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Mostrando postagens de 2019

Carina S. Gonçalves - Nada Acontece

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Carina S. Gonçalves - Nada Acontece - Editora Urutau - 70 Páginas - Lançamento: 01/12/2018.
Tem vezes que nada acontece na minha vida e aposto como é assim também com você, caro leitor. Nem sempre os nossos dias são feitos de grandes vitórias ou mesmo estrondosas derrotas, guinadas do destino ou epifanias surpreendentes. Para dizer a verdade, quase nunca é assim, na maior parte do tempo permanecemos encalhados em atividades repetitivas, lutando contra prazos ou postergando decisões. Contudo, quem sabe a vida aconteça justamente em torno desse vazio, nas miudezas do cotidiano, enquanto estamos distraídos sonhando com entrevistas imaginárias que daremos quando, finalmente, publicarmos aquele livro importante e genial que escreveremos em algum outro dia, quando não estivermos tão ocupados.

Nada Acontece é uma coletânea de poemas que estavam escondidos nos locais menos prováveis: na calça com um furo na bunda, no buraco da parede ou no cachorro vira-lata, sozinho na rua. Cuidado leitor, a p…

João Guimarães Rosa - Grande sertão: veredas

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João Guimarães Rosa - Grande sertão: veredas - Editora Companhia das Letras - 552 Páginas -  Capa e projeto gráfico: Alceu Chiesorin Nunes -  Ilustrações das orelhas e do miolo: Poty Lazzaroto - Lançamento: 25/02/2019 (Leia aqui um trecho em pdf disponibilizado pela Editora).

Uma justa homenagem a um livro fundamental da literatura brasileira, romance-monumento para se ler e reler durante toda a vida e que permanece moderno e desafiador devido à sua estrutura complexa e ao experimentalismo linguístico. Esta edição da Companhia das Letras, nova detentora dos direitos de publicação da obra, seguiu o texto consolidado por Guimarães Rosa na segunda edição, publicada pela Livraria José Olympio Editora em agosto de 1958, incluindo ainda uma linha do tempo sobre a vida do autor e sua obra, indicações de leituras complementares e fortuna crítica sobre Grande sertão: veredas, com uma seleção cronológica de ensaios de Roberto Schwarz, Walnice Nogueira Galvão, Benedito Nunes, Davi Arrigucci Jr. e…

Tadeu Sarmento - Um carro capota na lua

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Tadeu Sarmento - Um carro capota na lua - Tercetto Editora - 82 Páginas  Projeto gráfico e capa: Glória Campos - Fotografia e pesquisa iconográfica para capa: Thais Guimarães -  Revisão: Adriane Garcia - Lançamento: Dezembro/2018.
Livro vencedor do Prêmio Governo Minas Gerais de Literatura, na categoria Poesia, em 2016, Um carro capota na lua, de Tadeu Sarmento, foi finalmente publicado como livro inaugural da Tercetto Editora, um projeto da poeta Thais Guimarães e da designer gráfica Glória Campos. Um lançamento que comprova como o livro impresso ainda é viável no mercado editorial, assim como a existência e persistência de um público leitor de poesia em nosso país, apesar de tudo.

Tadeu Sarmento sabe muito bem lidar com o espanto, matéria-prima de todo bom poeta que tenta surpreender o leitor em seu triste e insípido cotidiano, recriando uma nova realidade, mesmo que ela seja completamente nonsense. Esta é a chave do movimento surrealista na literatura, quando escritores como André Bre…

Jhumpa Lahiri - O Xará

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Jhumpa Lahiri - O Xará - Editora Globo, Biblioteca Azul - 344 Páginas - Tradução de Rafael Mantovani - Capa: Adriana Bertolla Silveira (Female Infanticide, de Rani Jha) - Lançamento: 01/06/2014.
Jhumpa Lahiri nasceu em Londres, filha de indianos, contudo sua família se mudou para os Estados Unidos quando ela tinha apenas dois anos. O seu livro de estreia, uma coletânea de contos lançada originalmente em 1999 com o título de Interpreter of Maladies (publicado no Brasil como Intérprete de Males), foi vencedor do Pulitzer Prize de ficção e do Ernest Hemingway / PEN Award, duas premiações concedidas em 2000. Em 2003 lançou seu primeiro romance, The Namesake (traduzido no Brasil como O Xará). Dez anos depois, em 2013, foi finalista dos prêmios Man Booker Prize e do National Book Award com o romance The Lowland (lançado no Brasil como Aguapés). Atualmente, Jhumpa Lahiri mora na Itália com o marido e os dois filhos e passou a escrever e publicar apenas na língua italiana. Toda a sua obra trat…

João Paulo Parisio - Homens e outros animais fabulosos

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João Paulo Parisio - Homens e outros animais fabulosos - Editora Patuá - 180 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação: Leonardo Mathias - Lançamento: 2018.

