Postagens

Mostrando postagens de 2019

Eduardo Sabino - Estados Alucinatórios

Imagem
Eduardo Sabino - Estados Alucinatórios - Editora Caos e Letras - 204 Páginas - Projeto gráfico de Cristiano Silva - Lançamento: 2019.
"A literatura não é outra coisa além de um sonho dirigido", a epígrafe de Jorge Luis Borges nos dá uma primeira pista sobre a inspiração e as referências literárias de Eduardo Sabino nesta sua terceira antologia de contos. De fato, o jovem autor mineiro flerta com o estilo fantástico de alguns grandes escritores argentinos tais como: Julio Cortázar, Adolfo Bioy Casares, Silvina Ocampo e o próprio Borges. Contudo, as narrativas de Sabino são influenciadas também pela literatura do absurdo ou o chamado estilo surrealista dos franceses Boris Vian e André Breton, incluindo doses maciças de ironia e bom humor, tão ao gosto dos leitores brasileiros. 

Nos onze contos do livro, os personagens são descritos em situações de perturbação mental onde sonho e realidade se confundem. Vale ressaltar que o título pode ser entendido como uma referência aos estado…

Itamar Vieira Junior - Torto arado

Imagem
Itamar Vieira Junior - Torto arado - Editora Todavia - 264 Páginas - Capa de Elisa v. Randow - Ilustração de capa de Linoca Souza - Lançamento: 07/08/2019
O romance de estreia de Itamar Vieira Junior já nasce com a força das obras clássicas, tanto na beleza e originalidade do texto quanto no caráter universal e humanista do tema, a história de gerações de uma mesma família de descendentes de escravos, vivendo em uma fazenda chamada Água Negra, na Chapada Diamantina, interior da Bahia, onde são mantidos outros trabalhadores rurais em regime de servidão, uma prática que, infelizmente, ainda permanece em muitas regiões formadas por latifúndios em nosso país. O livro vem preencher, portanto, uma lacuna de obras na literatura brasileira sobre essa ferida social que ainda não conseguimos curar.

A partir de um núcleo de personages formado pelas irmãs Bibiana e Belonísia, filhas de Salustiana Nicolau e Zeca Chapéu Grande, assim como de sua misteriosa avó paterna Donana, o autor apresenta um pai…

Margaret Atwood e Salman Rushdie avançam para a shortlist do Booker Prize 2019

Imagem
Como já se esperava, a canadense Margaret Atwood e o britânico de origem muçulmana indiana Salman Rushdie passaram da longlist (treze finalistas) para a shortlist (seis finalistas) do Booker Prize, versão 2019. Atwood concorre com a obra The testaments, continuação de O conto da aia e que será lançado no próximo dia 10. Salman Rushdie foi nomeado por conta do livro Quichotte, uma releitura do clássico Dom Quixote.

O vencedor será divulgado no dia 14 de outubro e levará um prêmio de 50 mil libras. Segue a relação completa de finalistas da shortlist, indicando a nacionalidade do autor e, no caso do livro já ter sido publicado no Brasil, o título do lançamento em português: 

The testaments de Margaret Atwood (Canadá)

Quichotte de Salman Rushdie (Inglaterra/Índia)

Ducks, Newburyport de Lucy Ellmann (EUA/Inglaterra)

Girl, woman, other de Bernardine Evaristo (Inglaterra)

Uma orquestra de minorias (Globo Livros) de Chigozie Obioma (Nigéria)

10 Minutes 38 Seconds in This Strange World de Elif …

Silvina Ocampo - A fúria e outros contos

Imagem
Silvina Ocampo - A fúria e outros contos - Editora Companhia das Letras - 224 Páginas - Tradução de Livia Deorsola - Posfácio de Laura Janina Hosiasson - Capa de Elisa von Randow -  Ilustração de Cristina Daura - Lançamento: Agosto de 2019.
É difícil entender como uma autora tão importante na literatura latino-americana tenha permanecido inédita no Brasil até hoje. Considerada uma das maiores contistas argentinas, Silvina Ocampo (1903-1993) é dona de um estilo único que se situa em uma região imprecisa entre o surrealismo, o realismo mágico e a literatura fantástica, porém não se enquadrando em nenhuma dessas categorias. Esposa de Adolfo Bioy Casares e amiga de Jorge Luis Borges, que dedicou a ela o seu primeiro conto publicado, “Pierre Menard, autor do Quixote” na revista literária “Sur”, da irmã Victoria Ocampo, ela é considerada uma escritora para escritores, tendo sido citada como referência por autores tão diferentes quanto: Julio Cortázar, Tomás Eloy Martínez, Alejandra Pizarnik,…

