Adriane Garcia - Atlas de Anatomia
Em Atlas de Anatomia, seu mais recente lançamento, Adriane Garcia retoma um procedimento recorrente em seus livros anteriores, reunindo poemas alinhados em torno de um mesmo tema. Dessa vez, a matéria-prima é o corpo, esse misterioso companheiro tão próximo e, ao mesmo tempo, tão desconhecido, capaz de se revelar tanto uma bomba-relógio prestes a falhar sem aviso prévio quanto uma fonte inesgotável de prazer, sonho e afeto. Partindo de representações simbólicas de partes da anatomia, os poemas ultrapassam a dimensão biológica para refletir sobre formas diversas de violência e sofrimento da mulher, como em Mama (p. 51): "Mastectomia: / O pânico da palavra / Enquanto ela escolhia / Para a cicatriz / Uma tatuagem // Mulher é essa força / De amamentar até os desertos."
Da opressão exercida sobre o corpo feminino às desigualdades sociais e aos conflitos que marcam o mundo contemporâneo, Adriane constrói uma cartografia poética em que o corpo se torna espelho das fragilidades e contradições da experiência humana. No entanto, sem assumir apenas uma posição panfletária, os versos refletem também uma visão sensual, bem-humorada e irônica, própria de Adriane Garcia, uma poeta que surpreende por manter o engajamento político sem descuidar do refinamento estético. A ideia central é desenvolvida com consistência ao longo do volume. Afinal, o corpo é uma experiência universal e, ao mesmo tempo, profundamente individual. Aproveitem os poemas dessa obra feita de amor, carne e desordem, na feliz definição da autora.
DORSO (p. 23)
Às nossas costas
Mais que coluna e musculatura
Pesam a maledicência
O desejo escuso de ferir
Cochichos, as palavras
Armas brancas, preparando
Vilanias para um almoço
Para um jantar
Para um café da
Manhã/ o inferno são
Os outros
Não é um mundo seguro para andar de frente
Não é um mundo seguro para andar de costas
Não é um mundo seguro
Para andar.
DENTES (p. 24)
Era um prédio decaído
Na Praça da Estação
A menina carregava
Quinze anos e
Dentes estragados
O dinheiro pouco
Para muita amálgama
O pouco escrúpulo
Do dentista
Voltou anestesiada
A sutura só mais tarde
Sentida
Entre tantas coisas
Perdidas
Perder ainda
Mais um dente.
GLANDE (p. 46)
Glande:
A palavra exótica
Feita
Para encher a boca.
CLITÓRIS (p. 47)
Desde criança ela sabe
A localização exata dos seus territórios
Difícil aprender Geografia
Se não puder nem andar pelo bairro
No mapa, o ponto onde espocam
Os fogos de artifício.
DISSECAÇÃO PROFUNDA (p. 53)
Camada por camada
Tecido por tecido
Veia por veia
Artéria por artéria
Órgão por órgão
Olho por olho
Dente por dente
Ninguém
Jamais
Conhecerá
O que o outro leva
Por dentro.
DIAFRAGMA (p. 66)
Podemos um pouco mais
Ainda um pouco mais, sabe?
Existe um ar reserva no diafragma
Coisa que mergulhadores usam
Muito bem
E também cantores
E artistas de
Teatro
Por isso, quando pensamos que acabou
Que chegamos à asfixia
Vamos, querendo ou não, usar o ar do
Diafragma
A vida gosta desses momentos de
Heroísmo
Em que nós já desistimos
E ela ainda não.
RETINA (p. 91)
E todos tentam mostrar aos outros
Exatamente o que estão vendo
Quando ninguém está vendo
Absolutamente
O que o outro vê.
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