Gosto muito quando a literatura contemporânea nos surpreende com textos originais, não somente pelo grau de experimentalismo ou rompimento com o cânone, mas também quando ocorre um fenômeno no sentido contrário e nos deparamos com um escritor que faz do seu ofício um cuidadoso artesanato, utilizando vocabulário erudito em uma estrutura narrativa tradicional para escrever contos modernos e com voz própria, ou seja, ao mesmo tempo em que dá continuidade ao trabalho de gerações anteriores, promove a renovação no cenário da ficção brasileira.

Pode ser que o leitor desavisado imagine que está diante de um neologismo ao encontrar uma palavra como "catasterizados" e ficará surpreso, após uma rápida consulta ao dicionário, tratar-se de um termo da mitologia grega que denomina a transformação de uma personagem, homem, ani…

Michel de Oliveira - O sagrado coração do homem

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Michel de Oliveira - O sagrado coração do homem - Editora Moinhos - 164 Páginas - Capa: Sérgio Ricardo - Lançamento: 2018 (Leia aqui um trecho em pdf disponibilizado pela Editora).
Os contos do escritor e jornalista sergipano Michel de Oliveira, guardam entre si a mesma referência temática, uma tentativa de desconstrução do modelo clássico de masculinidade, como foi idealizado ao longo do tempo, por meio da religião, ciência ou das artes em geral. Na verdade, o autor demonstra como o comportamento do homem nem sempre refletiu a moralidade e a suposta grandeza de caráter da qual tanto se orgulha, muito pelo contrário, agindo na sociedade como uma ameaça para a preservação da própria espécie, alguns representantes do gênero masculino agridem os seus semelhantes e o meio ambiente em que vivem, como constatamos nos flagrantes e vergonhosos atos de misoginia, homofobia e violência em nosso cotidiano.
Os contos são apresentados em uma espécie de analogia com os textos bíblicos o que, como se …

César Gilcevi - retrato do poeta quando devedor do aluguel

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César Gilcevi - retrato do poeta quando devedor do aluguel ou poeta bom é poeta morto - Editora Letramento - 170 páginas - Ilustração da capa: Gilson Ribeiro  - Lançamento: 01/12/2018.
Os poemas do mineiro César Gilcevi são inspirados em uma população de excluídos que não tem voz própria, sobreviventes de um sistema econômico que perpetua a desigualdade social nas periferias dos grandes centros urbanos brasileiros. O poeta, que não tem como pagar o aluguel, é também um excluído, um incômodo para nossa consciência já adormecida que prefere ignorar a realidade. De fato, a poesia politicamente engajada de Gilcevi vem para nos tirar da zona de conforto e lhe confere o título de poeta maldito, na melhor tradição de outros nomes da literatura nacional como Cruz e Souza e Roberto Piva, referências presentes em alguns dos poemas do livro.

No entanto, as influências de Gilcevi, que também é músico, não se limitam à literatura, passando por grandes letristas como Lou Reed ou bandas contestadoras …

Lourenço Dutra - Diálogos em Estado Puro

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Lourenço Dutra - Diálogos em Estado Puro - Editora Penalux - 146 Páginas - Capa: Edson Fogaça - Lançamento: 2018 (Leia aqui um trecho em pdf disponibilizado pela Editora).
Um conhecido conselho de Kurt Vonnegut (1922-2007) sobre escrita criativa é que "toda frase deve fazer uma de duas coisas – revelar o personagem ou avançar a ação", isso é exatamente o que ocorre em cada um dos 20 contos reunidos nesta antologia do brasiliense Lourenço Dutra, só que o autor vai ainda mais longe na sua procura pela essência narrativa, valendo-se quase que exclusivamente de diálogos, ou fragmentos de diálogos, para desenvolver a estrutura de seus textos. Uma técnica que utiliza poucas intervenções de um narrador onisciente e certamente agradará ao leitor que não tem paciência para longas descrições ou digressões.

Além da alta velocidade narrativa, o autor se vale também de personagens representativos do povo, flagrados em situações do cotidiano. O protagonista pode ser um taxista homofóbico qu…
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