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Mostrando postagens com o rótulo Poesia brasileira contemporânea

Angelo Lemos - A vida é um hotel dentro de um cemitério construído por deus

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Angelo Lemos - A vida é um hotel dentro de um cemitério construído por deus - Editora Litteralux - 114 Páginas - Capa e diagramação: Karina Tenório - Lançamento: 2026. A vida é muito breve como bem sabemos e isso fica evidente no título e nos poemas do mais recente lançamento de Angelo Lemos. Nada mais apropriado para representar uma estadia passageira do que um hotel e não há metáfora melhor para a finitude da morte do que um cemitério. Com um estilo direto que remete em alguns momentos à crueza de Charles Bukowski e em outros à simplicidade dos versos curtos e bem-humorados que me fazem lembrar de expoentes  da geração mimeógrafo no Brasil dos anos 1970, como Cacaso e Paulo Leminski, o autor fala de amor, perdas e dos erros da juventude na busca pela garota certa, como destaca Mário Bortolotto em um prefácio tão inspirado que poderia ser publicado com pequenos ajustes como um conto. Alguns poemas sem título, devido à sua brevidade, concisão e simplicidade, se aproximam da estétic...

Adriane Garcia - Atlas de Anatomia

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Adriane Garcia - Atlas de Anatomia - Editora Caos & Letras - 114 Páginas - Projeto gráfico: Cristiano Silva - Capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2026. Em Atlas de Anatomia , seu mais recente lançamento, Adriane Garcia retoma um procedimento recorrente em seus livros anteriores, reunindo poemas alinhados em torno de um mesmo tema. Dessa vez, a matéria-prima é o corpo, esse misterioso companheiro tão próximo e, ao mesmo tempo, tão desconhecido, capaz de se revelar tanto uma bomba-relógio prestes a falhar sem aviso prévio quanto uma fonte inesgotável de prazer, sonho e afeto. Partindo de representações simbólicas de partes da anatomia, os poemas ultrapassam a dimensão biológica para refletir sobre formas diversas de violência e sofrimento da mulher, como em  Mama (p. 51) : "Mastectomia: / O pânico da palavra / Enquanto ela escolhia / Para a cicatriz / Uma tatuagem // Mulher é essa força / De amamentar até os desertos." Da opressão exercida sobre o corpo feminino às desiguald...

Danilo Giroldo - Rosa infinito

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Danilo Giroldo - Rosa infinito - Editora Patuá - 92 Páginas Capa e projeto gráfico: Alessandro Romio - Lançamento: 2025. Os poemas de Danilo Giroldo neste seu mais recente lançamento, Rosa infinito ,  surpreendem pela inspiração que afasta-se do lirismo convencional para apresentar ao leitor imagens inusitadas, como em  Precipício (p. 17): "quem é o precipício / na perspectiva do abismo / um vazio apenas / a sensação própria da queda / andar junto ao precipício / não é para qualquer um" , versos que evocam, em alguns momentos, a poética de João Cabral de Melo Neto, especialmente à ideia de aprendizagem pela dureza do mundo real, me fazendo lembrar de  A educação pela pedra : "É preciso tirar algumas lições / dos líquens e dos musgos / a nutrição em total aridez / o amor pelo substrato / a aderência integral à beirada / a escora na rocha clivada" . A imagem da resistência fria da pedra retorna em Sentido (p. 33): "aprender com a pedra / com a folha amarela / ...

Priscila Faria - Nesse corpo de água doce

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Priscila Faria - Nesse corpo de água doce - Editora Patuá - 112 Páginas - Capa e projeto gráfico: Roseli Vaz - Lançamento: 2026. Os poemas de Priscila Faria neste livro de estreia demonstram coragem ao encontrar  força e beleza no duro aprendizado de ser mulher em nosso país. Um exercício diário de resiliência para conseguir conviver com a violência de gênero que não respeita idade ou laços familiares e tantas vezes termina em feminicídio. É um tema difícil. Parece não caber em versos, e muitos preferem silenciar, mesmo quando a tragédia ocorre tão próxima de nossas casas. No entanto, é preciso resistir e para isso também serve o espaço da poesia:  "aprendi a transitar pelos porões abertos / acender a luz / sacar a caneta // ainda tenho medo / mas aqui não" Priscila transmite intensidade emocional ao descrever o universo feminino em transformação, utilizando a metáfora do corpo como água em movimento, oceano profundo ou rio caudaloso que transborda e ocupa cada vez mais espaç...

