Luiz Bras - Vidas andarilhas

Literatura brasileira contemporânea
Luiz Bras - Vidas andarilhas - Editora Caos & Letras - 192 Páginas - Projeto Gráfico e Diagramação: Matéria-Prima Editorial - Lançamento: 2021.

Procuro uma forma de resumir o mais recente lançamento de Luiz Bras e percebo, lendo a ficha catalográfica, vício de todo resenhista, que a Editora Caos & Letras optou pela classificação de Literatura Infantojuvenil, contudo me parece uma escolha insatisfatória e que pouco esclarece sobre o conteúdo da obra, nada contra o gênero, mas talvez o subtítulo da folha de rosto, "uma fantasia-vertigem", seja mais apropriado ou até mesmo a máxima indefectível, ainda que pouco original: "um livro para todas as idades". O fato é que o autor soube muito bem como conquistar os seus leitores, jovens ou adultos, com uma deliciosa prosa que prende a atenção e surpreende a todo momento pela criatividade e lirismo, uma obra recomendada.

Na fictícia cidade de Cobra Norato, o fio condutor das diferentes narrativas descreve a velha andarilha de cabelos soltos e prateados, "a sagrada onça-mãe, deusa dos felinos". Ela tem um passado misterioso e carrega uma mala onde mantém aprisionadas todas as suas lembranças. Foi condenada pela sua rainha, a lua ancestral, a repetir eternamente a mesma tarefa em cada cidade, espalhar a sorte entre os gatos para que os felinos espalhem o pólen da sorte entre as pessoas, "trata-se da sorte delicada, uma camada fina de sucesso, um carinhoso sopro de boa ventura..."  A velha costuma desconfiar da eficácia do seu trabalho, mas a lua ancestral sempre a convence a continuar, "aperfeiçoando as imperfeições do tempo e do espaço". 

"A velha andarilha carrega numa mala cansada todas as suas  memórias, as agradáveis e as terríveis, as importantes e as desnecessárias. Mas ela raramente abre sua velha mala. Tem muito medo das memórias terríveis. Elas não dormem e são as primeiras a gritar quando a mala é aberta. Os gatos não entendem por que as pessoas consideram as lembranças tão importantes. – Lembranças pesam demais, atrapalham o movimento – eles reclamam. [...] Nomes são etiquetas que a gente cola nas coisas e nas pessoas, pra saber que são as mesmas coisas e pessoas de ontem, anteontem, do passado recente ou distante. Porque as coisas e as pessoas mudam sem parar, os nomes não. São menos volúveis. Fico feliz que a cola e a tinta das etiquetas não saiam fácil, se a gente cuidar bem. A velha andarilha já teve um nome próprio. Mas usava-o tão pouco que acabou esquecendo no fundo da mala velha, junto com as outras lembranças desnecessárias, sempre sonolentas." (pp. 15-26)

Enquanto a velha andarilha inicia a distribuição do pólen da sorte em Cobra Norato, a repórter Iara Tupinambá chega à cidade para entrevistar o desaparecido cientista Leonardo Ianomâmi sobre a sua pesquisa com células-tronco e a cura do envelhecimento. Ela se assusta quando começa a receber mensagens telepáticas do doutor Ianomâmi, que está sendo perseguido por uma organização criminosa devido ao segredo da telepatia, uma descoberta que possibilitará a conexão entre as pessoas e a empatia total com o fim dos conflitos mundiais. Tudo parece estar perdido quando é anunciada a morte do cientista em um suspeito acidente de carro, mas Iara continua a receber mensagens telepáticas dele, ainda existe chance para a empatia mundial?

Entre tantos personagens em cobra Norato, o mais simpático é o monstro que mora no banco da praça em frente ao correio e tem um cheiro gostoso de alfazema, mas ninguém sabe que o monstro existe, ele é "um monstro meio fantasma". O monstro tem uma imaginação colorida e, ao longo de dez anos morando na mesma praça, já coloriu mais da metade da população. A menina vermelho-pimenta será a primeira que conseguirá notar a sua presença e, com a chegada da nova amiga, o monstro irá adquirir o poder de escutar o pensamento das pessoas que passam. O monstro sempre viveu no mesmo lugar, mas agora tem uma estranha saudade da floresta que aperta o seu peito, "um abraço de polvo, que esmaga os pulmões".

"Imagine que você está se penteando na frente do espelho e de surpresa teu reflexo pisca pra você. Quando você era criança, sempre quis que ele fizesse qualquer coisa diferente: piscar, mexer um braço, falar com você... Imagine que hoje teu reflexo finalmente piscou pra você. Uau, um reflexo vivo seria uma novidade faiscante! Tudo mudaria em nosso mundo, porque outro mundo surgiria do outro lado do espelho. Outro você, outra cidade. Outro infinito. Mas teu reflexo não piscou pra você. Sossegue. Tudo continua normal. Eu só queria que você imaginasse a surpresa que seria. A mesma surpresa que o monstro que mora no banco da praça em frente ao correio está sentindo. O monstro-fantasma sempre quis ser visto pelas pessoas que passam todos os dias pela praça. Mas agora que a menina vermelho-pimenta finalmente está conseguindo enxergar seu corpão peludo de quase três metros de altura, o monstro não sabe o que fazer, não sabe o que dizer. Ah, pare com isso! Que timidez é essa, meu querido?" (p. 90)

Sobre o autor: Nelson Luiz Garcia de Oliveira, mais conhecido como Nelson de Oliveira ou, ainda, Luiz Bras, pseudônimo que adotou em 2012, nasceu no dia 22 de abril de 1968, em Guaíra - DF. É doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), e publicou, dentre outros títulos, Naquela época tínhamos um gato (1998), Treze (1999), Subsolo infinito (2000), O filho do crucificado (2001) e A maldição do macho (2002), Sozinho no deserto extremo (romance, 2012), Distrito federal (Rapsódia, 2014), Pequena coleção de grandes horrores (minicontos, 2014), Não chore (novela, Patuá, 2016) Subsolo infinito (Segunda edição, Patuá, 2016). Organizou duas antologias de contos da geração 90: Manuscritos de computador (2001) e Os transgressores (2003). Tem textos (contos e críticas) publicados nas revistas Cult e Livro Aberto (SP), Medusa (PR) e Bravo, e nos jornais Correio Braziliense, O Globo e Suplemento Literário de Minas Gerais, Rascunho (jornal literário) e Folha de S.Paulo.

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