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Fábio Fernandes - 16

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Fábio Fernandes - 16 - Editora Caos & Letras - 248 Páginas Projeto Gráfico: Cristiano Silva - Capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2023. Esta antologia de contos abrange o período de 30 anos da produção literária do escritor, tradutor e jornalista Fábio Fernandes, englobando uma grande variedade de estilos que podem abordar temas da ficção científica clássica como viagens no tempo e exploração espacial, um realismo distópico mais sombrio ou, até mesmo, gêneros pouco explorados na literatura contemporânea como a ficção histórica, exemplo do ótimo " O alferes de ferro", no qual o autor revisita a Inconfidência Mineira de 1789 e imagina um final bem diferente para o nosso Joaquim José da Silva Xavier, que ficou conhecido na História do Brasil simplesmente como Tiradentes.  O interesse na leitura é constantemente renovado em cada narrativa, fazendo com que o leitor nunca saiba em qual ponto do tempo e espaço encontrará os personagens, assim como as doses de realismo e fantasia

Sergio Geia - Vocabulário de memórias ausentes

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Sergio Geia - Vocabulário de memórias ausentes - Editora Sinete - 156 Páginas - Imagem de capa: Rodrigo Scott - Lançamento: 2023. O mais recente lançamento de Sergio Geia é uma antologia de contos que aborda diferentes aspectos da fragilidade física e psicológica inerente à condição humana, principalmente em uma época na qual as "relações líquidas", como definido por Zygmunt Bauman (1920-2017), tendem a ser menos frequentes e menos duradouras. Portanto, os personagens precisam lidar, cada um a seu modo, com o isolamento decorrente da passagem do tempo e o sentimento de perda e ausência que costumamos chamar de solidão. Neste caso, as lembranças constituem uma pequena esperança de felicidade, ainda que seja confundindo imaginação com realidade. Em "A menina da praia" , conto de abertura do livro, o protagonista, que sempre negou a necessidade de casamento e filhos, percebe que o tempo passou e a idade chegou, assim como a solidão depois da perda dos amigos. Vivendo a

Mariana Ianelli - Turno da madrugada

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Mariana Ianelli - Turno da madrugada - Edições Ardotempo - 272 Páginas Capa e internas: Fotografias de Mariana Ianelli - Lançamento: 2023. Costumo dizer que o brasileiro é um craque na arte de escrever crônicas, inusitado casamento do jornalismo com a literatura, um estilo que não consigo identificar com a mesma originalidade em outros países. De fato, gerações de grandes escritores se tornaram mestres no gênero, tais como:  Machado de Assis, João do Rio, Lima Barreto, Rubem Braga, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, para citar somente alguns nomes. Este mais recente lançamento de Mariana Ianelli reúne 130 textos, publicados entre 2010 e 2022 em livros, jornais e sites, provando que a crônica ainda persiste no gosto popular, apesar da injusta competição com a televisão, redes sociais e, mais recentemente, os famigerados grupos de WhatsApp. Em Turno da madrugada , as crônicas podem ter sido escritas no calor da indignação provocada pelo noticiário ou outras mais lo

Sílvia Mota Lopes - Túnica Íntima

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Sílvia Mota Lopes - Túnica Íntima - Poética Grupo Editorial Lisboa - 78 Páginas - Ilustrações: Sílvia Mota Lopes - Lançamento: 2022. A portuguesa de Braga, Sílvia Mota Lopes, poeta, pintora e ilustradora, publicou uma extensa obra dedicada à literatura infantil e juvenil. Contudo, nos surpreende nesta antologia poética, Túnica Íntima , lançada em 2022, com versos que me fazem lembrar de sua conterrânea Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), referências a uma poesia de imagens, luz e mar. De fato, os poemas de Sílvia confirmam a tradição cultural lusitana de cantar a terra, o sol, o vento e a magia do oceano: "Abarco o rumor das ondas / vacilando entre brisas e silêncios / os seixos alinhados no veio da areia / a apneia do poeta / regressando ao vago da janela." Além da conexão com a natureza, os poemas expressam a sensibilidade feminina diante dos impasses existenciais que a brevidade da vida apresenta:  "Ficou-lhe na cabeça aquela frase / escutada na véspera / en

Elieni Caputo - As coisas de verdade habitam as pedras

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Elieni Caputo - As coisas de verdade habitam as pedras - Editacuja Editora - 60 Páginas - Arte de capa e miolo de Fabiana Carelli - Lançamento: 2023. Após o corajoso exercício de autoficção e ensaio sobre o tratamento psiquiátrico em nosso país apresentado em Laço de Fita , o mais recente lançamento de Elieni Caputo – que chamaremos também de romance na falta de uma definição melhor – é uma obra de caráter experimental com base na alternância das vozes narrativas de dois personagens, como em Um sopro de vida de Clarice Lispector. Neste livro, Elieni parte da inusitada estrutura de diálogo entre uma princesa e um sapo para abordar as suas próprias reflexões existenciais em uma prosa com sabor de poesia e que, no final, funciona como um surpreendente fluxo de consciência. Para entender as tais coisas de verdade que habitam as pedras e que a autora tenta descrever, precisamos deixar um pouco de lado a objetividade e as convicções do cotidiano, compartilhar o estado de sonho proposto no l

