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Mostrando postagens de 2021

Mário Baggio - Verás que tudo é mentira

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Mário Baggio - Verás que tudo é mentira - Editora Coralina - 206 Páginas - Diagramação, projeto gráfico e capa: Angel Cabeza - Lançamento: 2020. O paranaense Mário Baggio é um especialista na técnica da narrativa curta. Inspirado na melhor tradição de grandes autores da escola hispano-americana, como Horacio Quiroga, Julio Cortázar e, mais recentemente, Samanta Schweblin – para citar apenas três exemplos na linha do tempo – desenvolve um estilo muito próprio de literatura fantástica ao se rebelar contra o absurdo da realidade cotidiana, transformando-a em ficção. Nesta sua quarta antologia de contos, o autor reflete sobre a mentira e a nossa eterna e "irresistível atração pelo engano", afinal, citando o próprio Mário Baggio no texto de apresentação de seu site: "A literatura é uma mentira. O ato de escrever, a quem o pratica, permite ludibriar a realidade e criar regras próprias – burlando, fingindo, enganando, iludindo, mentindo! –, sem que ninguém peça ou dê explicaçõ

Silviano Santiago - Menino sem passado

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Silviano Santiago - Menino sem passado (1936-1948)  - Editora Companhia das Letras - 464 Páginas - Capa de Alceu Chiesorin Nunes - Imagem de capa: Jean Cocteau © Adagp / Comité Cocteau, Paris [2020] - Lançamento: 22/01/2021. O mais recente lançamento de Silviano Santiago é o primeiro volume de sua autobiografia, cobrindo o período da infância em Formiga, Minas Gerais, de 1936 a 1948, intervalo coincidente com a Segunda Grande Guerra e a implantação do Estado Novo no Brasil, conhecido como ditadura Vargas.  No entanto, é bom que se diga, não encontraremos aqui um livro de memórias tradicional, mas sim uma combinação da prosa ensaísta e de ficção tão característica do estilo do autor, na qual a  memória não obedece uma cronologia básica, muito menos uma genealogia biológica.  As pessoas retratadas,  inclusive o próprio Silviano – chamado de "menino sonâmbulo" – não estão fixadas em seu próprio presente, ou seja, é obtida uma elasticidade ou liberdade narrativa, por meio de con

Sandra Abrano - Vestígios: mortes nem um pouco naturais

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Sandra Abrano - Vestígios: mortes nem um pouco naturais - Editora Bandeirola - 224 Páginas - Projeto gráfico, capa e diagramação de Thaís de Bruyn Ferraz - Lançamento: 2018. O romance de Sandra Abrano é um thriller político que tem como cenário a cidade de São Paulo no período de 1976 aos primeiros anos de 2000, utilizando na ficção alguns fatos marcantes da história recente brasileira, notadamente o submundo do serviço secreto durante os governos militares. Mário Aleixo de Alencar Teles é um protagonista nada confiável que participou como agente do Sistema de Informações e retorna depois de duas décadas ao bairro de Vila Maria onde estabelece uma empresa de segurança. Neste contexto, vários personagens irão se reencontrar para um acerto de contas dos excessos ocorridos durante a ditadura, tais como o desaparecimento de militantes políticos e o assassinato de agentes da repressão. O ponto de partida da trama é um fato real ocorrido em 1976, a queda da Casa da Lapa ou Chacina da Lapa em

Bruno Ribeiro - Como usar um pesadelo

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Bruno Ribeiro - Como usar um pesadelo - Editora Caos & Letras - 148 Páginas - Projeto Gráfico:  Cristiano Silva - Arte de Capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2020. Distopia é pouco para explicar o clima de surrealismo nonsense e a banalização da violência presentes nos contos (ou pesadelos) de Bruno Ribeiro. Com uma linguagem direta e diálogos precisos e velozes, que poderiam ser utilizados em roteiros cinematográficos, o autor coloca os seus personagens, normalmente com posturas politicamente incorretas, em situações de tensão e desespero; um estilo que poderia ser definido como uma mistura de  Quentin Tarantino e Chuck Palahniuk. Contudo, a verdade é que a inspiração para muitos desses textos poderia ter vindo de qualquer noticiário, considerando o clima de barbárie que assola o país ultimamente. O conto de abertura,  A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero , premiado no "Brasil em Prosa", organizado pelo jornal O Globo e Amazon, é uma ótima introdução ao estilo do

