Liev Tolstói - O diabo e outras histórias

Clássicos da Literatura
Liev Tolstói - O diabo e outras histórias - Editora Companhia das Letras - 192 Páginas - Capa e projeto gráfico: Kiko Farkas e Ana Lobo / Máquina Estúdio - Tradução de Beatriz Morabito, Beatriz Ricci e Mayra Pinto - Posfácio de Paulo Bezerra - Lançamento: 2020.

Aqui está uma boa oportunidade para conhecer o lado contista de um dos maiores romancistas da literatura universal, visto que o leitor poderá ter uma pequena amostra do estilo de Liev Tolstói (1828-1910) antes de se aventurar em outras obras de maior extensão e complexidade narrativa, tais como Ana Kariênina, Ressurreição e, principalmente, o clássico de 2.500 páginas Guerra e Paz.

De fato, os cinco contos incluídos nesta antologia: Três mortes, Kholstómer, O diabo, Falso cupom e Depois do baileescritos entre 1858 e 1904, abordam alguns temas recorrentes na literatura de Tolstói, descendente de uma família aristocrática, mas sempre preocupado com a exploração e pobreza das famílias no ambiente rural, assim como o seu interesse pela religião, contudo não a religião "oficial" das igrejas que ele criticava, assim como as ações do governo. O autor se volta, da sua maturidade até o final da vida, para um cristianismo original do Evangelho, que pregava o bem ao próximo como um sentido moral de justiça, sempre preocupado com as pessoas simples do povo russo.

No primeiro conto, Três mortes, narrado em terceira pessoa, Tolstói procura demonstrar os contrastes entre a vida na natureza e a artificialidade das relações sociais e da religião por meio de três diferentes mortes: de uma senhora rica, de um cocheiro e de uma árvore, todas interligados na mesma trama. A senhora morre com muito sofrimento e cercada pela ostentação e hipocrisia com que sempre vivera, inclusive, como bem destacado no posfácio de Paulo Bezerra, ocupando oito das onze páginas da história, um espaço proporcional àquele que sua classe social ocupava na sociedade. A morte do cocheiro é muito mais natural, cercado da solidariedade de seus companheiros. Já a árvore, tombada para que seja feita a cruz que irá sinalizar o túmulo do cocheiro, morre de forma bela e honesta, sem medo, representando a dignidade da natureza em oposição à mediocridade da vida nas cidades.

Em Kholstómer, o protagonista-narrador, na maior parte do conto, é um cavalo puro-sangue que teve a infelicidade de nascer malhado, fato que provocou vários infortúnios e crueldades em sua vida, desprezado e humilhado pelos outros cavalos ele relembra passagens de sua história. Tolstói utiliza esta alegoria para demonstrar a decadência da nobreza russa e a crítica sobre a sociedade burguesa e os conceitos de propriedade privada e direito de posse, como fica claro no trecho em destaque abaixo, no qual o cavalo não compreende o sentido de expressões como "meu cavalo", tão absurdas para ele quanto: "minha terra", "meu ar" ou "minha água".

"Eu entendi bem o que eles disseram sobre os lanhões e o cristianismo, mas naquela época era absolutamente obscuro para mim o significado das palavras 'meu', 'meu potro', palavras através das quais eu percebia que as pessoas estabeleciam uma espécie de vínculo entre mim e o chefe dos estábulos. Não conseguia entender de jeito nenhum em que consistia esse vínculo. Só o compreendi bem mais tarde, quando me separaram dos outros cavalos. Mas, naquele momento, não houve jeito de entender o que significava me chamarem de propriedade de um homem. As palavras 'meu cavalo', referidas a mim, um cavalo vivo, pareciam-me tão estranhas quanto as palavras 'minha terra'', 'meu ar', 'minha água'." - Trecho de Khlstómer a história de um cavalo (p. 39)

No conto que empresta o título ao livro, o diabo se materializa por meio da tentação de uma obsessão amorosa, Tolstói desenvolve um drama psicológico muito à frente do seu tempo que lembra outro grande mestre visionário da literatura russa, Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Ainda segundo o posfácio de Paulo Bezerra é um conto de cunho autobiográfico: "baseado na história do amor real de Tolstói por uma camponesa chamada Aksínia, moradora de Iásnaia Poliána. À sua história pessoal o autor incorpora a história real de Nikolai Nikoláiev Friederiks, juiz de instrução na cidade de Tula, que tivera um caso com a camponesa Stiepanida Munitsina. Depois do casamento, a mulher passou a atormentá-lo com cenas de ciúme com Stiepanida, e Friederiks acabou matando a amante com um tiro de revólver na barriga quando ela debulhava o milho com outras camponesas."

"Sentia que ia perdendo a vontade própria, que estava a ponto de enlouquecer. A severidade consigo mesmo não enfraquecera um mínimo; ao contrário, percebia toda a vileza de seus desejos, de suas ações, porque esperá-la no bosque era uma ação. Sabia que bastaria deparar-se com ela em qualquer lugar, no escuro, e quem sabe tocá-la, para se render ao sentimento. Sabia que só a vergonha perante os outros, perante ela e perante si mesmo o continha. E sabia também que buscava circunstâncias que escondessem essa vergonha – o escuro e aquele toque, no qual essa vergonha seria abafada pela paixão animal. E por saber que era um criminoso vil, desprezava-se e odiava-se com todas as forças da alma. Detestava-se porque ainda não se entregara. Rezava a Deus todos os dias pedindo que lhe desse forças, que o salvasse da perdição, todos os dias decidia não dar nem mais um passo, não a olhar mais, esquecê-la. Todos os dias imaginava meios de livrar-se dessa alucinação, e os punha em prática. Mas tudo em vão." - Trecho de O diabo (p. 86)

Em Falso Cupom, o conto de maior extensão do livro, novamente o autor lança críticas pesadas à Igreja ortodoxa russa e ao Estado, instituiçoes com interesses contrários ao bem do povo segundo Tolstói. Em uma série de episódios de cunho moral, assassinos são regenerados após a leitura dos Evangelhos em uma abordagem que incentiva a prática de um cristianismo "verdadeiro" e sem intermediários como os representantes da Igreja, interessados apenas no poder. Esta postura faria com que Tolstói fosse excomungado pelo sínodo da Igreja ortodoxa em 1901.

Finalizando esta pequena antologia, Depois do baile apresenta uma análise sobre a consciência moral, segundo a qual "tudo é uma questão do acaso". O protagonista Ivan Vassílievitch presencia um espancamento bárbaro de um soldado desertor com finalidade disciplinadora, sendo que o executor deste castigo brutal é o pai de sua amada Várienka que algumas horas antes o havia impressionado profundamente de forma positiva ao dançar uma valsa com a filha, um comportamento em sociedade totalmente contrário à selvageria posterior. Um conto que lembra as narrativas de Anton Tchekhov (1860-1904).

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