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Vladimir Nabokov - Ada ou Ardor: Crônica de uma família

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Vladimir Nabokov - Ada ou Ardor: Crônica de uma família - Editora Alfaguara - 608 Páginas - Tradução de Jorio Dauster - Posfácio de Brian Boyd - Capa: Violaine Cadinot - Foto de Capa: Mary Jane Ansell - Lançamento: 2021. Vladimir Nabokov (1899-1977) é um autor que soube como poucos tangenciar o perigoso limite entre a literatura e a perversão, se é que tal limite existe de fato. Lolita , lançado em 1955, é o seu romance mais conhecido e também controverso ao descrever a paixão doentia de um professor universitário de meia-idade por sua enteada de 12 anos, com quem se envolve sexualmente. Ada ou Ardor , publicado originalmente em 1969 e também escrito em inglês, é um romance bem mais ambicioso e complexo do ponto de vista literário, contudo volta a abordar de forma explícita os temas de pedofilia e incesto. Ivan Veen (Van) e Adelaida (Ada) vivem uma história de amor nada convencional desde quando eram crianças,  ele com 14 e ela com 12 anos,  acreditando que eram primos (os seu pais, De

George Alex Andrade - Detox

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George Alex Andrade - Detox - Volume 1 da série Peripécias Peripatéticas - Editora Chiado - 694 Páginas - Capa: George Alex Andrade - Composição gráfica: António Afonso - Lançamento: 2021. Na Clínica Büngzli, localizada nas proximidades de Lucerna na Suíça, um método de desmemoriação ou desintoxicação autobiográfica, permite aos pacientes se livrarem de suas memórias tóxicas em questão de horas ou dias. Segundo o Dr. Carl, idealizador do processo, a população mundial se tornou dependente da tecnologia e dos psicotrópicos utilizados para todas as finalidades, submetendo-se ao domínio do mundo virtual com a popularizaçao das mídias sociais, fato que provocou uma verdadeira "onda tecnológica zumbificante", inibindo a capacidade de reflexão própria das pessoas e transformando-as em mortos-vivos. Logo, para reconstituir a liberdade do pensamento, é necessária uma intervenção purificadora pelo tratamento de desmemoriação, resumido no seguinte lema:  "Somente ao esquecer é que

Leonardo Valente - criogenia de D.

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Leonardo Valente - criogenia de D. ou manifesto pelos prazeres perdidos - Editora Mondrongo - 130 Páginas - Capa de Cláudio Duarte sobre a tela "Figuras em azul", de Ismael Nery (1920) - Lançamento: 2021. Todos conhecemos os benefícios de um narrador pouco confiável como estratégia narrativa ficcional, tanto para a revelação controlada de elementos da trama quanto para a construção de um desfecho inesperado, contudo, em seu mais recente lançamento, Leonardo Valente leva este recurso até as últimas consequências ao nos apresentar um(a) protagonista sem gênero fixo que, ao desnudar-se de maneira farsesca, busca a perpetuação criogênica pela escrita, revelando ao mesmo tempo os impasses e ansiedades tão comuns do nosso tempo. Um  livro difícil de definir e resenhar porque a androginia de D. provoca uma falta de referência que a princípio desnorteia o leitor, mas permite ao autor se libertar da  camisa de força do corretor ortográfico e escrever simplesmente, conduzindo o livro o

Denis Rafael Ramos - Para que se façam sempre os dias e as noites

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Denis Rafael Ramos - Para que se façam sempre os dias e as noites - Editora Reformatório - 86 Páginas - Imagem de capa: "A leitora" (óleo sobre tela) de Auguste Renoir, 1875 - Design e editoração eletrônica: Karina Tenório - Lançamento: 2020. A feliz escolha da capa nos remete ao impressionismo de Renoir no século XIX e antecipa, de certa forma, a técnica refinada empregada nesta novela de estreia de Denis Rafael Ramos que, apesar da curta extensão, nos encanta pela densidade e maturidade na condução da narrativa, ambientada em uma época e local indefinidos e  sob o ponto de vista de Nazaré, o filho caçula que nos apresenta, por meio de suas lembranças, a  história da própria família, marcada pela morte violenta do pai. Uma opção acertada do autor foi trabalhar com a voz narrativa em terceira pessoa, o que deslocou o foco para outros personagens, seus dois irmãos, Florindo e Manoela, assim como revelou a origem da infelicidade dos pais. Ao longo do livro, percebe-se  uma  con

Anderson Felix - Matei minha mãe

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Anderson Felix - Matei minha mãe - Kotter Editorial - 244 Páginas Projeto e Edição Gráfica: Cintia Belloc - Lançamento: 2020. Anderson Felix surpreende neste típico romance de formação – na linha de  Daniel Galera em Mãos de Cavalo ou  Barba Ensopada de Sangue –,  criando personagens carismáticos e diálogos bem construídos, só que adotando uma pegada ainda mais visceral.  Matei minha mãe é narrado em primeira pessoa por Samuel dos Passos, um protagonista adolescente, morador da periferia de Florianópolis que acredita, como destacado no provocativo título, ter sido o responsável pela morte da própria mãe, direcionando toda a culpa e a raiva acumuladas para um hábito de isolamento e sessões de  masturbação compulsivas. A narrativa é feita em retrospectiva pelo protagonista e ambientada no final dos anos noventa, assumindo um tom direto e coloquial que empresta credibilidade à voz do personagem, um rapaz de apenas 15 anos frustrado com a falta de opções e cuja única referência afetiva,

