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André Tessaro Pelinser - O céu das pequenas criaturas

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André Tessaro Pelinser - O céu das pequenas criaturas - Editora Urutau - 92 Páginas Diagramação e Capa: Victor H. Azevedo - Lançamento: 2021. O livro de estreia de André Tessaro Pelinser surpreende  ao apresentar uma poesia engajada que reflete sobre temas políticos e sociais contemporâneos, mas sem descuidar do lirismo. A catástrofe da pandemia está presente em alguns poemas como  políticas públicas : "É preciso e urgente / padronizar a matemática dos corpos / quantificar os sistemas de infecção / organizar a logística dos necrotérios / garantir matéria-prima às funerárias / madeira e carne em ritmo acelerado [...]" (p. 48) ou provas do crime : "as digitais do assassino / dependem de seus cúmplices, / cada morte é um ato de fé coletivo / assinado em papel timbrado / com carimbo ministerial" (p. 54). Certas questões humanas também inspiram o poeta, como a angústia existencial decorrente da passagem do tempo em contagem : "contra o silêncio do mundo / segue ex

Alex Xavier - Não vai dar tempo

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Alex Xavier - Não vai dar tempo - Editora Patuá - 136 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: 2022. Grandes nomes da literatura brasileira tiveram origem em redações de jornais e revistas: Machado de Assis, Lima Barreto, Rubem Braga, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Nelson Rodrigues, Millôr Fernandes, João Ubaldo Ribeiro e Luis Fernando Verissimo, para citar apenas alguns.  O texto jornalístico, por mais interessante que seja, já nasce predestinado a uma breve existência nos meios de comunicação impressos ou digitais, além da ameaça de se tornar precocemente datado, devido à velocidade do noticiário atual. A mais recente antologia de contos do jornalista e escritor Alex Xavier apresenta uma ideia genial, todas as 21 narrativas são construídas no limite entre a ficção e a realidade e conforme a divisão das editorias tradicionais de um jornal, por exemplo: Carta do leitor , Brasil , Política , Internacional , Ciência ,

Alan Pauls - A metade fantasma

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Alan Pauls - A metade fantasma - Editora Companhia das Letras - 328 Páginas Capa: Violaine Cadinot - Lançamento: 2022. Assim como no romance O passado , Alan Pauls volta a avaliar neste mais recente lançamento a intimidade da vida amorosa de um casal, no entanto, o contexto aqui é mais atual, abordando a influência da internet, particularmente das plataformas virtuais de comunicação e comércio, nas relações humanas, ferramentas que foram criadas pretensamente com o objetivo de aproximar as pessoas e atingem resultado oposto na prática, acentuando a solidão de uma época globalizada, ainda maior devido ao recente isolamento social provocado pela pandemia. Por sinal, isolamento social é uma expressão que define bem o comportamento de Savoy, o protagonista deste romance, um homem solitário na meia-idade com um hábito muito peculiar: ele visita imóveis para alugar, de preferência ainda ocupados pelos antigos moradores, com a intenção de flagrar com essas "rondas imobiliárias" alg

Alan Pauls - O passado

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 Alan Pauls - O passado - Editora Companhia das Letras - 608 Páginas - Capa: Violaine Cadinot Tradução de Josely Vianna Baptista - Lançamento: 2022. Este é o quarto e mais importante romance do argentino Alan Pauls, escritor,  jornalista, roteirista e crítico de cinema , considerado um dos grandes nomes da literatura latino-americana contemporânea. O livro foi o vencedor do conceituado  Prêmio Herralde de 2003, concedido para obras de ficção em língua espanhola,  adaptado em 2004 para o cinema em filme homônimo de Hector Babenco e lançado originalmente no Brasil pela saudosa Editora Cosac Naify em 2007, sendo relançado agora pela Editora Companhia das Letras, juntamente com a campanha de promoção do novo e aguardado romance de Alan Pauls: A metade fantasma . Rímini e Sofía decidem se separar após 12 anos de uma relação intensa, invejada pelos amigos, que começou ainda na adolescência. A decisão é pacífica e ambos parecem concordar que o melhor caminho é que cada um siga a sua própria v

Sandra Godinho - A morte é a promessa de algum fim

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Sandra Godinho - A morte é a promessa de algum fim - Editora Penalux - 250 Páginas Capa e Diagramação de Guilherme Peres - Lançamento: 2021. O mais recente lançamento de Sandra Godinho é um romance histórico muito peculiar e que tem como ponto de partida a pandemia de Covid-19 em Manaus, como bem sabemos uma das regiões onde a ação do vírus foi mais cruel e devastadora. Messias Machado é um empresário que enriqueceu às custas de uma moral extremamente flexível e negócios ilícitos, sempre apoiado por suas relações de poder com políticos corruptos. Após ser contaminado, devido à própria negligência, transmite o vírus para o filho único de oito anos de idade que não resiste às consequências. Ainda sob o efeito desta tragédia, descobre a traição da esposa e a mata. A floresta amazônica, assim como o Casarão, localizado às margens do Rio Negro, chamado de Ruínas de Paricatuba e  construído no século  XIX , formam o cenário onde Messias Machado, agora um fugitivo da justiça e de si mesmo, bu

