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Sandra Godinho - As Três Faces da Sombra

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Sandra Godinho - As Três Faces da Sombra - Editora Fora da Caixa - 196 Páginas - Capa e Diagramação de Sara Vertuan - Lançamento: 2020.
As distopias que lidam com regimes políticos totalitários sempre ocuparam um lugar de destaque na literatura e os acontecimentos cruéis deste início de século XXI, norteados pelo fanatismo religioso, os interesses das grandes corporações, tragédias ambientais, atentados terroristas e, recentemente, o avanço de pandemias, parecem ter transformado os romances distópicos em ingênuos contos de fadas. Em seu mais recente lançamento, Sandra Godinho desenvolve um exercício distópico ao imaginar uma nova ditadura militar no Brasil em uma narrativa de ação que prende a atenção do leitor do início até o final do livro.

Salvador Ferreira Falcão, chamado de "General", título que ganhou em deferência à posição de destaque na política nacional, criou uma imagem de homem de bons princípios e de patriotismo e, devido à frustração de grande parte do eleitorado…

Viviane Ferreira Santiago - As dez Marias

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Viviane Ferreira Santiago - As dez Marias - Editora Patuá - 200 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação: Leonardo Mathias - Lançamento: 2019.
O livro de Viviane Ferreira Santiago apresenta uma estrutura com características de romance histórico, novela e conto, mas não pode ser enquadrado em nenhuma dessas categorias. A narrativa principal é conduzida em formato de diário e cartas por Maria Leopoldina da Áustria, a primeira esposa do imperador D. Pedro I e Imperatriz Consorte do Império do Brasil de 1822 até sua morte em 1826, aos 29 anos. Múltiplas narrativas são Intercaladas, também em primeira pessoa, a partir de outras nove Marias, brasileiras de diferentes épocas, nem sempre famosas, mas todas compartilhando a mesma dor de sobreviver em uma sociedade injusta e patriarcal.

Se, por um lado, Maria Leopoldina foi considerada por historiadores como articuladora do processo de Independência do Brasil, por outro, tinha a postura submissa, imposta às mulheres do seu tempo; ela f…

Pádua Fernandes - O desvio das gentes

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Pádua Fernandes - O desvio das gentes - Editora Patuá - 160 Páginas - Projeto Gráfico, Capa e Diagramação: Alessandro Romio - Lançamento: 2019.
O título desta coletânea de poemas de Pádua Fernandes, O desvio das gentes, é uma leitura irônica da expressão direito das gentes, definida em 1775 por Emer de Vattel  como: "A ciência do direito que tem lugar entre Nações ou Estados, assim como das obrigações correspondentes a esse direito.", ou seja, a especialização que é conhecida hoje como Direito Internacional Público, e que deveria abranger também os Direitos Humanos. Outra inspiração para o livro vem do tratado do filósofo Immanuel Kant, A Paz perpétua, lançado em 1795, que se tornou a base do Direito Cosmopolita, considerando que os indivíduos devem se comportar pacificamente com o intuito de se alcançar a paz de convívio mútuo. 

Na introdução de Taís Franciscon, O deserto prega nos homens / O livro das catástrofes, fica claro que os poemas deste livro irão refletir uma visão …

Mia Couto - Estórias abensonhadas

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Mia Couto - Estórias abensonhadas - Editora Companhia das Letras - 160 Páginas - Capa de Alceu Chiesorin Nunes - Ilustração de Angelo Abu - Lançamento no Brasil: 2016 (9ª reimpressão).
É sempre um prazer renovado ler o moçambicano Mia Couto, vencedor do prêmio Camões 2013 e primeiro autor em língua portuguesa a ser finalista do Booker International Prize na versão de 2015. A sua prosa poética é inspirada na rica tradição do folclore africano em contraste com a dura realidade das ex-colônias, depois dos efeitos devastadores de um movimento de guerrilhas pela independência de Portugal (1961 a 1974), sucedido por uma longa e violenta guerra civil (1977 a 1992) que deixou o país em destroços. Este livro, lançado originalmente em 1994, segundo Mia Couto, reúne contos escritos depois da guerra, "entre as margens da mágoa e da esperança", quando tudo parecia indicar que Moçambique não conseguiria superar a destruição, no entanto, ainda citando a linda introdução do autor: "Onde…

Cesar Garcia Lima - Trópico de papel

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Cesar Garcia Lima - Trópico de papel - Editora 7Letras - 64 Páginas - Capa: Alice Garambone - Lançamento: 2019.
A poesia segura e madura de Cesar Garcia Lima tem inspiração na fina ironia de Carlos Drummond de Andrade, nosso maior poeta modernista que, não por acaso, é citado em alguns poemas deste livro. De fato, Trópico de papel tem como base aquele mesmo sentimento de inadequação do indivíduo diante de uma sociedade sem valores, a mesma forma de descobrir o drama e a comédia nas coisas simples do cotidiano, a expressão do universal na visão do particular, aspiração de toda obra literária.

Destaquei três poemas que compartilham dessa visão existencial de Drummond sobre a vida (e a morte), seja no bem-humorado Indulgências onde o artista aceita um marcador de livro como pagamento, na rara e sofrida beleza de Um corpo que cai ou na crítica social presente em Vale-transporte da poesia. 

