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Mostrando postagens de 2020

Ana Paula Maia - Assim na terra como embaixo da terra

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Ana Paula Maia - Assim na terra como embaixo da terra  Editora Record - 144 Páginas - Lançamento: 2017 (2ª edição 2019).
Assim na terra como embaixo da terra é o sexto romance de Ana Paula Maia – vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2018 – que tem como cenário uma colônia penal isolada, em uma região rural não definida, onde não há possibilidade de fuga e os detentos são tratados e caçados como animais. A escritora e roteirista carioca, portanto, se mantém fiel ao estilo de seus livros anteriores, lidando com personagens submetidos a uma realidade violenta e cruel à margem da sociedade, inclusive no mais recente lançamento, Enterre seus mortos (Editora Companhia das Letras, 2018), que levou também o Prêmio São Paulo de Literatura em 2019.

Como a instituição está em processo de desativação, acabou sendo esquecida pelas autoridades, transformando-se, ao longo do tempo, em um campo de extermínio sob a administração do psicopata Melquíades. O fato, que a autora deixa claro na narrativa…

Cristiano Silva Rato - Todos que conheço são suicidas

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Cristiano Silva Rato - Todos que conheço são suicidas - Editora Caos e Letras - 116 Páginas - Projeto gráfico: Cristiano Silva - Arte da capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2019.
Cristiano Silva Rato faz poesia com o acúmulo de perdas que representa a vida para a grande parcela de excluídos em nosso país e que, ironicamente, chamamos de minorias. Há poucas exceções na literatura para dar voz a essas pessoas que têm a sua existência limitada a um teimoso exercício de sobrevivência em uma espécie de suicídio diário.

O autor lida com os preconceitos e violências a que são submetidos aqueles que têm a sua mesma classe e cor nas periferias dos grandes centros urbanos e, portanto, escreve com autoridade e em primeira pessoa como nos lindos versos confessionais de Um canto egoísta (p. 102): "[...] eu sei, escrevo em primeira pessoa, / eu não sou profissional / para sentir além de mim, / as palavras estão se repetindo, / eu voltei à casa de minha morte / e renascimento. / Quanto tempo até q…

Godofredo de Oliveira Neto - Marcelino

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Godofredo de Oliveira Neto - Marcelino - Editora Ímã - 260 Páginas - Lançamento: 2019
Marcelino é um romance histórico ambientado em 1942 durante o último período do governo de Getúlio Vargas que se convencionou chamar de Estado Novo, no momento em que o Brasil rompia as relações diplomáticas com a Alemanha, o Japão e a Itália, devido aos ataques a navios mercantes brasileiros por submarinos alemães, ações que acabaram definindo a posição política de Vargas, até então neutra ou ambígua em relação ao alinhamento com os países aliados contra o avanço nazifascista europeu na Segunda Grande Guerra.

O jovem protagonista, Marcelino Alves Nanmbrá dos Santos, é um solitário pescador de Praia do Nego Forro em Florianópolis, um símbolo da fragmentação da identidade nacional, resultante da miscigenação de índios com negros africanos, ele representa a ingenuidade nacional da época, um país não industrializado e com a maioria da população analfabeta. Marcelino é lembrado pela professora da escola pr…

Sandra Godinho - O Verso do Reverso

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Sandra Godinho - O Verso do Reverso - Editora Penalux - 228 Páginas - Projeto gráfico de Cintia Belloc - Lançamento: 2019.
É uma característica essencial da natureza humana a capacidade de resistir aos reveses da vida e a literatura, como bem sabemos, é uma das mais belas formas de resistência, principalmente quando consegue transformar a injustiça em esperança, o desconforto em mudança e a dor em arte. A força de cada um dos contos desta antologia, Prêmio Cidade de Manaus de 2019, reside na coragem de Sandra Godinho em olhar de frente alguns temas que a sociedade tem preferido ignorar, promovendo uma espécie de antídoto contra a insensibilidade.

As narrativas utilizam técnicas próprias de acordo com o tema que será desenvolvido, tornando a leitura sempre dinâmica e de interesse renovado. Na abertura de cada história, a autora apresenta um interessante recurso como epígrafe, a inserção de um pequeno poema que já coloca o leitor no clima. Por exemplo, no conto de abertura do livro, "…

Rosana Piccolo - Alla Prima

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Rosana Piccolo - Alla Prima - Editora Patuá - 140 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: 2019.
O título da antologia de poemas de Rosana Piccolo, Alla Prima, é uma expressão italiana que significa de primeira, utilizada para nomear uma técnica de pintura, originalmente a óleo e praticada a partir do século XVII, na qual a tinta é aplicada diretamente na base escolhida, sem estudos preparatórios, e o resultado final é atingido após essa única aplicação do pigmento, sem qualquer correção ou retoque. 

