu sozinho, brincando de vazio - Editora Caos & Letras - 150 Páginas - Projeto Gráfico: Cristiano Silva - Arte de Capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2020. Samuel Malentacchi é um "viciado em estragos", como ele mesmo desabafa nos versos de manual de poesia não ocultista (p. 13), penso que talvez uma definição melhor para o poeta, que também é psicanalista, poderia ser: "um especialista nos desconfortos da alma", especialidade que ele domina muito bem nesta coletânea de poemas desajustados ou inconvenientes, como o ótimo já escrevi sobre isso antes (p. 16): "eu caminho entre os desafotunados, / é um laço feito de sangue e miséria, / um memorial esculpido em lama, / uma obsessão por tudo o que é escuro. / tenho orgulho dos demônios que me devoram. [...]"O poeta nos ajuda a enfrentar os nossos próprios vazios que também são incontornáveis, como bem resumiu o editor Eduardo Sabino em seu texto de apresentação do livro. Isso significa q…

Carlos Machado - Olhos de sal

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Carlos Machado - Olhos de sal - Editora 7 Letras - 116 Páginas - Coordenação editorial: Isadora Travassos - Lançamento: 30/05/2020. A construção do mais recente romance do músico e escritor curitibano Carlos Machado é feita a partir de fragmentos de memórias, fotos e cartas que reconstituem um relacionamento amoroso abandonado no passado pelo protagonista, nomeado apenas como C., o qual, muitos anos depois, tenta o impossível resgate do tempo perdido em uma viagem à Suíça, país de origem da mulher com quem tinha feito planos de ter filhos. Nesta conexão entre a remota Obersteckholz e Curitiba, o autor mistura lugares, culturas e idiomas, ao lidar com uma história interrompida que, assim como tantas outras, ficou guardada apenas no silêncio de uma fotografia e naquela estranha e dolorosa saudade de tudo o que poderia ter sido.No entanto, sabemos como a memória tem truques para nos enganar, principalmente quando ela vem à noite e espanta o que é racional, quando "incontrolável, o in…

Finalistas do Prêmio Jabuti 2020

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Divulgados os dez finalistas de cada uma das categorias da 62ª edição do Prêmio Jabuti. O autor e a editora da obra vencedora em primeiro lugar receberão um troféu Jabuti, cada. Além do troféu, o autor receberá um prêmio no valor bruto de R$ 5.000,00. A premiação "Livro do Ano" será concedida à obra com maior nota atribuída pelo corpo de jurados entre as categorias dos eixos Literatura e Ensaios com o prêmio em dinheiro no valor bruto de R$ 100 mil.  Fico feliz de ter resenhado aqui no Mundo de K, durante o ano de 2019, alguns dos finalistas, todos excelentes livros (sigam os links para as resenhas completas) na categoria de Romance Literário: Carta à rainha louca de Maria Valéria RezendeEssa gente de Chico BuarqueMarrom e amarelo de Paulo ScottTorto arado de Itamar Vieira Junior; na categoria de Conto: Urubus de Carla Bessa; na categoria de Poesia: Dicionário de imprecisões  de Ana Elisa RibeiroO desvio das gentes de Pádua Fernandes e Solo para vialejo de Cida Pedro…

Wislawa Szymborska - Para o meu coração num domingo

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Wislawa Szymborska - Para o meu coração num domingo - Editora Companhia das Letras - 344 Páginas - Capa de Victor Burton - Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski - Lançamento: 2020. Esta é a terceira antologia de Wislawa Szymborska (1923-2012), prêmio Nobel de Literatura de 1996, publicada pela Editora Companhia das Letras no Brasil, depois do sucesso de crítica e público de Poemas (2011) e Um amor feliz (2016), livros capazes de emocionar até aqueles que dizem não gostar de poesia. Sim, porque há quem não entenda a necessidade de poemas no mundo, mas isso antes de conhecer essa simpática bruxa polonesa que encanta a todos ao resumir com seus versos a essência de tudo que é verdadeiro na condição humana: a vida, o sonho, o amor e, por que não, a própria morte.Entre o riso e a lágrima ela conduz o leitor, sempre com inteligência e fina ironia, em cada um dos 85 poemas desta edição, selecionados da sua bibliografia, em ordem cronológica, por Regina Przybycie…