Convido o leitor a conhecer mais sobre Cesar Garcia Lima, repetindo a oração da simplicidade que o poet…

Cyro Leão - Rafaela em queda

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Cyro Leão - Rafaela em queda - Editora Patuá - 192 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação: Leonardo Mathias - Lançamento: 2019.
Não há como ficar indiferente à experiência literária proposta por Cyro Leão neste Rafaela em Queda, um livro que incorpora elementos de romance, conto, diário e poesia, para questionar a fragilidade da vida e o nosso impasse existencial por meio da ficção. Na primeira parte, acompanhamos de perto três sofridos personagens, solitários e desajustados no ambiente em que vivem: Rafaela, Teles e Rômi.

Rafaela tem uma deformidade de nascença nos pés e vive assustada e isolada do mundo com seus escritos e estranhos personagens: "Rafaela evita convívios, se apavora no escuro, lê muito, escreve sempre, quase não fala ou se relaciona – prefere personagens, ficção: eles nunca incomodam e estão sempre à mão. Quando chega a noite, seus olhos ardem escrevendo e lendo, até dormir cansada e com luz nunca apagada."

"Teles é um imbecil que parece semp…

Michel Houellebecq e Enrique Vila-Matas na longlist do International Booker Prize 2020

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Divulgados os semifinalistas (longlist) do International Booker Prize versão 2020. Desde 2016 a organização, que considera romances de qualquer país, desde que traduzidos para o inglês, passou a premiar anualmente um livro específico e não o conjunto da obra do escritor. A lista de seis finalistas (shortlist) será divulgada em 02/04/2020.

Michel Houellebecq e Enrique Vila-Matas são os nomes mais fortes desta edição com ambos os romances já publicados no Brasil: Serotonina (Editora Alfaguara, 2019) e Mac e seu contratempo (Editora Companhia das Letrs, 2018), respectivamente.

Segundo procedimento da premiação, o valor de de 50.000 libras será dividido igualmente entre autor e tradutor. Segue a longlist completa com os 13 selecionados e as informações na seguinte ordem: Título (com link para a sinopse do livro) / Nome do Autor (Nacionalidade) / Nome do Tradutor / Editora.

Red Dog, de Willem Anker (África do Sul). Traduzido por Michiel Heyns (Pushkin Press);

The Enlightenment of The Greengag…

T. K. Pereira - Vozes

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T. K. Pereira - Vozes - Editora Caos e Letras - 164 Páginas - Projeto gráfico: Cristiano Silva - Arte de Capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2019.
Surpreende a segurança e a originalidade narrativa nesta antologia de 21 contos, livro de estreia de T. K. Pereira com apresentação de Luiz Antonio de Assis Brasil, responsável pela Oficina de Criação Literária da PUC-RS, na qual já passaram alguns escritores de destaque na literatura contemporânea brasileira, e que recomendou a obra como "uma experiência de transcendental humanidade e de autêntica literatura", nada mal para um jovem autor em início de carreira.

Os contos não se enquadram no modelo tradicional, sendo narrados em primeira pessoa e seguindo uma espécie de fluxo de consciência que varia em extensão e formato, de acordo com o histórico e personalidade de cada protagonista. Contudo, o experimentalismo narrativo não compromete a fluência e o prazer da leitura. T. K. Pereira encontra formas para conduzir as vivências de cad…

Ana Paula Maia - Assim na terra como embaixo da terra

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Ana Paula Maia - Assim na terra como embaixo da terra  Editora Record - 144 Páginas - Lançamento: 2017 (2ª edição 2019).
Assim na terra como embaixo da terra é o sexto romance de Ana Paula Maia – vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2018 – que tem como cenário uma colônia penal isolada, em uma região rural não definida, onde não há possibilidade de fuga e os detentos são tratados e caçados como animais. A escritora e roteirista carioca, portanto, se mantém fiel ao estilo de seus livros anteriores, lidando com personagens submetidos a uma realidade violenta e cruel à margem da sociedade, inclusive no mais recente lançamento, Enterre seus mortos (Editora Companhia das Letras, 2018), que levou também o Prêmio São Paulo de Literatura em 2019.

Como a instituição está em processo de desativação, acabou sendo esquecida pelas autoridades, transformando-se, ao longo do tempo, em um campo de extermínio sob a administração do psicopata Melquíades. O fato, que a autora deixa claro na narrativa…

Cristiano Silva Rato - Todos que conheço são suicidas

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Cristiano Silva Rato - Todos que conheço são suicidas - Editora Caos e Letras - 116 Páginas - Projeto gráfico: Cristiano Silva - Arte da capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2019.
Cristiano Silva Rato faz poesia com o acúmulo de perdas que representa a vida para a grande parcela de excluídos em nosso país e que, ironicamente, chamamos de minorias. Há poucas exceções na literatura para dar voz a essas pessoas que têm a sua existência limitada a um teimoso exercício de sobrevivência em uma espécie de suicídio diário.

O autor lida com os preconceitos e violências a que são submetidos aqueles que têm a sua mesma classe e cor nas periferias dos grandes centros urbanos e, portanto, escreve com autoridade e em primeira pessoa como nos lindos versos confessionais de Um canto egoísta (p. 102): "[...] eu sei, escrevo em primeira pessoa, / eu não sou profissional / para sentir além de mim, / as palavras estão se repetindo, / eu voltei à casa de minha morte / e renascimento. / Quanto tempo até q…
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