Viviane Ferreira Santiago - As meninas de vinte e dois – maiores que o mundo

Literatura brasileira contemporânea
Viviane Ferreira Santiago - As meninas de vinte e dois – maiores que o mundo - Editora Patuá - 112 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: 2020.

O mais recente lançamento de Viviane Ferreira Santiago apresenta caracterísitcas de um livro de contos, crônicas, história e biografia, mas não se enquadra em nenhuma dessas categorias. Na verdade, trata-se de uma homenagem a cinco mulheres: Anita Malfatti (1889-1964), Nair de Teffé (1886-1981), Patrícia Rehder Galvão, mais conhecia como Pagu (1910-1962), Olívia Guedes Penteado (1872-1934) e Tarsila do Amaral (1886-1973), todas artistas que participaram direta ou indiretamente na Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo, evento considerado como marco inicial do movimento modernista no Brasil e que legitimou, entre outros avanços, a emancipação feminina na vida cultural e artística do país.

A estrutura do livro é constituída por dados biográficos e informações sobre o contexto histórico de cada artista, sempre apresentados em uma linguagem clara e direta, intercalados por trechos de ficção. Desta forma, a leitura torna-se dinâmica e prazerosa, não exigindo qualquer conhecimento prévio na área de artes ou História, assim como consultas complementares ou a necessidade das irritantes notas de rodapé que normalmente prejudicam o ritmo da leitura e, muitas vezes, o próprio interesse na obra.

Anita Malfatti (1889-1964) era considerada a mais discreta entre as mulheres modernistas, contudo a mais irreverente em seus quadros, fato que provocou muitas críticas de artistas mais conervadores da época como Monteiro Lobato (1882-1948), por exemplo, que publicou um artigo com críticas negativas de tamanha repercussão que cinco dos oito quadros vendidos por ela no evento foram devolvidos. O "Grupo dos Cinco", como ficou conhecido, era composto por Tarsila do Amaral (1886-1973), Anita Malfatti (1889-1964), Menotti del Picchia (1892-1988), Mário de Andrade (1893-1945) e Oswald de Andrade (1890-1954).

"Sinto que, em breve, coisas boas e novas se fixarão na História, a partir de um novo momento intelectual no Brasil, Dissessem-me há meses que seria grata a Lobato pelas suas amargas palavras sobre minhas pinturas, fasuporia devaneio. No entanto, vejo que novos olhos vêm se agraciando de nossas técnicas e, assim, abrindo novos olhares para aquilo que A Semana de Arte veio a ser para nós e toda essa nova gama de adeptos. [...] Estar alinhada a estes quatro nomes faz de mim precursora de uma vanguarda de acontecimentos culturais, o que me infla o ego a ponto de ser, como já me chamam quando não posso ouvir, uma baderneira equívoca, que fará jus ao codinome. Ah... se não me faltassem palavras e petulância, ensaiaria três noites ininterruptas uma leva de ofensas e verdades a serem cuspidas diante de Monteiro. Mas ainda que de maneira cordial e mansa, planejo um encontro, uma revanche, um duelo. Minha honra lavada a tinta a óleo." -  Anita Malfatti (p. 38)

Nair de Teffé (1886-1981) era herdeira de uma das mais tradicionais famílias do país, neta de Conde e filha de Barão. Casou-se com o então Presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca, provocando um escândalo na época, tanto pela diferença de idade entre os noivos como pela recente viuvez do Marechal. Era de se esperar, pela sua educação aristocrática, que Nair se transformasse em uma recatada primeira-dama, no entanto ela abriu o Palácio da República para o maxixe e as modinhas, tornou-se a primeira caricaturista brasileira e, posteriormente, atriz, diretora e dona de um cinema (antigo Cine Rian em Copacabana).

"Casar-se com um presidente da república exige suas renúncias. Ser primeira-dama do Estado Maior oferece privilégios que, bem usados, podem fazer a vida de uma mulher como eu, digamos que, um ato de resistência bem animado... [...] Foi assim que em 1915, minha então amiga, Chiquinha Gonzaga – ao som eufórico do meu violão –, e sua música cantada por Catulo fazem estremecer o chão amadeirado e nobre do Palácio do Catete. Uma afronta ao poder. [...] Uma das noites mais deslumbrantes de toda minha vida. [...] Se nada der certo, e acaso eu viva um centenário ou dois de amarguras, esse maxixe é o gosto da eternidade na minha boca. Assim como as críticas de Ruy Barbosa, que alegram minhas manhãs com seu ódio gratuito e extremista. [...] De seu moedor de raivas que escorre pelas bocas e nos tabloides semanais eu tiro inspiração para uma vida de desenhos. Sobre esses, o próprio Hermes diz que não devo. Eu? Eu Sorrio." - Nair de Teffé (p. 58)

Patrícia Rehder Galvão, mais conhecia como Pagu (1910-1962) foi um verdadeiro furacão. Nascida de família burguesa, renegou sua classe social e atuou ativamente como militante política comunista com mais de vinte prisões no currículo. Pagu era uma "revolução ambulante", tinha o hábito de fumar, vestir roupas ousadas e falar palavrões. Ela, na verdade, não participou da Semana de Arte Moderna porque tinha apenas doze anos na época, mas se aproximou do grupo de intelectuais modernistas posteriormente, principalmente do casal Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, chegando a viver na mesma casa dos artistas. Ela acabou se casando com Oswald de Andrade com quem teve um filho. Seu segundo casamento foi com Geraldo Galvão Ferraz. Impossível resumir em poucas linhas uma biografia tão apaixonante, apesar dela ter morrido jovem, com apenas 52 anos.

