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César Vallejo - Escalas Melografiadas e Fábula Selvagem

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César Vallejo - Escalas Melografiadas e Fábula Selvagem - Editora Bandeirola - 176 Páginas - Tradução de Ellen Maria Martins de Vasconcellos - Projeto gráfico, capa, diagramação: Thaís de Bruÿn Ferraz - Lançamento: 2022. O escritor peruano César Vallejo (1892-1938) lançou dois livros de poesia em vida: Os Arautos Negros (1918) e Trilce (1922). Depois, em 1923, publicou  Escalas Melografiadas e Fábula Selvagem , obras em prosa, reunidas neste volume em tradução inédita no Brasil, projeto editorial de Sandra Abrano da Editora Bandeirola, prefácio de João Mostazo e posfácio de Antonio Merino. Ainda em 1923, após ser preso injustamente por 112 dias, Vallejo deixou o Peru para um exílio voluntário na Europa, tendo morrido na França aos 46 anos, em 1938. Hoje é considerado um dos grandes escritores da literatura hispano-americana do séulo XX, tendo consolidado um estilo fantástico que inspirou, entre outros movimentos, o realismo mágico na literatura latino-americana da década de 1950. Os

João Paulo Parisio - Beija-flor

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João Paulo Parisio - Beija-flor - Editora Vacatussa - 132 Páginas - Edição, projeto gráfico e revisão: Thiago Corrêa Ramos - Ilustração: Andrea Tom - Lançamento: 2022. Os oito contos do pernambucano João Paulo Parisio têm em comum a presença de crianças como protagonistas. Contudo, não é a inocência dessas personagens que é abordada pelo autor nas narrativas, normalmente histórias cruéis com situações de violência física e psicológica vivenciadas por meninos e meninas que têm a sua infância invadida e roubada pelo mundo dos adultos, testemunhas involuntárias de cenas brutais entre os pais e  alvos de agressões ou até mesmo forçadas a praticar, elas próprias, atos violentos como forma de sobrevivência. É o caso do famigerado homem-aranha dos noticiários, saqueador de apartamentos, que pode ser confundido momentaneamente com um homem, mas sob o olhar atento e generoso de uma das vítimas se torna apenas um menino novamente. O cenário é sempre uma surpresa, variando entre os grandes centro

Natalia Ginzburg - A cidade e a casa

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Natalia Ginzburg - A cidade e a casa - Editora Companhia das Letras - 304 Páginas - Capa: Raul Loureiro - Imagem de capa: Louise Bourgeois - Lançamento: 2022. Natalia Ginzburg (1916-1991) criou neste romance um efeito polifônico único  ao reunir as cartas de um grupo de amigos  e múlltiplos pontos de vista – nem sempre confiáveis – de acordo com as personalidades de cada personagem. De fato, o leitor vai construindo aos poucos a sua versão da história ao organizar e validar os fragmentos narrativos, do particular para o geral, em uma aproximação já sugerida no título. A autora explica o processo em entrevista de 1984, reproduzida nesta edição: "Tinha um grande desejo de escrever em primeira pessoa, mas também em terceira. Queria os privilégios de ambas as formas. Queria um 'eu' que correspondesse a um 'ele'; uma primeira pessoa, porém, com muitas facetas, múltiplas. As cartas são isso. em vez de um só 'eu' que narra os outros e si mesmo, muitos 'eus'

Paulina Chiziane - Balada de amor ao vento

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Paulina Chiziane - Balada de amor ao vento - Editora Companhia das Letras - 176 Páginas - Capa e imagem de Angelo Abu - Lançamento: 2022. Balada de amor ao vento , romance publicado originalmente em 1990, marcou a estreia da moçambicana Paulina Chiziane na literatura. Ela, que foi  na época   a primeira mulher a publicar um livro em Moçambique, também foi a primeira africana a ser distinguida com o Prêmio Camões em 2021.  A obra da autora discute as dificuldades e desafios da condição feminina, sujeita aos aspectos políticos, culturais e religiosos da sociedade moçambicana, fortemente patriarcal, criticando a prática de poligamia no país. A descrição lírica da natureza está sempre presente, acompanhando e simbolizando os prazeres e frustrações dos personagens, construindo assim uma prosa poética que, de forma semelhante aos romances de seu conterrâneo Mia Couto, contrasta com a dura realidade de um país que foi devastado pela guerra de libertação e os conflitos civis posteriores à inde