Antonio Carlos Secchin - Desmentir

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Antonio Carlos Secchin - Desmentir - Editora Patuá  72 Páginas -  Capa e projeto gráfico: Alessandro Romio - Lançamento: 2026. Seja lidando com formas livres ou estruturas fixas clássicas como os sonetos, rigorosamente metrificados em versos decassílabos ou alexandrinos, a poesia de Antonio Carlos Secchin é inspiradora na sua metalinguagem bem-humorada e carregada de fina ironia, seguindo a melhor tradição de Vinícius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade. Mais do que uma mera demonstração de virtuosismo técnico, os poemas reunidos em Desmentir se equilibram entre a erudição e a liberdade criativa, a leveza e a reflexão, provando que não existe incompatibilidade entre o fazer poético tradicional e o contemporâneo. Este seu mais recente lançamento é dividido em três partes: Desmentir , Dez sonetos malcriados e Abecebicho , cobrindo a diversidade de forma e conteúdo que caracteriza o estilo do poeta.   "Lutar com palavras é a luta mais vã" já dizia Drummond, um pensamen...

Paulo Fraga-Queiroz - Pássaros de giz

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Paulo Fraga-Queiroz - Pássaros de giz - Editora 7Letras - 120 Páginas Capa: Gesse Colares - Desenho de capa: Sérvulo Esmeraldo O poeta sabe que a infinita luta com as palavras é a sua companheira das madrugadas, como dizia Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) no clássico O Lutador:   "Lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã. [...]" E, de fato, nos versos de Paulo Fraga-Queiroz percebemos essa busca incansável pela palavra exata:  "à sua maneira / minera / a própria alma / entre a lama / e o suor / rompe a fronteira / nada lhe resta / além da eterna peneira [...]" - O poeta insone procura (p. 69). A poesia e os poetas são temas recorrentes neste livro, como em Drummond, em seu bronze habitual (p. 56), uma joia da metapoesia inspirada na estátua do nosso eterno e universal poeta que, por falta de definição melhor, chamamos de modernista. Escrever poemas é, de certa forma, flertar com a ilusão da eternidade, uma tarefa inútil ...

Paula Poc - Artrópode

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Paula Poc - Artrópode - Editora Patuá - 180 Páginas - Capa, projeto gráfico e diagramação: Fernando Campos - Lançamento: 2024. Paula Poc surpreende com a sua prosa poética que utiliza diferentes técnicas narrativas para contar a inusitada história de uma mulher que se apaixona por um inseto. O texto mescla fluxo de consciência, poemas, entradas de diário e cartas, enquanto incorpora definições científicas que adquirem tons oníricos ao longo do livro. Essa fusão entre sonho e realidade permeia toda a obra, tornando o projeto literário da autora difícil de resumir ou categorizar, tanto em sua forma quanto em seu conteúdo. Apesar da inspiração kafkiana da trama nos fazer lembrar do clássico personagem Gregor Samsa e sua improvável metamorfose, em Artrópode as tranformações ocorrem no interior da protagonista-narradora que tenta compreender e superar as perdas amorosas como um processo de evolução. "Te vejo sentado, nitidamente desconfortável, as asas apoiadas formando um ângulo esqu...

Vicente Humberto - Caixa de vazios

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Vicente Humberto - Caixa de vazios - 152 Páginas - Editora Ficções - Capa: Adriana Conti Melo Projeto gráfico: Alonso Alvarez - Lançamento: 2025. A mais recente coletânea de poemas de Vicente Humberto, dividida em três partes: "Uma árvore quase pronta" , "Fazenda harmonia" e "Sombra feliz" , me parece resultar das reflexões de um homem maduro sobre essa coleção de vazios que acumulamos ao longo da vida, justamente quando percebemos que o balanço de perdas e ganhos pode resultar em uma solidão  por vezes desejada, como nos versos de Teoria (p. 34): "A vida / Entristece / Sem pressa / Tudo depende de um / Referencial / Percepções diferentes / Movimento e repouso / Sinto falta da solidão / Celebro" .  E, no entanto, há espaço para a renovação, como o poeta diz em 3 de fevereiro (p. 73): "[...] E o privilégio de não pensar / em nada / Faz pensar tanta coisa / Eu me dou de presente / O café preto que preparei / Alheio / O horizonte atrás / Da ...

Caio Garrido - Marés

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Caio Garrido - Marés - Editora Folheando - 144 Páginas - Capa de Gyzelle Góes - Lançamento: 2023. O livro de poemas de Caio Garrido está dividido em quatro partes: Estuário , Terra em Transe , Maré Alta e Mar Aberto . Os versos nascem a partir da antiga pretensão do homem em compreender a vida e a morte, essa impossibilidade que fica tão evidente quando nos deparamos com a imensidão do oceano ou ainda quando percebemos a fugacidade da memória, como declara o poeta: "Toda vida é sempre a dor de não encontrar / o caminho de volta" ou na sequência: "Na mata virgem / pisamos pela primeira vez / e nos impressionamos / ao repente / com o fato de sermos tão sós / tal pássaro sem voz // Voltamos com a certeza / de que toda juventude / foi embora — / no primeiro passo" . As ondas e os ventos são a inspiração e o ritmo que Garrido busca com seus poemas: "Vontade de chorar / A água salgada é sincera // A mulher é bela / em qualquer lugar // Mas só no mar / É aquarela...