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André Luiz Pinto - migalha

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André Luiz Pinto - migalha - Editora 7Letras - 72 Páginas - Posfácio de Tarso de Melo - Coordenação Editorial: Isadora Travassos - Lançamento: 2019.
A poesia de André Luiz Pinto reflete a estranheza e o desconforto de uma época sem heróis, um mundo globalizado, contudo estéril de ideias e ideais. Fazemos parte, querendo ou não, de uma geração que pensa construir uma "revoluçao sem sair da poltrona", por meio de uma rebeldia que se limita a postagens de repúdio nas redes sociais. E assim ficamos, cada vez mais conectados, ironicamente solitários e isolados, ou alguém ainda duvida disso?

Esta é a dolorosa matéria-prima com a qual o poeta escolheu trabalhar: a insignificância e a violência de um tempo sem esperança, opção que fica clara em um estilo minimalista de versos curtos, mas que o leitor não se engane com a pretensa simplicidade, a surpresa vem quando menos se espera, como no poema que empresta o título ao livro: "Fiz como você pediu / cortei o poeta / em versos / e …

Ana Elisa Ribeiro - Dicionário de imprecisões

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Ana Elisa Ribeiro - Dicionário de imprecisões - Editora Impressões de Minas - 132 Páginas Projeto gráfico de Elza Silveira - Ilustrações de Wallison Gontijo - Lançamento: 2019
O projeto do livro tem como ponto de partida uma ideia original e muito bem executada por Ana Elisa Ribeiro: fazer poesia com a multiplicidade de definições de algumas palavras, prova de que somos incapazes de dominar por completo o léxico do nosso próprio idioma e que, em alguns casos, mesmo os dicionários tradicionais podem ser fontes pouco confiáveis. Sempre com uma abordagem inteligente e bem-humorada a autora nos apresenta alguns verbetes inusitados que podem revelar, por exemplo, certos preconceitos de gênero enraizados na sociedade ou simplesmente servir de motivo para escrever mais um poema.

Entendo que as tais imprecisões mencionadas no título são decorrentes do caráter incerto do nosso viver, sujeitando as palavras às percepções vivenciadas individualmente e que nenhum dicionário, por mais completo que s…

Sérgio Fantini - Quarenta

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Sérgio Fantini - Quarenta - Editora Pulo - 114 Páginas - Projeto Gráfico e Capa de Jão sobre fotos de Ricardo Laf - Lançamento: Maio/2019.
Era uma vez uma época, antes da internet e redes sociais, na qual os recursos de autopublicação e divulgação eram praticamente inexistentes fora do circuito das grandes editoras. Durante a década de 1970, muita poesia foi publicada por meio de fanzines ou em pequenas edições de baixo custo, datilografadas e mimeografadas, o que permitiu a circulação de textos originais e o surgimento de um movimento que passou a ser conhecido como geração mimeógrafo, ou poesia marginal, por ter se desenvolvido à margem do sistema de publicação tradicional.

O poeta mineiro Sérgio Fantini foi um desses desbravadores da poesia marginal no Brasil e este livro resgata quarenta anos da sua produção poética desde 1979, com uma seleção de poemas de seus oito livros e memórias sobre uma época pré-internet que acaba se confundindo com a história do nosso país nas quatro última…

Maria Valéria Rezende - Carta à rainha louca

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Maria Valéria Rezende - Carta à rainha louca - Editora Alfaguara - 144 Páginas -  Capa: Estúdio Bogotá - Lançamento: 14/04/2019.
Maria Valéria Rezende já é um nome consagrado na literatura brasileira contemporânea, tendo sido vencedora de alguns importantes prêmios nacionais e internacionais com os livros: Quarenta dias (Jabuti 2015) e Outros cantos (terceiro lugar do Jabuti, São Paulo de Literatura e Casa de las Américas, todos em 2017). Seu mais recente lançamento é um romance histórico inspirado por cartas que a própria autora pesquisou há algum tempo entre os documentos do Arquivo Ultramarino de Lisboa, parte de um processo incompleto contra uma mulher acusada de manter um convento em Minas Gerais no século XVIII, sem autorização da igreja e da Coroa. 