Anita Deak - No fundo do oceano, os animais invisíveis

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Anita Deak - No fundo do oceano, os animais invisíveis - Editora Reformatório - 192 Páginas - Imagem da capa: óleo sobre tela de Alex Carrari, 2019 -  Foto de Nino Andrés - Projeto gráfico de Thiago Lacaz - Lançamento: 2020. O mais recente lançamento de Anita Deak é um  romance de formação no qual acompanhamos a trajetória do narrador-personagem Pedro Justiniano Coriolano Naves desde a infância, cercado pela natureza na fazenda da família, localizada na fictícia cidade de Ordem e Progreso, até a sua atuação na Guerrilha do Araguaia, entre abril de 1972 e o início de 1975, um movimento armado de resistência à ditadura militar na região amazônica até hoje envolto em silêncio. Contudo,  este resumo é insuficiente para entender a aventura literária proposta  pela autora que, em um exercício de lapidação da linguagem até o essencial e uma narrativa não linear, muito além  dos saltos temporais entre passado e presente,  surpreende o leitor com um estilo forte e original. Para Anita Deak a fo

Rosângela Vieira Rocha - O coração pensa constantemente

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Rosângela Vieira Rocha - O coração pensa constantemente - Editora Arribaçã - 198 Páginas - Projeto gráfico e capa de Luiz Prates - Revisão de Ana Elisa Ribeiro - Lançamento: 2020. O mais recente lançamento de Rosângela Vieira Rocha é um corajoso exercício de metaficção no qual ela trabalha a própria dor do luto pela irmã mais velha, Edna Vieira Rocha de Rezende, transformando-a em Rubi, personagem deste livro. Com uma  narrativa delicada e lírica, Rosângela dá voz à narradora Luísa, que alterna o doloroso momento de perda com as memórias afetivas da infância e adolescência, para contar a história de um amor muito especial entre irmãs, uma relação que  "não é imune a conflitos nem a rivalidades, mas consegue sair incólume das desavenças, por ser um vínculo feito de matéria incorruptível e perene" . É importante notar que, apesar de o livro conter passagens autobiográficas, não se trata de uma biografia no sentido comum da palavra, mas sim de uma obra de ficção e não existe mai

Alexandre Meira - Guia de sobrevivência do exilado no próprio país

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Alexandre Meira - Guia de sobrevivência do exilado no próprio país - Editora Penalux - 148 Páginas - Editoração eletrônica e Capa: Karina Tenório - Lançamento: 2020. É normal que a decepção com o cenário político atual possa estimular sentimentos contraditórios. De um lado, a apatia política e o desejo de isolamento e, no outro extremo, a polarização ideológica, levando a sociedade a uma escolha entre o conformismo ou o ódio. Para sair deste impasse e preservar os valores democráticos é necessário acesso à informação e diálogo, como propõe este livro de Alexandre Meira, uma reunião de cinco crônicas ou pequenos ensaios sobre os eventos marcantes do cenário político nacional nos anos mais recentes, tais como:  as manifestações de rua de 2013, o impeachment de Dilma Rousseff, a  ascensão ao poder da extrema direita conservadora e  o assassinato de Marielle Franco, entre outros. É fácil entender a sensação de exílio no próprio país quando percebemos que antigas amizades, assim como relaçõ

Maíra Valério - Homens que nunca conheci

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Maíra Valério - Homens que nunca conheci - Editora Patuá - 120 Páginas - Projeto gráfico e Diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: 2020. Maíra Valério nos apresenta em seus contos uma coleção de personagens que definem muito bem a desesperança de uma época na qual passamos a maior parte do dia em frente a uma tela, vivendo em um mundo globalizado, mas estéril de ideias e ideais, permanecendo com o olhar perdido nos aplicativos, sempre conectados e cada vez mais solitários, editando boa parte daquilo que realmente somos para nos transformar no que esperam de nós.  Em uma epígrafe escolhida para um dos contos ( maiúscula - p. 51), a autora destacou uma afirmação visionária da escritora francesa George Sand em uma carta de 1834: "Oculta de mim tua alma, para que eu sempre possa acreditá-la bela", antecipando  tão bem o que fazemos hoje nas redes sociais. Dona de um estilo forte e sincero, como se escrevesse um  diário, Maíra Valério  não demonstra a menor hesitação em rev