Paulo Henriques Britto - Fim de verão

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Paulo Henriques Britto - Fim de verão - Editora Companhia das Letras - 96 Páginas - Capa: Kiko Farkas / Máquina Estúdio - Lançamento: 2022. Em seu mais recente lançamento, nono livro de poemas, encontramos Paulo Henriques Britto na sua melhor forma de tradutor e poeta, como ele demonstra, por exemplo, na  genial e bem-humorada construção que é  Três traduções e treze variações sobre um poema de Emily Dickinson , compondo com inteligência e uma boa dose de sarcasmo a partir das contradições entre ciência e religião: "A fé é uma faca cega / com fraco poder de corte. / Serve para aparar (um pouco) / o pavor da morte. // O prudente, com seu microscópio, / um dia morre, sozinho. / E o cavalheiro da fé? / – Morre igualzinho." Não satisfeito, o poeta é ainda mais explícito em Vers de circonstance (BRASIL 2020) - I. IMUNIDADE DE REBANHO : "Pensar é coisa trabalhosa. A ignorância / é o sumo bem dos cidadãos de bem, / é a verdadeira marca dos eleitos. / Ter sucesso é não ter que

Manoel de Barros - Gramática expositiva do chão

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Manoel de Barros - Gramática expositiva do chão - Editora Alfaguara - 88 Páginas - Capa e projeto gráfico de Regina Ferraz - Imagem de capa de Martha Barros - Lançamento original: 1969 / Relançamento: 2022. Este é quinto  livro de poemas de Manoel de Barros (1916-2014), o nosso grande mestre da desimportância, como costumo nomeá-lo, um  homem que tinha um jeito diferente de ver o mundo a partir de um talento nato para enxergar as coisas simples da natureza. O prefácio da escritora Clarice Freire define muito bem a essência da poesia de Manoel de Barros: "santuário das coisas invisíveis" , ou ainda mais certeira quando afirma: "Mais fácil ver brilho numa estrela do que em caracol. Mas há brilho nos dois. Um é quente e explosivo, o outro se arrasta como um cometa que não tem pressa. O caracol é mais antes que depois, por isso carrega a calma que não se entende longe do solo." Nesta obra, prosa e poesia se confundem para formar uma grande celebração de tudo aquilo que

Fernando Pessoa - Poesia completa de Ricardo Reis

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Fernando Pessoa - Poesia completa de Ricardo Reis - Editora Companhia das Letras - 256 Páginas - Capa e projeto gráfico de Elaine Ramos e Julia Paccola - Lançamento: 2022. Fernando Pessoa (1888-1935) criou heterônimos com diferentes personalidades imaginárias e estilos, sendo alguns dos mais famosos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares. As odes e poemas de Ricardo Reis guardam alguma semelhança com a poesia de Alberto Caeiro, mas podemos constatar que os questionamentos filosóficos do primeiro estão mais relacionados à brevidade da existência e à necessidade de viver plenamente cada momento:  "Nada fica de nada. Nada somos. / Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos / Da irrespirável treva que nos pese / Da úmida terra imposta, / Cadáveres adiados que procriam. / Leis feitas, státuas altas, odes findas – / Tudo tem cova sua. Se nós, carnes / A que um íntimo sol dá sangue, temos / Poente, por que não elas? /  Somos contos contando contos, nada." (28-

Shirley Jackson - A loteria e outros contos

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Shirley Jackson - A loteria e outros contos - Editora Alfaguara - 264 Páginas - Tradução: Débora Landsberg - Capa: Elisa von Randow - Imagem:  Nightfall , de Will Barnet - Lançamento: 2022 Apesar de ter escrito romances, livros de memória, novelas e narrativas curtas, a carreira de Shirley Jackson (1916-1965) ficou marcada – para o bem e para o mal, como ocorre geralmente nesses casos – por um único conto,  A loteria , que consta obrigatoriamente em qualquer seleção de grandes contos norte-americanos do século XX, sendo considerado um marco moderno na literatura de terror e influenciado alguns famosos autores contemporâneos do gênero. A narrativa, publicada originalmente em 1948 pela New Yorker, descreve uma estranha tradição anual em uma pequena comunidade fictícia no interior dos Estados Unidos, que provocou uma forte reação nos leitores mais conservadores na época por meio de várias cartas de reclamação e até mesmo o cancelamento de assinaturas, devido à crueldade e brutalidade suge