Este processo inspirou Maria Valéria a criar uma narradora-protagonista fora dos padrões possíveis para uma mulher no Brasil colonial do Setecentos. Isabel Maria das Virgens não servia para o casamento porque era pobre e, portanto, nã…

Longlist do Booker Prize 2019

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Divulgada a Longlist com os 13 finalistas da edição 2019 do Booker Prize. A primeira novidade é o novo nome da premiação, o Booker Prize – que até hoje era patrocinado pelo Man Group e chamado Man Booker Prize, ganha o patrocínio da fundação Crankstart – e passará a ser divulgado apenas como Booker Prize. Outra novidade é que foi considerado o período entre 1º de outubro de 2018 e 30 de setembro de 2019, logo os livros podem ser inéditos para o público.

Entre os semifinalistas deste ano, dois medalhões da literatura em língua inglesa, a canadense Margaret Atwood e o britânico Salman Rushdie. O romance de Margaret Atwood, uma continuação de O conto da Aia só será lançado em setembro de 2019 e ganha uma publicidade incrível com a premiação, embora nem precisasse depois da famosa série para TV: The Handmaid's Tale. O livro de Salman Rushdie, uma releitura de Dom Quixote, também é inédito e será publicado somente em agosto de 2019.

A lista com os seis livros finalistas (Shortlist) será …

Simone Teodoro - Também estivemos em Pompeia

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Simone Teodoro - Também estivemos em Pompeia - Editora Patuá - 120 Páginas
Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: Julho/2019.
Em seu terceiro livro de poemas, depois de Distraídas Astronautas (Patuá, 2014) e Movimento em Falso (Patuá, 2016), Simone Teodoro volta a expressar o sentimento do poeta em permanente estado de inadequação em seu tempo e espaço, tristeza e solidão. Afinal, como não ser triste "Quando os brutos / chupam o tutano das costelas dos mansos / em mesas fartas?", ou ainda "Quando os simples / são atirados em compactadores de lixo / quando o chorume é o cheiro do mundo?" (O Baú I, p.45). No entanto, a literatura é uma forma de resistir.

Lendo os poemas de Simone, escuto os ecos dos gritos de outras mulheres no passado que também souberam transformar a dor em poesia, mulheres como Sylvia Plath, Elizabeth Bishop, Ana Cristina Cesar e Hilda Hilst, assim como a influência da tradição poética nas raízes do simbolismo fra…

Ian McEwan - Máquinas como eu

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Ian McEwan - Máquinas como eu: e gente como vocês - Editora Companhia das Letras - 328 Páginas - Tradução de Jorio Dauster - Capa de Claudia Espínola de Carvalho - Lançamento: 19/06/2019.
Ian McEwan está de volta com o brilhantismo técnico de sempre, confirmando a sua posição de destaque na literatura inglesa contemporânea. Depois do romance Enclausurado, onde o mais improvável dos protagonistas, um feto no nono mês de gestação, é o responsável pela narrativa em primeira pessoa dentro da barriga da mãe, ele assume agora os riscos de trabalhar em seu mais recente lançamento com um tema já abordado muitas vezes na literatura e também no cinema: os dilemas éticos e morais decorrentes da convivência com androides dotados de aparência humana e alta inteligência cognitiva.

A escolha óbvia da maioria dos escritores seria a de ambientar os personagens em um distante futuro distópico, no entanto isso não representaria um desafio suficiente para McEwan. Em Máquinas como eu, o romance tem como pan…

Cinthia Kriemler - Tudo que morde pede socorro

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Cinthia Kriemler - Tudo que morde pede socorro - Editora Patuá - 164 Páginas Ilustração, Projeto Gráfico e Diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: 2019.
Em seu mais recente lançamento, Cinthia Kriemler volta a escrever sobre situações de abuso sexual e violência doméstica em uma sociedade que, por egoísmo, comodismo ou simplesmente alienação, prefere ignorar os pedidos de socorro das vítimas, submetidas a relacionamentos que se assemelham a prisões; convivências nas quais a tradição patriarcal perpetua modelos retrógrados de comportamento feminino onde até mesmo a maternidade e as tarefas domésticas servem algumas vezes como grilhões. Na verdade, em Tudo que morde pede socorro a autora avança ainda mais nos abismos da intolerância e crueldade, revelando diferentes aspectos da opressão no tempo e no espaço. Seja na pequena cidade de Baependi no sul de Minas Gerais ou na província de Ghazni no Afeganistão, no Brasil do final do século XIX ou em nossa época, a escravidão, explícita o…
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