Vanessa Malagó - Todos os gestos do fogo
Em sua maneira muito própria de falar de amor, Vanessa Malagó surpreende o leitor em meio à rotina de solidão, aplicativos e inteligências artificiais, fazendo-o descobrir que ainda é capaz de se emocionar e de sentir empatia. Com personagens que alternam o protagonismo a cada capítulo, a autora constrói uma narrativa multifacetada, explorando diferentes pontos de vista. No centro da trama está a relação entre Pedro e Tonia. Ele é professor de literatura russa, aproxima-se da meia-idade e tem um filho pequeno, fruto de um casamento anterior. Ela, dançarina de flamenco, também separada e mãe de uma filha que cursa a faculdade, é leitora de Virginia Woolf e Guimarães Rosa e passou por uma transformação difícil em busca de seu lugar no mundo.
Em paralelo à história de Pedro e Tonia, acompanhamos a trajetória de Guto, um jovem engenheiro de vinte e sete anos que trabalha em uma multinacional e tem diante de si a perspectiva de uma vida estável e feliz. Contudo, ele luta contra uma "dor asséptica, sem cor, invisível e silenciosa" que o desgasta até um ponto extremo, levando-o a tentar tirar a própria vida. No lento processo de recuperação, a reaproximação com os pais, dos quais havia se afastado, e a descoberta do afeto do irmão mais novo, Beto, serão fundamentais. O que parece aproximar os personagens é a busca de sentido para suas vidas, um movimento contínuo de mudança que encontra no fogo um símbolo tanto da força do desejo quanto da possibilidade de transformação.
"O amor pra ele costumava seguir o tempo das palavras. Primeiro a semente, em seguida um despontar, estrutura ascendente em brotação. O crescer lento, depois de enraizado. Os afetos cultivados no passar das estações. / Lembrava-se da primeira vez em que se encontraram. Do seu jeito com as palavras, tinha deduzido que ela fosse poeta. Não era. Mas a poesia podia lhe sair pelas mãos, Pedro descobriria depois, no dia em que tinha ido vê-la dançar. Nas palavras iniciais, nos olhares, a terra úmida das primeiras chuvas pronta a ser semeada. Então, de uma brisa, de um calor abrupto, sem nem ter bem onde se firmar, já era tudo seiva e perfume, pulsar descompassado de um tempo ainda não conhecido por ele. / O encontro inicial se deu coisa de cinco ou seis meses antes. O que primeiro ele viu foi o livro. Antes das mãos, dos olhos e daquele tanto de pernas, que era até de se duvidar que tivesse mesmo olhado para o livro e não para elas. Aquela edição linda que ela trazia, transfigurada com post-its luminosos que avistou à distância, zombando dele e seu exemplar tão recatado, imaculado de riscos e marcações. Tonia, recém-chegada ao grupo, reconhecia o espaço. Você gostou do livro?, perguntou enquanto pegava água e ele esperava sua vez. Só então, vendo-a de pé, tinha se dado conta de como era alta. Ah, tinha se dado conta então das pernas." (p. 13) - Trecho da primeira parte: Chama
A autora demonstra fluência narrativa ao integrar descrições, digressões e diálogos em um fluxo contínuo, sem recorrer à pontuação convencional dos diálogos por travessões. Esse procedimento me lembra a escrita de José Saramago e contribui para aproximar a voz narrativa dos pensamentos e das percepções dos personagens. Outra característica da obra é a metalinguagem, que faz da própria literatura um elemento da trama: Pedro e Tonia se conhecem em um clube de leitura, e as referências literárias ultrapassam a condição de simples citações para estabelecer analogias com a personalidade dos personagens e suas diferentes maneiras de compreender o mundo, como ocorre na comparação entre Anton Tchekhov e Virginia Woolf.
"A dor do Guto, por fim, parecia ter cor e ela era vermelha. O piso frio do banheiro manchado. Aquilo que parecia faltar no Guto, mas que ele ainda tinha e se dissolvia sobre o azulejo branco. / Beto tinha entrado esbaforido no apartamento. Não sabia o que ia encontrar. Podia ter imaginado tantas coisas do Guto, mas não isso. O líquido viscoso escorrendo pela borda da porta para o corredor. / Beto ficava branco só de ver a agulha picar a veia quando ia fazer exame de sangue. Uma vez, ainda menino, cortou o dedo em vez do queijo. Tinha pegado a faca que vira Guto usando, tão habilidoso. O grito fez a mãe chegar em um segundo, depois o irmão. Acho que você vai perder o dedo, o Guto falou no tom mais sério que podia, olhando o corte, enquanto ele desviava o olhar. A mãe tinha metido o dedo dele debaixo da torneira. É só um cortinho, Beto. Vai acreditar no que o Guto diz? Vou fazer um curativo e logo sara. O irmão só rindo." (p. 77) - Trecho da segunda parte: Sangue
Em Todos os gestos do fogo, Vanessa Malagó constrói uma narrativa em que o amor não se limita à idealização dos afetos, mas se revela também nas fragilidades, nas ausências, nos conflitos e na difícil tarefa de reconhecer os próprios sentimentos. As trajetórias de Pedro, Tonia e Guto, embora distintas, convergem na necessidade de reconstruir vínculos e encontrar novas formas de habitar o mundo. O fogo, elemento que permeia toda a obra, surge como símbolo do desejo, da transformação e da possibilidade de renascimento. Malagó oferece ao leitor um romance que convida a refletir especialmente sobre o preconceito, mas também sobre o amor, a dor e os recomeços. É uma obra que reforça o nome da autora no cenário da nova literatura brasileira.
"Sinto tua falta. De início só aquelas três palavras. Tanta coisa pra dizer, mas o resto fica em pensamento. Tanta coisa naquela intenção, no esforço que não é o de digitar as palavras e leva não mais que cinco segundos. Cinco segundos que são semanas em ruminação. Meses em que qualquer tentativa de fuga é um enredar-se mais. Talvez ele agora se sinta preparado. Talvez não esteja nem um pouco preparado (quem é que está?). Um salto o qual se arrisca, sem a valentia de dizer as palavras todas. Sinto tua falta. O seu apuro pela síntese, a ordenação do caótico, em vez de dizer as coisas aparentemente banais que atravessam os dias, a música que colocou para ouvir porque faz lembrar dela, a edição nova de Mrs. Dalloway sobre a mesinha da sala, que tinha começado a ler na véspera. Aparatos corriqueiros para fazer viva uma presença. Sinto tua falta, os encontros do clube já não são mais os mesmos sem você. Sinto tua falta, quero muito te ver. O final da frase ele não diz. O final engasgado, até os dedos seram mais velozes que a voz. Me desculpa. Por ter deixado você ir, por não ter ido atrás de você. Por não ter feito isso antes. Sinto tua falta, não consigo ficar sem pensar em você." (p. 127) - Trecho da quinta parte: Procura da poesia
Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Todos os gestos do fogo de Vanessa Malagó


Comentários