Carlos Mendes Valença - O que fomos
Em tempos de superexposição nas redes sociais e de acirrada disputa por espaços de divulgação editorial, chama atenção neste romance a opção por um pseudônimo literário e pela ausência completa de imagens do autor no ambiente virtual. Trata-se de uma estratégia inusitada, na contramão das práticas usuais de marketing, que busca preservar a identidade profissional do escritor como diplomata do Ministério das Relações Exteriores. Essa escolha evita que sua produção literária — marcada pelo tom satírico e pelas críticas institucionais, principalmente no romance de estreia, Contra Alheias Terras (Editora Mondrongo, 2023), semifinalista do Prêmio Jabuti de 2024 na categoria principal — comprometa de alguma forma a sua carreira diplomática.
Neste lançamento mais recente, um estranho romance de formação, se é que podemos chamá-lo assim, por falta de definição melhor, acompanhamos três personagens aos 15 e aos 30 anos, em capítulos alternados. Isabela, André e Diogo compartilham um passado singular, marcado pelo desaparecimento de Isabela na adolescência e os impactos dessa perda na vida adulta dos amigos. Liderados por ela, o grupo se reunia em uma casa abandonada para elaborar um plano de fuga inspirado em um mapa “que não abreviasse o mundo, mas o extrapolasse, que não simplesmente compilasse o conhecido, mas ousasse indicar o ignorado, um mapa que não apenas mostrasse os lugares, mas revelasse os caminhos”, na certeza de que assim seria possível enganar o destino.
"É difícil dizer ao certo, mas acho que não vou mentir. Os outros mentem. Usam frases grandiosas, obscuras. Brincam com suas esperançosas ignorâncias. São tantas mentiras, de tantas partes, por tão variados motivos, que não se pode confiar em ninguém hoje em dia, não obstante o quão próximo, o quanto você goste, o quanto você julgue que talvez você a conheça. Há os que mentem para te enganar. Há os que mentem para não admitir a verdade que sabem. E há os que mentem porque precisam enganar a si mesmos. Se eu fosse mais inteligente, eu saberia apontar quando estão mentindo e saberia discernir entre cada um desses casos. O mais importante, no entanto, é não acreditar nas pessoas. Elas são todas umas personagens. As coisas que elas falam, às vezes nem elas mesmas, são reais. Eu não. Eu não tenho por que mentir. Portanto, se eu nada respondo a César, quando ele me pergunta o que eu quero da vida, é porque não faço a menor ideia da resposta." (p. 9)
"Era o silêncio. Era o silêncio de Isabela sob a luz maleável daquelas manhãs mal chocadas, o que mais impressionava a André, enquanto os dois esperavam que o carro de Diego passasse para levá-los à escola. Esperavam lado a lado, sem quase se olharem, à maneira de estranhos num ponto de ônibus comungando da coincidência sem importância de estarem indo na mesma direção. André morava a poucos quarteirões dali e, nos dias de aula, andava até a casa de Isabela, parava diante dos altos portões enferrujados e se deixava ficar. Nunca tocava a campainha. Ela vivia numa rua minúscula, perfilada por casas silentes e sisudas com ares afetados de monastério, de janelas eternamente fechadas e sem mais vida perceptível que uns esparsos latidos de cães agoniados, os quais se podia intuir correndo de um lado para o outro pelas garagens desertas, arrastando atrás de si correntes indiferentes, ganindo ávidos pedidos de atenção para donos que pareciam ter partido em definitivo e os deixado sem remordimentos para trás. Umas árvores de troncos grossos e retorcidos esfarelavam as calçadas com a desordem desembestada das raízes e se alçavam até muito acima dos telhados, em copas de folhas amadurecidas que filtravam a luz, fazendo-as cair em colunas estáticas e resinosas que pareciam esperar, de um modo muito cerimonioso, que algo importante, tal como um silêncio, fosse exposto sob seu facho." (p. 18)
Uma obra sobre as nossas perdas e a passagem do tempo, além do desafio de lidar com o próprio destino, essa entidade misteriosa chamada de "Tempo" por André ou de "viagem" por Isabela, uma viagem sem retorno, como ela afirma para os amigos antes do desaparecimento: "uma viagem definitiva, pois depois dela não haveria como retornar, não haveria razão para retornar, não porque o destino estaria aqui à espreita, mas porque eu seria uma pessoa tão diferente que o ponto de partida me seria tão irreconhecível como o ponto de chegada me é agora [...]"
"Quanto a mim, vou me ocupar do Tempo, vou me dedicar a ele, para entendê-lo, para melhor frustrá-lo, pois já gastei tempo demais tentando esquecê-lo e de agora em diante quero gastar meu tempo tentando conquistá-lo. Aprendi que é possível vencer o Tempo, tirar coisas dele e não ser somente por ele roubado. Isabela e Simone me mostraram. Eu também, agora entendo, já o venci um dia, e é por essa razão que ele me vigia tão de perto, cabreiro, temeroso, lesado. Espalhadas na minha sala, na minha vida, vejo as pegadas do Tempo, suas patas grandes e desastradas de dragão desleixado. Não voltarei a estar desatento, e seu trabalho não será tão fácil. Retiro da parede o desenho de Bernardo, e trocamos um aceno de comparsas mal-intencionados, ele orgulhoso de mim, e eu o dobro, guardando-o na carteira, amuleto talismã, feito uma figa mais benzida de papel. Se um dia já venci o Tempo, é possível vencê-lo de novo. Quando o fiz, eu não sei. Eu poderia, eu penso, esquadrinhar o passado para definir em que momento, em que sítio, de que modo. Não vou, no entanto, ceder a essa tentação, pois essa é mais uma das armadilhas do Tempo, que, inelutavelmente, passa, fazendo com que sintamos uma necessidade compelida de buscá-lo, tentando regressar aos lugares que habitamos, tentando reaver o que, quiçá, jamais tivemos, tentando reencontrar o que julgamos que um dia nós fomos. Sempre em vão. Pois o passado, o presente e o futuro, embora componentes de um mesmo fluxo, são rios que correm num mesmo leito, entrecruzados entretecidos, mas sem nunca se tocar." (p. 243)
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