Vicente Humberto - Abacates no caixote

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Vicente Humberto - Abacates no caixote - Editora Ficções - 124 Páginas - Projeto gráfico / capa: Alonso Alvarez - Ilustração de Marcos Benjamim - Lançamento: 2020. Abacates no caixote é uma antologia que cobre trinta anos da produção poética do compositor e poeta mineiro Vicente Humberto em uma caprichada edição com imagens de obras de uma seleção de artistas plásticos, tais como: Carlos Scliar (1920-2001), Amilcar de Castro (1920-2002) e Antônio Poteiro (1925-2010), entre outros, compondo alguns poemas ilustrados. Outra curiosidade no livro é a apresentação da biografia do poeta em versos e, assim, ficamos sabendo que Vivente Humberto é engenheiro de Minas pela UFMG e graduado em Letras pela UFG, ou seja: "Oscilou como pêndulo / Entre a lida técnica / Engenharia / E a poesia". A sinopse da editora recomenda ler em voz alta cada poema, pois eles nasceram orais. É verdade, mas também são o resultado de uma persistente busca da expressão que desnorteia e encanta o leitor, como

Leonardo Valente - Calote

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Leonardo Valente - Calote - Editora Mondrongo - 180 Páginas - Capa: Cláudio Duarte - Lançamento: 2020. No mais recente romance de Leonardo Valente, o Brasil se tornou uma espécie de distopia financeira e, por sinal, assustadoramente semelhante à situação na qual vivemos atualmente. Em um futuro próximo, imaginado por Leonardo, o Mercado toma de vez as rédeas da nação em nome de um liberalismo econômico extremo, formatado por um conceito de meritocracia injusto e assumindo as funções de um Estado falido, burocrático e corrupto. O capitalismo predatório prioriza a atividade financeira em detrimento da produtiva, direitos trabalhistas são flexibilizados ou cancelados, deixando a população assalariada refém dos juros extorsivos do cartão de crédito e excluída de qualquer possibilidade de ascensão social. Neste contexto, o romance acompanha a trajetória de dois protagonistas que representam, cada um a seu modo, os extremos deste sistema. Marlene Scheidt é uma sobrevivente da classe média e

Marcela Dantés - Nem sinal de asas

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Marcela Dantés - Nem sinal de asas - Editora Patuá - 232 Páginas - Capa de Leonardo Lott - Lançamento: 2020. O romance de estreia de Marcela Dantés tem como eixo central a morte de  Anja Santiago, uma personagem rara que passou pela vida com uma "imensa vontade de ser invisível" no apartamento novecentos e dois  do Edifício Hotel Lucas. Foram anos marcados por "uma eterna sucessão de solidões" e tendo como único companheiro o gato Rinoceronte, lento e desastrado, com quem ela compartilhava d a mesma aversão por gente, "preferia o silêncio de uma noite escura". Morreu sozinha em um prédio com dezenas de pessoas e continuou sozinha até o seu corpo ser descoberto, cinco anos depois. Pode parecer um argumento improvável, contudo, como ocorre tantas vezes, a realidade é mais surpreendente do que a ficção, uma vez que o romance foi inspirado em um caso real de uma mulher encontrada mumificada no próprio apartamento, cinco anos após sua morte, notícia do jornal “

Barack Obama - Uma terra prometida

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Barack Obama - Uma terra prometida - Editora Companhia das Letras - 764 Páginas - Tradução de Berilo Vargas, Cássio de Arantes Leite, Denise Bottmann e Jorio Dauster - Capa: Christopher Brand - Lançamento: 17/11/2020. No primeiro volume de suas memórias, Barack Obama, explica em detalhes, mas sempre com uma  linguagem simples e didática, os momentos marcantes de seu primeiro mandato e a improvável trajetória que o  filho de um negro africano, com nome muçulmano e ideias socialistas, percorreu até chegar ao comando da Casa Branca por dois períodos consecutivos, de 2009 a 2017.  Logo de início ele encontrou uma brutal crise financeira que desmontou a economia norte-americana e provocou uma recessão global, exigindo a articulação de um grande pacote de ajuda econômica que aumentou os gastos federais para a saúde, infra-estrutura, educação e incentivos fiscais. Sem a maioria no Congresso, enfrentou muita oposiçao do Partido Republicano para conseguir a aprovação da Lei de Proteção e Cuidad