Priscila Faria - Nesse corpo de água doce
Os poemas de Priscila Faria neste livro de estreia demonstram coragem ao encontrar força e beleza no duro aprendizado de ser mulher em nosso país. Um exercício diário de resiliência para conseguir conviver com a violência de gênero que não respeita idade ou laços familiares e tantas vezes termina em feminicídio. É um tema difícil. Parece não caber em versos, e muitos preferem silenciar, mesmo quando a tragédia ocorre tão próxima de nossas casas. No entanto, é preciso resistir e para isso também serve o espaço da poesia: "aprendi a transitar pelos porões abertos / acender a luz / sacar a caneta // ainda tenho medo / mas aqui não"
Priscila transmite intensidade emocional ao descrever o universo feminino em transformação, utilizando a metáfora do corpo como água em movimento, oceano profundo ou rio caudaloso que transborda e ocupa cada vez mais espaços em um mundo, até então, feito pelos homens e somente para os homens: "meu corpo feito meu país / entre margens / meu peito feito uma mata / atravessada por um rio // meu sangue segue o leito / condutor de vida / água infinita / nesse corpo pélago que ainda ama / nesse corpo de água / doce".
Vale a pena conhecer e dar voz a esta poeta que reivindica autonomia profissional, afetiva e sexual ao exercer controle sobre o próprio corpo e a vida: "a falha de ser mulher nesse mundo / de homens / e de ser traumatizada nesse mundo / por homens / a gente que resolva / entre nós // mulher dá / muito trabalho"
eu quero a palavra com cheiro, a palavra com pelos
que veja a beleza desfocada
quero a palavra sem espelho, atemporal, vadia
que abrace a menina, penetre a mulher
quero a palavra perfurante
na garganta
a palavra que treme e vibra e contrai
a palavra da água da morte do medo do fim
eu quero a palavra engasgada
sem fôlego, sem batimentos, sem culpa
quero a palavra mapa, procura e dedos
a palavra sem ida e sem volta
que se contradiga
a palavra descrente da verdade do agora
eu quero uma palavra que é tudo
e que não sabe de nada
quero a palavra que reinvente a vida
materialidade fina e transcendente
do meu gozo, num único verbete
uma fogueira, um altar, a porta
do céu ou do inferno
eu quero a palavra muda
a palavra que desnude a poesia
eu quero o milagre do verso
porque meu sexo não sabe ser escrito
❖
nasceu numa cidade do interior
a mãe e o pai
de outros interiores mais interiores ainda
foram parar nessa cidade em que nasceu
e não teria feito diferença alguma se não fosse essa
nasceu mulher
nem mais nem menos que nenhuma outra
a mãe que também nasceu mulher
a criou como foi criada
o pai que nasceu homem
a criou como a mãe foi criada
criadas, ela e a mãe
assim como quase toda pessoa
que chega nesse mundo com uma vagina
homens chegam por ela e dela não querem sair
(mesmo se for de uma criança
mesmo se for de uma filha)
mulheres não sabem ao certo pra que serve
só sabem que têm que servir
(e servem até quando não sabem)
nasceu e logo recebeu o título
de difícil
nasceu rasgando tudo
nasceu sem querer nascer
nasceu sem querer servir
nasceu sabendo o quanto ia morrer
e morreu muitas vezes
chorava e se escondia com uma frequência
que ninguém entendia
criada como toda pessoa com vagina
não podia reclamar não podia gritar
toda vez que tentava era lembrada do que era
difícil
então se continha
só conseguiu gritar quando viu
saindo do seu interior rasgando tudo sem querer sair
uma menina
❖
ainda me visita nas madrugadas
como antes
nunca convidado
ossos e músculos contraídos
boca pele e olhos cerrados
não sou mais aquela menina
mas o pesadelo
me faz companhia
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