Whisner Fraga - O privilégio dos mortos

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Whisner Fraga - O privilégio dos mortos - Editora Patuá - 256 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: 2019. Em O privilégio dos mortos, Whisner Fraga utiliza uma narrativa experimental e fragmentada, com base nas reflexões de um amargurado protagonista que lida com suas próprias questões existenciais a partir da morte precoce e sofrida de Heitor, um ex-amigo de faculdade, devido a um agressivo câncer de pulmão. Ao retornar de carona para a fictícia Tejuco, sua cidade natal no interior de Minas Gerais, este protagonista, que nunca é nomeado, lembra episódios de seu passado e do país nos anos noventa, de forma não linear, em um delírio que mistura imaginação e realidade.O ponto de apoio de toda a narrativa é a interlocução com Helena, uma personagem enigmática que funciona como confidente. Contudo, logo percebemos que esses falsos diálogos são, na verdade, um longo fluxo de consciência do protagonista em suas digressões sobre o desajuste aos …

Sandra Godinho - Tocaia do Norte

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Sandra Godinho - Tocaia do Norte - Editora Penalux - 318 Páginas - Capa e Diagramação de Guilherme Peres - Lançamento: 2020. Em seu mais recente lançamento, Sandra Godinho nos apresenta um romance de cunho regionalista com a reconstituição de um período histórico ainda pouco conhecido do grande público: a época da construção da rodovia BR-174, conhecida como Manaus-Boa Vista, durante o regime militar, mais especificamente em 1968, ano do AI-5. Nessa época, infelizmente pouco diferente dos dias atuais, a floresta amazônica era considerada como uma força a ser conquistada em nome dos interesses econômicos de tradição colonial extrativista e os povos indígenas inimigos a serem vencidos a qualquer custo, caso não se mostrassem eficientes as estratégias de evangelização em curso.O livro tem como base a história real da expedição do padre italiano Giovanni Calleri que foi enviada pelo Governo para pacificação dos índios Waimiri-Atroari durante a construção da estrada, uma expedição que tinha…

Louise Glück - Prêmio Nobel de Literarura 2020

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E, mais uma vez, a Academia Sueca surpreendeu ao anunciar a poeta norte-americana Louise Glück de 77 anos como Prêmio Nobel de Literatura 2020 "por sua inconfundível voz poética que, com beleza austera, torna universal a existência individual". Ela receberá 10 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,3 milhões). Até o momento sem livros traduzidos no Brasil, a autora é praticamente desconhecida por aqui. Em 1993, Louise Glück levou o prêmio Pulitzer por seu livro "The wild iris" e o National Book Award, em 2014, por sua antologia "Faithful and Virtuous Night", em que o tema da morte é tratado de forma bem-humorada em memórias. Em 2016, ela recebeu a condecoração National Humanities Medal do então presidente dos EUA, Barack Obama.Abaixo, dois poemas de Louise Glück traduzidos pela escritora, desenhista, pintora e tradutora Camila Assad, conforme matéria publicada hoje no portal G1:
A íris selvagem, Louise Glück
No final do meu sofrimentohavia uma saída.
Me ouç…

Leonardo Almeida Filho - Tutano

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Leonardo Almeida Filho - Tutano - Editora Patuá - 208 Páginas - Projeto gráfico e Diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: 2020. Nesta bonita edição da Patuá, os poemas de Leonardo Almeida Filho dividem espaço com as fotografias de Wanderson Alves, que não se constituem apenas em mera ilustração para este livro, mas sim em verdadeiros "poemas iconográficos em branco e preto", autônomos em sua expressão artística porque "nos fazem refletir sobre o tempo, a existência, a morte, exatamente como faz um grande poema quando nos toca", esclarece o próprio Leonardo em sua nota de apresentação. Tutano é um título que expressa muito bem a matéria essencial dos versos; em uma das muitas acepções da palavra representa a medula óssea, responsável pela produçao das células do sangue que, em última análise, tem a função de oxigenar e defender o organismo, uma imagem que condiz muito bem com o fazer poético. E não há escolha quando a poesia nos pega assim desprevenidos, em ple…

Guille Thomazi - Segure mnha mão

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Guille Thomazi - Segure minha mão - Editora Patuá - 248 Páginas - Projeto gráfico e Diagramação de Alessandro Romio - Lançamento: 2020. O texto de apresentação de Daniel Galera, na orelha do livro, dá uma boa pista do que iremos encontrar neste segundo romance de Guille Thomazi: "Há ecos do sulismo gótico de William Faulkner e Cormac McCarthy aqui. Mas Thomazi é original em tentar levar a poética da brutalidade encontrada nesses autores, a uma espécie de paroxismo estético, no qual a técnica e o engenho humano se contrapõem à essência selvagem e à carne mortal dos seres vivos. [...]". E, realmente, constatamos que em Segure minha mão, o autor vai ainda mais além na estética da violência, construindo uma espécie de romance épico no qual o seu protagonista, Olek, um herói clássico, embora gago e epilético, mantém as suas virtudes morais, apesar do meio inóspito em que sobrevive, tentando superar as circunstâncias adversas, tanto no enfrentamento da natureza selvagem quanto nos …