No entanto, pode haver uma certa dose de ironia no título pois, embora a estrutura de versos livres e a multiplicidade temática do livro possam induzir a ideia de que os poemas foram gerados de primeira, ou sem retoques, este não me parece ter sido o caso, muito pelo contrário, cada verso demonstra ter sido resultante de um intenso processo de pesquisa. Importante pontuar também que Alla Prima agrega poemas de livros anteriores, alguns revistos e…

Fábio Mariano - Habsburgo

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Fábio Mariano - Habsburgo - Editora Patuá - 136 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: 2019
Um círculo de enigmáticos personagens convive nesta novela entre o mercado de artes plásticas e o ambiente universitário. Carlos, que é o condutor da narrativa em primeira pessoa, se dedica à carreira acadêmica e mantém uma peculiar relação de amizade com Coca Munhoz que ambiciona se tornar artista plástico, mas cada um tem uma forma diferente de lidar com suas escolhas e dilemas de formação. 

Caco Munhoz é o ponto de convergência dessas pessoas que seguem um protocolo de conduta regido somente pela vaidade e interesses pessoais: Ekaterina Stolanyi, filha de um engenheiro húngaro e de uma tradutora russa, casada com o professor Pedro Krausz, Sonja Linnenbäumer, ex-chefe do departamento de letras e o nada ético Dietmar Struna, professor orientador do doutorado de Carlos na Alemanha que o abandona para se tornar marchand de Caco Munhoz no Brasil. No de…

Ruy Proença - Monstruário de fomes

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Ruy Proença - Monstruário de fomes - Editora Patuá - 112 Páginas - Capa, projeto gráfico e diagramação de Rodrigo Sommer - Lançamento: 2019.
Ruy Proença trabalha com o poema em forma de prosa e procura inspiração em elementos fora da poesia que se convencionou chamar de tradicional, como já deixa claro a partir do título. Em alguns trechos a ingenuidade nonsense e a leveza surrealista me lembram de Boris Vian: 

"guarda-chuvas são animais solitaríssimos. quando adoecem, são abandonados por seus donos. muitas vezes, os encontro no meio-fio, encolhidos, com uma costela quebrada. encontro-os gemendo baixinho, ensopados da cabeça às patas, como se já estivessem mortos. [...]" - ENFERMARIA (p. 23)

Contudo, em outras passagens, como no poema AGORA, uma longa prece sobre o absurdo da existência humana, fica claro que o pior monstro não pode ser imaginado porque já faz parte da nossa realidade, é quando perdemos o ônibus e a esperança:

"agora na fruteira o mamão apodrece agora o céu…

Carol Sanches - Não me espere para jantar

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Carol Sanches - Não me espere para jantar - Editora Patuá - 120 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação: Leonardo Mathias - Lançamento: 2019.
A poesia de Carol Sanches é inspirada pelas múltiplas expressões do universo feminino e, nas cinco partes em que se divide o livro: o ipê lá de casa, um ovário a menos, yo soy el arma de fuego, do tempo do lambari e dois minutos, encontramos versos sobre a mulher que também é, ao mesmo tempo, menina, mãe e amante. A poeta define de forma verdadeira e surpreende o leitor quando afirma: "há muita lógica para explicar os desajustes da chama ou da fisiologia feminina", ou ainda: "o tempo de um homem não é o tempo de uma mulher", como bem sabemos.

Nesta diversidade de abordagens há espaço para a fragilidade e a coragem, para a intimidade e a revelação, como resume muito bem Camila Assad no prefácio sobre o estilo da autora: "[...] Aborda sem clichês e medos questões de gênero e papeis sociais. Revela valentia e frag…

Toni Morrison - O olho mais azul

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Toni Morrison - O olho mais azul - Editora Companhia das Letras - 224 Páginas - Tradução: Manoel Paulo Ferreira - Capa: Alceu Chiesorim Nunes sobre obra de Kara Walker (The Emancipation Approximation) - Data de Lançamento: 16/10/2019 (2ª edição).

Publicado originalmente em 1970, The Bluest Eye é o romance de estreia da escritora norte-americana Toni Morrison (1931-2019), Prêmio Nobel de Literatura de 1993, em relançamento pela Editora Companhia das Letras. É uma ótima oportunidade para conhecer a obra que se tornou um importante símbolo sobre a crueldade dos padrões de beleza impostos que influenciam a vida de meninas e mulheres negras, assim como as consequências do racismo associado às questões de gênero em uma sociedade patriarcal, um tema muito próximo à nossa realidade.
Ao escolher como protagonista uma menina negra de onze anos chamada Pecola Breedlove, a autora evidencia a brutalidade do preconceito racial tanto por parte da sociedade quanto do próprio núcleo familiar. Ao ser rid…
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