Vanessa Malagó - Torrente

Literatura brasileira contemporânea
Vanessa Malagó - Torrente - Editora Patuá - 224 Páginas - Capa e projeto gráfico: Fernando Campos - Arte de capa: Wolney Fernandes - Lançamento: 2023.

O romance de estreia de Vanessa Malagó, selecionado no PROAC 2022 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de SP – categoria Literatura,  fala sobre as relações amorosas em uma época na qual a concepção do amor romântico idealizado, eterno, único e fiel, parece estar definitivamente descartada. Os relacionamentos que resistem à rotina mostram a necessidade de encontrar novas fórmulas para manter os vínculos emocionais e reinventar um amor ainda possível. A estrutura narrativa, portanto, intercala de forma não linear as histórias de sucesso ou fracasso de diferentes casais, buscando o difícil equilíbrio entre razão e paixão.

Laura e Marco, que mantêm uma relação estável de muitos anos, aprendem a lidar com outras formas de amar após conhecerem a jovem Sofia. Já Paula e Felipe perderam a capacidade de compreender um ao outro, requisito básico para qualquer relacionamento. Gabriela e Rogério precisam superar as suas experiências negativas para iniciar uma nova história, enquanto ela sofre ainda com a separação recente, ele não acredita no investimento emocional necessário para uma relação duradoura. Em todos esses casos, o mais difícil para os personagens, prisioneiros de suas individualidades, é ter a coragem de confiar em seus parceiros e entregar-se à torrente.

"Ficara de passar no apartamento numa hora em que ela não estivesse, para buscar coisas suas que ainda estavam por ali. Gabriela deixara na mesa da sala um bilhete quase impessoal. Ao lado da porta, uma caixa com livros e outra com objetos avulsos que recolhera pela casa, amontando-os em desordem. Luiz demorou-se mais do que imaginara, revirara a estante atrás de um livro que ela dissera não ter encontrado e que ele tampouco pudera achar. Não queria tardar-se mais, mas cada coisa carregando uma história lhe enredava em pensamentos. Já em vias de sair, Gabriela chegou. Sentiu um leve estremecimento, porque não pensava em vê-la ali. Pensei que você viria mais cedo, ela disse. Acabei me atrasando. Ele não admitiria que se perdera entre as lembranças. Gabriela tinha uma rispidez que ele não reconhecia, uma racionalidade de contornos incertos. Não via que ela estava no meio-fio, à espera de uma fala tardia? Mas bastaria para sobrepor o silêncio instituído? Ela sabia que ali se despediam. Havia raiva por haver também amor. Por entre as paredes que ergueram, algo tremulante. Esperança? Na aparente indiferença, escoriações. A raiva era, sim, indício genuíno de amor. Era por gostar tanto dele que engolia o pranto, os dentes triturando o resquício dos afetos." (p. 19) - Trecho da primeira parte - Sementes

É difícil encontrar novas formas de falar de amor, um tema recorrente na literatura, mas ainda assim sujeito a transformações ao longo do tempo, desde a necessidade de manutenção da linhagem e dos bens materiais na idade média, passando pelo romantismo e a instituição do casamento, procriação e perpetuação da família nos séculos XVIII e XIX até chegar na fluidez dos relacionamentos da era tecnológica. Contudo, Vanessa Malagó conseguiu, com muita sensibilidade, mostrar como a necessidade de se apaixonar permanece na natureza humana.

"Marco abriu a segunda garrafa de vinho. Sofia secava as mãos quando ele lhe estendeu a taça. Ela aceitou, sem hesitar. Experimentou a bebida com ares de aprovação. Laura tomou a taça de suas mãos, provando e em seguida compartilhando-a com Marco. Certos gestos traziam códigos implícitos que Sofia entendia, mas parecia duvidar. Vamos fazer a sobremesa?, ela sugeriu, já separando os ingredientes que trouxera. Vendo-a quebrar a barra de chocolateem pedaços, Laura se aproximou, mordiscando um deles sem resistir. Sofia colocou-os na panela, derretendo-os em fogo baixo. Dava-se conta de que ela também se derretia, mirando-os de soslaio. Estavam os dois ali tão perto, Marco recostado junto à pia, Laura acomodada a seu lado. Acrescentou um pouco de manteiga e tirou de um potinho a mistura de especiarias. O cheiro parecia tão bom. Polvilhou um pouco sobre a calda, pondo-se então satisfeita. A hora mágica, disse Marco, que junto com Laura a observavam. Marco acha que seus pratos são afrodisíacos, Sofia. Ela riu, se deliciando com a ideia. Vocês não sabem dos artifícios de que faço uso, respondeu, entrando no jogo. Marco acariciava a mão de Laura e ela o olhava com seu sorriso aberto, tocando-lhe o rosto com a ponta dos dedos. Depois o beijou. Não umleve toque de lábios, como seria o de se esperar, tendo ali Sofia como espectadora, mas um beijo ardente, provocador, como se o vinho também lhe subisse. Sofia ficou contemplando aquele beijo, achando-o lindo e se sentindo estranhamente excitada. O aroma do chocolate se espalhava pela cozinha. Desligou o fogo e esperou." (pp. 125-6) - Trecho da terceira parte - Inundação

Literatura brasileira contemporânea
Sobre a autora: Vanessa Malagó nasceu em São Paulo, em 1976 e atualmente vive em Campinas, SP. Formada em Publicidade pela Escola Superior de Propaganda e Marketing e pós graduada em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas, atuou durante mais de 20 anos na área de Marketing e Comunicação. É praticante e professora de Yoga e Meditação. Em 2019 publicou seu primeiro livro, que trata sobre as bases filosóficas do Yoga, "Vivenciando o Yoga Sutra: a prática do Yoga além do tapetinho". O amor pelos livros começou na infância. Na adolescência vieram os primeiros poemas e projetos literários, que acabaram ficando na gaveta, mas trouxeram momentos de alegria e aprendizado. Em 2022 foi premiada no PROAC (Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de SP) de Literatura para Obra Inédita de Ficção com o projeto deste livro, que é seu primeiro romance.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Torrente de Vanessa Malagó

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