Fabio Weintraub - Novo endereço

Poesia brasileira contemporânea
Fabio Weintraub - Novo endereço - 120 Páginas - Editora Patuá - Projeto gráfico e diagramação: Laura Daviña - Gravura de capa: Fernando Vilela - Lançamento: 2022.

Edição comemorativa de vinte anos do lançamento de "Novo endereço", livro de poemas de Fabio Weintraub, vencedor dos prêmios Cidade de Juiz de Fora (2001) e Prêmio Especial Casa de las Américas (2003), incluindo o prefácio original de Priscila Figueiredo e dois textos críticos atuais (assinados por Eduardo Sterzi e Gustavo Silveira Ribeiro), além de fotos e ilustrações criadas por artistas como Fernando Vilela, que assina a capa (uma xilogravura baseada na capa da primeira edição, com foto e concepção de Mário Rui Feliciani); Renato Moriconi, que preparou duas pinturas para os poemas “Náufrago” e “Sfumato”; Ronald Polito, que fez um poema-objeto em diálogo com o poema “E vice-versa”, e duas fotos de Mário Rui Feliciani para os poemas “Noite” e “Novo endereço”.

Os poemas de Weintraub contam histórias de pessoas comuns em meio ao drama no qual a vida se transforma nos grandes centros urbanos. Assim, presenciamos a solidão e o tratamento impessoal nos hospitais e asilos ("minha mãe não era disso / só estava muito triste / e confundida"), a desigualdade social gerando violência ("Vocês não podem velar / o corpo do meu marido / ao lado desse aí / que a polícia acertou"), o sentimento de perda e abandono representado por objetos ("Sobreviventes portas / desempregadas / junto às janelas / de joelhos / e como nós / mendigas da passagem") e, em meio a tudo isso, versos que podem te fazer chorar, especialmente no dia dos pais ("Meu pai cantando alto / limpo e bonito  como só ele / numa estrada clara / sem pedágio ou limite / de felicidade").

Assim como na sua antologia mais recente, "Quadro de força" (Patuá, 2019), o poeta lida com os urgentes problemas sociais do nosso tempo, dando voz para grandes parcelas da população que têm o status de invisíveis ou perdedores. Deixo com vocês alguns exemplos da forte poesia narrativa de Fabio Weintraub.

mãe

Então me informaram
que os pertences da paciente
– um par de brincos mais um colar –

deveriam ser retirados
pois há quem se fira
ou fira os outros
em tal estado

Minha mãe suplica:
precisa de talismãs
pra passar a noite fora de casa
Só assim ficará protegida
O Inimigo não a tocará

Expliquei-lhes que não era caso
para um tal rigor
minha mãe não era disso
só estava muito triste
e confundida

A funcionária assentiu a contragosto

Devolveram-lhe as bijuterias
assinei o termo de responsabilidade
e ainda pude ver os enfermeiros chegando
antes de ser forçado a sair

demolidora 3 irmãos

Vendem-se portas:

portas sem costas
portas na brisa
aleijadas
viúvas do esqueleto das salas

(e as maçanetas
são torneiras gotejantes
molhando mãos transtornadas)

Portas de exportação
portas de exílio ou transplante
ruínas móveis
à espera de novos reinos

(quem se importa
se é outra a soleira
outros passos a cruzá-la
outra luz
riscando o batente?)

Portas sem postigo
portas de castigo
despalpebrada vista
fitando
os olhos da rua

Sobreviventes portas
desempregadas
junto às janelas
de joelhos
e como nós
mendigas
da passagem

barrabás

Vocês não podem velar
o corpo do meu marido
ao lado desse aí
que a polícia acertou

Vocês me desculpem
Imagino o sofrimento
perder um filho assim moço

Meu Cícero
morreu trabalhando
um tiro pelas costas
às duas da manhã
ao lado do desse aí
o corpo dele não vai gelar

Não adianta insistir
ao lado de bandido
meu marido não fica

pai

Desempregado há três anos
no país do futuro

Batendo pernas nas ruas
com o mostruário de meias

Adivinhando
o signo da morena
o ascendente da loira

Jogando xadrez
assobiando um samba
colecionando borboletas
descobrindo a fórmula exata
da tinta para balão
(tinta que não racha
sobre a pele inflável)

Contra as determinações médicas
filando cigarro
fazendo piada com a perna
que pode ser amputada
louvando as próteses modernas
dizendo que morre antes disso
que não vai dar trabalho
que some de casa
vai pro asilo

Meu pai de novo ao volante
guiando o negro Landau

O velho e bom batmóvel
rodando sem freio ou cinto
o vento de Gotham no rosto
minha cabeça no banco de couro

Meu pai cantando alto
limpo e bonito como só ele
numa estrada clara
sem pedágio ou limite
de felicidade

Poesia brasileira contemporânea
Sobre o autor: Fabio Weintraub nasceu em 24 de agosto de 1967, em São Paulo/SP. Graduou-se pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), enveredando pela psicologia clínica de orientação psicanalítica. Após quase uma década trabalhando em consultório, passou a dedicar-se aos livros e à literatura, ganhando a vida como editor. É doutor em Letras pela USP, com tese sobre as representações do espaço urbano na poesia brasileira posterior à década de 1990. Nessa mesma instituição, realizou pesquisa de pós-doutorado sobre a prosa de ficção de Hilda Hilst, autora que de quem já havia sido editor, publicando suas crônicas, peças teatrais, livros de poemas e o último romance "Estar sendo. Ter sido". Como editor, além de Hilst, publicou livros de escritores como Carolina Maria de Jesus, Moacyr Scliar, Ana Maria Machado, Glauco Mattoso, Roberto Piva, Donizete Galvão, Ricardo Rizzo, Ruy Proença, Tarso de Melo e de autores estrangeiros como Blaise Cendrars, Luigi Amara, Carlo Frabetti, Shaun Tan, Alberto Pimenta e Angela Nanetti, entre outros. Sua poesia já circulou em antologias na Espanha, nos Estados Unidos e no México, e seus livros Baque e Novo endereço foram publicados no exterior, o primeiro em Portugal e no México, o segundo em Cuba.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Novo endereço de Fabio Weintraub

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