Adriane Garcia - Arraial do Curral del Rei

Poesia brasileira contemporânea
Adriane Garcia - Arraial do Curral del Rei: a desmemória dos bois - Conceito Editorial - 158 Páginas - Design gráfico: Diogo Droschi - Lançamento: 2019.

O Arraial do Curral del Rei, originalmente uma Freguesia da Comarca de Sabará,  situava-se no local onde, em 1897, foi implantada a cidade de Belo Horizonte, nova capital do Estado de Minas Gerais, planejada e construída em substituição a Ouro Preto. Na época, os habitantes do povoado do Arraial comemoraram o projeto como uma vitória, mas logo perceberam que não haveria lugar para eles na cidade de largas avenidas e teatros que se imaginava construir ali e que logo todos seriam despejados e afastados para permitir o surgimento da nova capital mineira, inspirada em modelos europeus.

A história oficial da primeira cidade planejada após a Proclamação da República não faz referência a esse povo que foi excluído porque, de certa forma, era incompatível com a imagem que se pretendia associar ao progresso, mas os versos de Adriane Garcia, a partir de personagens ficcionais, como a Donana, Zé dos Anjos, Preta Rosa, Emerenciana, Josina e o velho Tião, para citar somente alguns, deram vida e voz a essa gente esquecida no tempo, que os manuais de história e sociologia tentaram esconder e, quem diria, a poesia resgatou.

          Tangidos os bois 
          Suas patas amassam o barro
          Depois das chuvas

          Manso mugido trazendo
          Todos os mugidos do mundo
          Portal do antes e do depois
          Dos bois

          Canga dos homens sob o disfarce
          De atrelar animais
          Carroça/ Carpinteiro/ Abate/ Couro/ Martelo

          O primeiro som do universo:
          O rangido arrastado
          Do eixo oprimido da roda.

Como fica claro no exemplo acima, os poemas são lindos e de grande força e sensibilidade quando lidos isoladamente, porém quando a narrativa em versos de Adriane Garcia forma um conjunto, o final dramático do Arraial ganha ares de epopeia. Nessa história, os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, lema da Revolução Francesa, não guardam qualquer semelhança com o processo de "higienização" do início da nossa República no século XIX.

          Na reunião ficamos todos esperando notícia
          A reunião fechada com eles
          A gente já chamando Cidade de Minas
          A gente, não, a gente que eu falo são eles

          Depois a algazarra toda morria
          Ninguém, nenhum de nós pôde acreditar
          De imediato, que tudo era mentira
          Que teríamos que sair, que iam derrubar as casas

          De boca em boca
          A gente foi logo sabendo
          Um pânico, um não sei o que falar
          Um disse me disse e um mau pressentimento

          Ainda não sei, foi um abatimento de morte
          A primeira das que se seguiram
          Sendo que antes
          Também a gente já vivia morrendo

Uma história que, infelizmente, ainda continua ocorrendo no nosso Brasil contemporâneo, onde a divisão entre a cidade formal e as favelas na paisagem urbana é uma realidade que não pode ser ignorada. Mas, afinal, para onde foi essa gente do Arraial que já não tinha nada e perdeu tudo? Esta é a pergunta que o livro coloca e uma bela e possível resposta está na emocionante dedicatória da autora:  "Àqueles cuja voz nenhuma memória salvou, a minha imaginação." 

          Sem mãos pro trabalho, sem força nas pernas
          O velho Tião, no meio da mata

          Como perdeu tudo
          Se não tinha nada?

          Choupana de barro, batido na vara
          Caindo aos pedaços, casa de cupim
          Comendo farinha, molhada na água

          Como perdeu tudo
          Se não tinha nada?

          Lá vai Tião rumo a Deus sabe quando
          Lá vai sem sapatos, que Tião nunca tem
          Trouxa de pano, camisa e duas calças
          A roupa do corpo e a gamela quebrada

          Como perdeu tudo
          Se não tinha nada?

          O sol escaldante, cavalo nem boi
          As terras de Tião eram do coronel?
          Que ainda debocha e soa a bravata:

          Como perdeu tudo
          Se não tinha nada?

O livro faz parte da coleção BH. A cidade de cada um, um projeto que já completou quinze anos, sempre convidando autores para contar a história de um determinado lugar e época de Belo Horizonte com base nas suas recordações pessoais e escolhas afetivas.

Sobre a autora: Adriane Garcia nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais. Em 2006, no curso de pós-graduação em Arte-Educação, na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), interessou-se por estudar sobre a desconstrução do Arraial do Curral del Rei e a construção da primeira cidade planejada da República, com destaque para as questões de esquecimento e memória. Tendo vivido sempre na periferia (norte) da capital mineira, o olhar voltado para as origens e a exclusão social acompanha sua poesia. Publicou os livros Fábulas para adulto perder o sono (Biblioteca do Paraná, 2013), que foi vencedor do Prêmio Paraná de Literatura, O nome do mundo (Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (Confraria do Vento, 2015) e Garrafas ao mar (Penalux, 2018).

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