Margarida Patriota - Cárcere privado

Imagem
Margarida Patriota - Cárcere privado - Editora 7Letras - 180 Páginas - Coordenação Editorial de Isadora Travassos e Jorge Viveiros de Castro - Capa: Alice Garambone - Lançamento: julho de 2019.
A cidade de Brasília é o cenário deste romance policial, no qual o crime e a autora – no caso, a narradora-protagonista – são revelados logo no parágrafo de abertura, mas as motivações serão levadas ao conhecimento do leitor muito lentamente, ao longo de todo o livro. É difícil acreditar na veracidade dos fatos e no caráter de uma narradora nada confiável, que submete uma outra mulher a um regime de cárcere privado com requintes de crueldade. Este sentimento de incerteza é conduzido com muita habilidade pela autora, que oculta e revela ao mesmo tempo, em uma abordagem psicológica.
"Lacei-a com fita adesiva de empacotamento, até gastar o rolo todo. A manobra desagradável resultou expedita, pelo menos. Gastei para embrulhá-la tempo inferior ao previsto. Tampouco cuidei de caprichar no embrulho…

Adri Aleixo e Lori Figueiró - Das muitas formas de dizer o tempo

Imagem
Adri Aleixo e Lori Figueiró - Das muitas formas de dizer o tempo - Editora Ramalhete - 64 Páginas - Apresentação da poeta Adriane Garcia - Gênero: Poesia e Fotografia - Lançamento: 2019.
É bonito quando dois artistas assumem uma tarefa impossível como dizer o tempo, ora o tempo não se diz nem se explica, como bem sabemos. Neste livro, a poeta Adri Aleixo e o fotógrafo Lori Figueiró aceitaram o desafio e, inspirados pelas paisagens e a sabedoria da gente simples da região do Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais, criaram essa homenagem à natureza, feita de versos e imagens.

Falando de sertão é impossível não lembrar da literatura mágica de João Guimarães Rosa, o "feiticeiro das palavras", que é citado na epígrafe com um trecho do conto Os Cismos, em uma outra brilhante tentativa de descrever o tempo: "Mas, naquele raiar, ele sabia e achava: que a gente nunca podia apreciar, direito, mesmo as coisas bonitas ou boas, que aconteciam. Às vezes, porque sobrvinham depressa e ine…

Thiago de Barros - N(ovo)

Imagem
Thiago de Barros - N(ovo) - 176 Páginas - Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria de Cultura do Distrito Federal - Coordenação Editorial: Thiago de Barros - Design Gráfico: Hugo Pereira - 2ª Edição, 2019.

Tudo é válido na polifonia narrativa de Thiago de Barros, incluindo a presença de Clarice Lispector, Hilda Hilst e Caio Fernando Abreu, em uma espécie de sessão mediúnica literária ou, nas palavras do próprio autor, uma "psicografia inventada". Bruxaria, fantasmas, pássaros, anjos e demônios, sem faltar os célebres pactos com o demônio, também estão presentes neste romance experimental que mistura elementos de filosofia, ficção e metalinguagem.

O autor escolheu uma epígrafe certeira do último livro de poesias de Hilda Hilst, Cantares do sem-nome e de partidas (1995), Cantares III: "Isso de mim é marulhoso / E tenro. Dançarino também. Isso de mim / É novo: Como quem come o que nada contém. / A impossível oquidão de um ovo." O livro é dividido em quatro capítulo…

André Luiz Pinto - migalha

Imagem
André Luiz Pinto - migalha - Editora 7Letras - 72 Páginas - Posfácio de Tarso de Melo - Coordenação Editorial: Isadora Travassos - Lançamento: 2019.
A poesia de André Luiz Pinto reflete a estranheza e o desconforto de uma época sem heróis, um mundo globalizado, contudo estéril de ideias e ideais. Fazemos parte, querendo ou não, de uma geração que pensa construir uma "revoluçao sem sair da poltrona", por meio de uma rebeldia que se limita a postagens de repúdio nas redes sociais. E assim ficamos, cada vez mais conectados, ironicamente solitários e isolados, ou alguém ainda duvida disso?