"[...] Desejo ser matéria sólida e única. Quando líquida, de amor, ser corrosiva a quem toca, deixando marcas de sangue, cicatrizes incuráveis em todo aquele que ousar amar-me. Deixando-lhes somente o acalanto da vingança de que eu, Pagu mulher, jamais sairei ilesa ao que me presto. [...] Vive-se tão pouco. [...] A vida escorre pelas mãos dos tolos, dos espertos e de todos. A vida não poupa ninguém. [...] É assim que aos 12 descubro o sabor da cama que não é feita de material tão firme no intuito sagrado de se dormir. Também, que estes ossos finos são mais resistentes ao toque do que a cinta que papai ergueria se me visse aqui. [...] Nua, aos 12. Deflorada aos 12. Abusada em consentimento aos 12. Mulher aos 12. Puta aos 12. Um infinito que não se cabe ao coração de uma 'nina' de 12." - Pagu (pp. 76-78)

Olívia Guedes Penteado (1872-1934) era chamada pelos artistas modernos de Nossa Senhora do Brasil, descrita como uma muher muito bonita, sensível e elegante. Envolveu-se diretamente na Revolução Constitucionalista de 32, ajudando os necessitados, viúvas, crianças e desabrigados; foi uma das principais responsáveis pela candidatura e eleição de Carlota Pereira de Queiroz, que tornou-se a primeira deputada a ser eleita no país.

Tarsila do Amaral (1886-1973) estava em Paris durante a Semana de Arte Moderna de 22, mas acompanhou os acontecimentos por meio das cartas remetidas pela amiga, Anita Malfatti. Quando voltou, ainda em 1922, conhece Oswald de Andrade por quem se apaixona. Tarsila e Oswald têm muitas afinidades e admiração mútua, mas o casamento não resiste às infidelidades de Oswald e aos "olhos moles" de Pagu. Tarsila foi vítima de um erro médico em 1965 que a deixou paraplégica. Em 1995 a tela Abaporu foi arrematada pelo valor de um milhão e meio de dólares, atualmente o quadro está exposto no museu Malba, de Buenos Aires. Estima-se que a obra teria, nos dias atuais, valor próximo a quarenta e cinco milhões de dólares.

"A moça de olhar sonso, que bambeia as pernas de homem feito, feito Oswald. [...] A cretina mais bela e sedutora que esses olhos hão de ver nessa vida. Sua arte, sua revolta, seus cabelos soltos. Tolice será culpá-la quando eu própria, sendo ele, me apaixonaria por ela. Tamanho seu encanto, o deslumbre do simples. Meu oposto me esfregando a face, todo requinte de não ter pudores ou rédeas. [...] Ser livre como ela. Ser simplesmente ela. E em sua descomplicação levar tudo o que pensei ser meu. Nunca fora... Não se perde o que não se tem. Corpos não são moradas, embora sejamos hotéis de beira de estrada, onde homens passam algumas noites e depois seguem viagem para se alojarem em outros quartos, ainda que estes sejam menores , mais desarrumados do que o seu. Eles sempre seguem. Hospedeiros de corpos alheios." - Tarsila do Amaral (pp. 106-107)

Sobre a autora: Viviane Ferreira Santiago nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, e vive em São Paulo há 25 anos. É formada em jornalismo e Letras, com especialização em Literatura Brasileira. Recebeu em 2020, por sua obra “A Biblioteca de Bia”, seu primeiro livro voltado ao público infantil, o Prêmio Nacional CEPE de Literatura Infantil. No mesmo ano recebe o Primeiro lugar no Prêmio Amplitude de Literatura, com seu livro “Pó”, que segue em edição, tendo, anteriormente, publicado “A Linha Amarela do Metrô” (Telucazu Edições, 2018). A obra recebeu a premiação PROAC 2017, da Secretaria da Cultura e Governo do Estado de São Paulo. Em 2018, seu livro “As Dez Marias” (Patuá, 2019) recebeu a premiação inédita do então Ministério da Cultura, para publicação de livros com temática acerca dos 200 anos da independência do Brasil. Em 2019 a autora é novamente agraciada pela premiação PROAC da Secretaria da Cultura de São Paulo com seu novo livro, aqui apresentado: “As meninas de vinte dois – maiores que o mundo” (Patuá, 2020).

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar As meninas de 22 de Viviane Santiago

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