Débora Ferraz - Ogivas

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Débora Ferraz - Ogivas - Editora Caos & Letras - 196 Páginas - Projeto Gráfico: Cristiano Silva Capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2022. A ambiguidade no título desta mais recente antologia de contos de Débora Ferraz desperta a curiosidade do leitor. Afinal, trata-se de referência às estuturas formadas por dois arcos que se cortam em ângulo, chamadas também de arcos ogivais, tão comuns na arquitetura gótica que revolucionou a história da arte ou trata-se de referência às temidas ogivas nucleares, presentes nos mísseis de longo alcance? Depois de ler as narrativas curtas e afiadas da autora não me resta dúvida de que a intenção aqui é de que a arte, na forma leve de construção literária dos contos, possa ser também uma arma demolidora contra o preconceito e a violência cotidianas. E Débora Ferraz, que já foi vencedora dos  Prêmios Sesc e São Paulo de Literatura,  prepara as suas bombas como uma "exímia terrorista literária" na ótima definição do escritor Bruno Ribeiro na o

Cesare Pavese - Trabalhar cansa

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Cesare Pavese - Trabalhar cansa - Editora Companhia das Letras - 384 Páginas - Tradução e introdução de Maurício Santana Dias - Capa de Victor Burton - Lançamento: 2022. Um importante relançamento da Companhia das Letras que adquiriu parte do acervo da saudosa Editora Cosac Naify, incluindo esta obra que havia sido publicada no Brasil em 2009 como parte da Coleção Ás de Colete, com destaque para a primorosa tradução de  Maurício Santana Dias,  resultado de sua tese de doutorado: "Lavorare stanca: o projeto impossível de Cesare Pavese" , apresentada à Universidade de São Paulo em 2002. Nesta edição bilíngue, foi preservada também a detalhada introdução do tradutor:  "A oficina irritada de Cesare Pavese" que explica o contexto de criação dos poemas, assim como o processo de tradução. Os poemas desta antologia, livro de estreia de Cesare Pavese, lançado originalmente em 1936 e publicado em sua forma definitiva sete anos depois, foram criados no período de 1930 a 1940,

Yukio Mishima - Confissões de uma máscara

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Yukio Mishima - Confissões de uma máscara - Editora Companhia das Letras - 200 Páginas - Tradução do japonês de Jaqueline Nabeta - Capa de Silvia Ribeiro - Lançamento: 2021. Yukio Mishima (1925-1970) levou ao limite a relação entre literatura e realidade, tendo cometido o suicídio ritual dos samurais, seppuku , conhecido vulgarmente no ocidente como harakiri em uma cerimônia completa que foi concluída com a sua decapitação por um assistente. Ele é considerado, juntamente com Yasunari Kawabata (prêmio Nobel de 1968) e Junichiro Tanizaki, um dos grandes nomes da literatura japonesa moderna. O primeiro sucesso de Yukio Mishima foi Confissões de uma máscara , lançado em 1949, romance de teor autobiográfico no qual um jovem homossexual tenta se convencer de que pode mudar as suas opções sexuais e a própria essência para atender aos padrões de comportamento da rígida sociedade japonesa. Narrado em primeira pessoa, este torturado romance de formação está inserido no contexto de uma nação domi

Philip Roth - Por que escrever?

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Philip Roth - Por que escrever? Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013) - Editora Companhia das Letras - 568 páginas - Tradução de Jorio Dauster - Lançamento: 2022. Ninguém melhor do que o próprio Philip Roth (1933-2018) para definir logo no prefácio a intenção e abrangência deste livro, último volume de sua obra completa publicado pela Library of America: "Aqui estou, tendo saído de detrás do biombo de disfarces, invenções e artifícios do romance. Aqui estou, sem recurso a truques de prestidigitação e desprovido de todas aquelas máscaras que proporcionaram a grande liberdade de imaginação da qual fui capaz de desfrutar como escritor de ficção" . De fato, é uma rara oportunidade para conhecermos as motivações e os bastidores do processo criativo de um dos maiores autores norte-americanos na elaboração de seus romances, assim como a sua visão sobre a literatura nos séculos XX e XXI. O livro é formado por uma compilação de mais de 30 ensaios, conferências e entrevistas