Diego Ruas - A fome é a mãe de todas as bombas

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Diego Ruas - A fome é a mãe de todas as bombas - Editora Penalux - 100 Páginas  Capa e Diagramação de Talita Almeida - Lançamento: 2020. Como fica claro a partir do título –  A fome é a mãe de todas as bombas –  não falta engajamento político ao livro de Diego Ruas, afinal o poeta não pode ignorar a realidade que o cerca, já gritam os versos iniciais: "Como ser neutro, se a realidade / é uma lâmina que atravessa meu peito / e recorta meu país em classes?" ou no aviso que cala fundo em nossa alma: "Se a gente não toma cuidado, / a vida se torna morte / cotidiana, do melhor / que a gente tem / dentro / de / nós." , não podemos deixar que isso aconteça e para nos alertar serve também a poesia. A declaração está feita no melhor estilo de Paulo Leminski: "[...] Quero todas as coisas ao mesmo tempo. / Eu sou uma parte do mundo no mundo / a perder à vista. / Quero jogar uma bomba na rotina / e incendiar o mundo / de borboletas. //  Eu sou uma bomba atônita / em estad

Zeh Gustavo - Eu algum na multidão de motocicletas verdes agonizantes

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Zeh Gustavo - Eu algum na multidão de motocicletas verdes agonizantes - Editora Viés - 108 Páginas - Capa de Gessica Marques - Apresentação de Alberto Mussa - Lançamento: 2018. Os 21 contos de Zeh Gustavo reunidos nesta mais recente coletânea são constituídos por uma prosa muito própria, cadenciada e rica em neologismos, que busca reproduzir com lirismo a linguagem e os costumes das ruas do Rio de Janeiro e, ao dar voz a uma  legião de personagens tipicamente cariocas, sempre em um tom confessional em primeira pessoa, produz uma literatura na melhor tradição de escritores que souberam retratar e eternizar a cidade, cada qual no seu tempo, tais como: Machado de Assis, João do Rio e Lima Barreto. Uma outra característica do autor é flagrar os seus protagonistas – autênticos perdedores que ainda preservam uma dignidade possível, – em um realismo marcado por situações-limite das quais não conseguem escapar e fazendo os textos de Charles Bukowski parecerem ingênuos, como em  Por sobre o ruí

Haruki Murakami - Sul da fronteira, oeste do sol

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Haruki Murakami - Sul da fronteira, oeste do sol - Editora Alfaguara - 176 Páginas - Tradução de Rita Kohl - Capa: Alceu Chiesorin Nunes - Imagem de capa: "Ancient Sea, Nautilus" de Mayumi Oda, 1986. Lançamento: 2021. Lançado originalmente em 1992, Sul da fronteira, oeste do sol é um romance  narrado em retrospectiva por Hajime, um protagonista que se aproxima da meia-idade com um casamento estável e duas filhas, tendo se tornado um bem-sucedido proprietário de dois bares de jazz em Tóquio. No entanto, depois de muitos anos, ao reencontrar e se apaixonar por Shimamoto, uma amiga de infância, enfrenta uma crise existencial e questiona a suposta felicidade de uma vida confortável e resolvida. Um enredo aparentemente simples, caso não estivésemos tratando de um livro de Haruki Murakami. Na primeira parte, Hajime descreve o período da sua infância em uma cidade do interior durante o período de pós-guerra no Japão no qual era comum as famílias terem duas ou três crianças como pa

Aline Bei - Pequena coreografia do adeus

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Aline Bei - Pequena coreografia do adeus - Editora Companhia das Letras - 264 Páginas - Capa: Julia Masagão - Imagem de capa: Louise Bourgeois, Etats modifiés , 1992 -  Lançamento: 2021. Aline Bei enfrenta o desafio de lançar o segundo livro depois do estrondoso sucesso de crítica e público de O peso do pássaro morto (2017), vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, ou seja, vencer a síndrome do segundo romance que, nesses casos, se caracteriza pela própria expectativa em manter ou, de preferência, superar o nível de qualidade do primeiro lançamento. Em Pequena coreografia do adeus , a  autora consolida a sua criativa técnica de "romance-poema" ao incorporar elementos de prosa e poesia, assim como o efeito da distribuição das palavras na página impressa e diferentes tamanhos de fonte, conseguindo uma ferramenta inusitada de controle do ritmo narrativo. A jovem protagonista Júlia Terra precisou aprender a conviver desde muito cedo com a inadequação e a solidão decorrentes d

Michel de Oliveira - O amor são tontas coisas

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Michel de Oliveira - O amor são tontas coisas - Editora Moinhos - 72 Páginas - Capa: Sergio Ricardo - Projeto Gráfico e Diagramação: Luís Otávio Ferreira - Lançamento: 2021 O mais recente lançamento de Michel de Oliveira, após o livro de contos O sagrado coração do homem ,  finalista do Prêmio Açorianos em 2019, é   uma antologia de poemas e, quem diria, a poesia em tempos de pandemia ainda consegue falar de um amor sensual e sem pudores que, por vezes, me lembra os versos de Paulo Leminski (1944-1989): "que diferença faz / se por cima / ou por baixo / na frente / ou atrás / se cospe / ou me engole / o que importa / é mais" (p. 17) ou, em outras, o resgate do estilo bem-humarado e ingênuo de Cacaso (1944-1987): "tua solidão / é tão sozinha / que não consegue / encontrar a minha" (p. 47). Por sinal, Leminski e Cacaso fazem muita falta em tempos tão sombrios, dois poetas que nos deixaram muito cedo. Para tratar de um tema já tão explorado na poesia universal, o auto