Antonio Carlos Secchin - Desmentir
Seja lidando com formas livres ou estruturas fixas clássicas como os sonetos, rigorosamente metrificados em versos decassílabos ou alexandrinos, a poesia de Antonio Carlos Secchin é inspiradora na sua metalinguagem bem-humorada e carregada de fina ironia, seguindo a melhor tradição de Vinícius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade. Mais do que uma mera demonstração de virtuosismo técnico, os poemas reunidos em Desmentir se equilibram entre a erudição e a liberdade criativa, a leveza e a reflexão, provando que não existe incompatibilidade entre o fazer poético tradicional e o contemporâneo.
Este seu mais recente lançamento é dividido em três partes: Desmentir, Dez sonetos malcriados e Abecebicho, cobrindo a diversidade de forma e conteúdo que caracteriza o estilo do poeta. "Lutar com palavras é a luta mais vã" já dizia Drummond, um pensamento que reside implícito na explicação de Antonio Carlos Secchin sobre o título desta obra: "Desmentir é uma palavra que desmente o próprio prefixo, pois nada garante que o desmentido seja portador da verdade; pode, ao contrário, representar uma nova mentira, simulando estabelecer a verdade. Assim vai a poesia, entre desdizeres e desmentires, sem porto seguro e navegando em neblina."
Brinde
Enchi de sol meu copo d’água
e me brindei ao som de um violino.
Me molhei na luz
que a tarde assoviava
e cantei à beira de um silêncio a pino.
Passei por perto de estar quase ali,
perdi o ponto de onde não parti.
Zombei da fome porque havia trigo,
briguei comigo
e só assim venci.
Levei na mala minha alma pássara,
anunciei ao mundo a minha sorte súbita:
tocar na vida sem qualquer trapaça,
mistério zero, delícia igual
ao gozo matinal de uma fruta.
Vida, te agradeço. Setenta anos
e ainda em recomeço.
Mineração
Escavo o papel,
Atrás de uma frase oculta.
Tento trazê-la à tona,
ela, porém, reluta.
Resiste a se entregar
nessa nossa disputa.
Depois de muito suor
consigo vencer a luta.
Arranco da folha o segredo
trancado em sua gruta.
Descubro então o conselho
destinado à minha escuta:
"Desista de aqui procurar
palavra fina ou bruta.
Nem tente escavar o papel,
não existe a frase oculta".
Além
O poema acaba aqui.
O que vem agora não é meu,
nem sei de quem seja.
Além de mim, com clareza,
a poesia passeia,
num rumor de bruma e incerteza.
Seu banquete começa
depois que eu já tirei a mesa.
Desligo o som do poema.
Ele insiste, à revelia.
O poema por fim
avança à sua origem:
lança na cara da luz
o pólen da letra.
E vai, num voo feliz,
se transformando
em aprendiz de borboleta.
Soneto mentiroso
Fala de poeta não merece crédito.
Ficar de fora é seu constante ofício.
Sua sina é continuar inédito,
mesmo que fale em meio de um comício.
Palavra de poeta pede médico
para tentar não acabar no hospício,
na busca de não ser enciclopédico,
nem vacilar no vão do precipício.
Pouca certeza é o máximo horizonte,
no prazer de mentir sobre a mentira,
e nada existe que ele não desmonte,
feito um farsante contra a própria lira.
Resta-lhe apenas com sinceridade
mentir, sobre o vazio da verdade.
Soneto da exclusão
Meu incerto leitor, eu agradeço
as horas que perdeu nesta leitura.
Lá fora a vida aflora em recomeço,
não precisa invadir minha clausura.
Empilhados na torre agora vejo
catorze decassílabos de altura.
Leve tudo o que dita o seu desejo,
e todo o resto é só literatura.
Dá tempo ainda para ir embora,
caso aceite botar ponto final.
Peço que saia sem maior demora,
ganhe em troca um silêncio glacial.
Não gostou nem da forma nem do tema?
Me deixa em paz, vai atrás de outro poema.
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