Esta é a dolorosa matéria-prima com a qual o poeta escolheu trabalhar: a insignificância e a violência de um tempo sem esperança, opção que fica clara em um estilo minimalista de versos curtos, mas que o leitor não se engane com a pretensa simplicidade, a surpresa vem quando menos se espera, como no poema que empresta o título ao livro: "Fiz como você pediu / cortei o poeta / em versos / e …

Ana Elisa Ribeiro - Dicionário de imprecisões

Imagem
Ana Elisa Ribeiro - Dicionário de imprecisões - Editora Impressões de Minas - 132 Páginas Projeto gráfico de Elza Silveira - Ilustrações de Wallison Gontijo - Lançamento: 2019
O projeto do livro tem como ponto de partida uma ideia original e muito bem executada por Ana Elisa Ribeiro: fazer poesia com a multiplicidade de definições de algumas palavras, prova de que somos incapazes de dominar por completo o léxico do nosso próprio idioma e que, em alguns casos, mesmo os dicionários tradicionais podem ser fontes pouco confiáveis. Sempre com uma abordagem inteligente e bem-humorada a autora nos apresenta alguns verbetes inusitados que podem revelar, por exemplo, certos preconceitos de gênero enraizados na sociedade ou simplesmente servir de motivo para escrever mais um poema.

Entendo que as tais imprecisões mencionadas no título são decorrentes do caráter incerto do nosso viver, sujeitando as palavras às percepções vivenciadas individualmente e que nenhum dicionário, por mais completo que s…

Sérgio Fantini - Quarenta

Imagem
Sérgio Fantini - Quarenta - Editora Pulo - 114 Páginas - Projeto Gráfico e Capa de Jão sobre fotos de Ricardo Laf - Lançamento: Maio/2019.
Era uma vez uma época, antes da internet e redes sociais, na qual os recursos de autopublicação e divulgação eram praticamente inexistentes fora do circuito das grandes editoras. Durante a década de 1970, muita poesia foi publicada por meio de fanzines ou em pequenas edições de baixo custo, datilografadas e mimeografadas, o que permitiu a circulação de textos originais e o surgimento de um movimento que passou a ser conhecido como geração mimeógrafo, ou poesia marginal, por ter se desenvolvido à margem do sistema de publicação tradicional.

O poeta mineiro Sérgio Fantini foi um desses desbravadores da poesia marginal no Brasil e este livro resgata quarenta anos da sua produção poética desde 1979, com uma seleção de poemas de seus oito livros e memórias sobre uma época pré-internet que acaba se confundindo com a história do nosso país nas quatro última…

Maria Valéria Rezende - Carta à rainha louca

Imagem
Maria Valéria Rezende - Carta à rainha louca - Editora Alfaguara - 144 Páginas -  Capa: Estúdio Bogotá - Lançamento: 14/04/2019.
Maria Valéria Rezende já é um nome consagrado na literatura brasileira contemporânea, tendo sido vencedora de alguns importantes prêmios nacionais e internacionais com os livros: Quarenta dias (Jabuti 2015) e Outros cantos (terceiro lugar do Jabuti, São Paulo de Literatura e Casa de las Américas, todos em 2017). Seu mais recente lançamento é um romance histórico inspirado por cartas que a própria autora pesquisou há algum tempo entre os documentos do Arquivo Ultramarino de Lisboa, parte de um processo incompleto contra uma mulher acusada de manter um convento em Minas Gerais no século XVIII, sem autorização da igreja e da Coroa. 

Este processo inspirou Maria Valéria a criar uma narradora-protagonista fora dos padrões possíveis para uma mulher no Brasil colonial do Setecentos. Isabel Maria das Virgens não servia para o casamento porque era pobre e, portanto, nã…
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...