Sonia Sant'Anna - Barões e escravos do café

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Sonia Sant'Anna - Barões e escravos do café - Uma história privada do Vale do Paraíba - Editora Ibis Libris - Lançamento: 2023. Um dos livros de maior sucesso na carreira de  Sonia Sant'Anna, Barões e escravos do café é um  romance histórico lançado originalmente em 2001 pela Editora Zahar e republicado em 2023 pela Editora Ibis Libris. Ao longo de  124 anos da história do Vale do Paraíba, descreve o desumano tráfico negreiro, a campanha abolicionista e o apogeu e a decadência dos barões do café. Personagens reais conduzem a narrativa, históricos ou não, como  Mariana das Neves, quinta-avó da autora  e seus descendentes, a africana Laura Conga, companheira do Barão do Tinguá por toda a vida, Tiradentes, o delator Silvério dos Reis, Duque de Caxias, Manoel Congo que liderou um levante de escravos, e os abolicionistas Joaquim Nabuco e Luiz Gama. Fatos marcantes da época ocorrem paralelamente à trama, influindo na vida dos personagens, como a vinda da Corte portuguesa para o Bras

Olga Tokarczuk - Sobre os ossos dos mortos

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Olga Tokarczuk - Sobre os ossos dos mortos - Editora Todavia - 256 Páginas - Tradução de Olga Baginska-Shinzato - Capa: Flávia Castanheira - Ilustração de capa: Talita Hoffmann - Lançamento: 2019. A polonesa Olga Tokarczuk foi a vencedora do Man Booker International Prize versão 2018 com o romance Flights , lançado no Brasil em 2014 como Os Vagantes pela Editora Tinta Negra e, no mesmo ano (concedido em 2019), levou o Prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto da obra. Como era de se esperar nesses casos, a autora, pouco conhecida em nosso país na época, recebeu grande atenção da mídia e lançamentos em tradução direta do polonês, publicados pela Editora Todavia: Sobre os ossos dos mortos (2019), A alma perdida (2020), Correntes (2021), Escrever é muito perigoso: Ensaios e conferências (2023) e  Um senhor notável (2023). Sobre os ossos dos mortos é um inusitado romance policial ambientado em uma remota região da Polônia, fronteira com a República Tcheca, onde Janina Dusheiko, engenh

Micheliny Verunschk - Caminhando com os mortos

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Micheliny Verunschk - Caminhando com os mortos - Companhia das Letras - 144 Páginas - Capa: Alceu Chiesorin Nunes - Imagem de capa: Jurema Preta visita Satanás de Stephan Doitschinoff - Lançamento: 2023. Ao descrever as consequências da intolerância religiosa,  Micheliny Verunschk, em seu mais recente romance, me faz refletir sobre o filósofo Baruch de Espinosa (1632-1677), crítico do modelo de religião na qual Deus é um ser colérico ao qual se deve prestar culto para que seja sempre benéfico, originando também intermediários e intérpretes da Sua vontade, capazes de oficiar os cultos, profetizar eventos e invocar milagres. O conceito de Espinosa de um Deus Natureza em oposição ao Deus humanizado das religiões parece ainda mais necessário principalmente em regiões do interior do Brasil, assoladas pela pobreza e ignorância. A população, sem assistência do Estado, torna-se uma  presa fácil para pastores inescrupulosos.  De fato, me ocorre uma citação de outro famoso filósofo, Blaise Pas

Han Kang - A vegetariana

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Han Kang - A vegetariana - Editora Todavia - 176 Páginas - Tradução de Jae Hyung Woo - Capa de Pedro Inoue - Lançamento no Brasil: 2018. Narrado a partir de três vozes com perspectivas totalmente diferentes, o poderoso romance da sul-coreana Han Kang, vencedor do Man Booker International Prize de 2016, que chegou a ter o seu estilo definido como kafkiano por boa parte da crítica mundial, descreve a perturbadora transformação de uma mulher comum não apenas devido à sua rejeição ao consumo de carne, mas também a todos os padrões esperados de comportamento social e familiar. Os efeitos desta lenta inadaptação e consequente desumanização, afetam não somente a protagonista, mas também os integrantes da sua família, particularmente o marido, o cunhado e a irmã mais velha, desencadeando assim uma série de eventos que irão destruir as relações familiares. Para reforçar o efeito de distanciamento e inadaptação , não é concedida pela autora uma voz narrativa para a própria protagonista, tudo o q

Haruki Murakami - Primeira pessoa do singular

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Haruki Murakami - Primeira pessoa do singular - Editora Alfaguara - 168 Páginas - Capa de Alceu Chiesorin Nunes - Imagem de capa: My Tattoo , de Lee Heinen - Lançamento: 2023. O mais recente lançamento de um dos autores prediletos da casa é uma coletânea de oito contos conduzidos por um protagonista-narrador inspirado pelo próprio Haruki Murakami e suas memórias, nem sempre verdadeiras é claro, assim como as incursões ao universo fantástico e paralelo em meio às suas obsessões com o o jazz, a música clássica, os Beatles, beisebol e a cultura pop ocidental de uma forma geral. Desta vez temos poucas referências aos gatos, presença constante em outras obras, mas em contrapartida ganhamos a participação de um macaco falante e suas reminiscências em A confissão do macaco de Shinagawa , um inusitado personagem que rouba os nomes das mulheres pelas quais se apaixona, provocando uma inconveniente perda de identidade em suas vítimas, mais Murakami do que isso é impossível. A música, como não po