Godofredo de Oliveira Neto - A ficcionista

Literatura brasileira contemporânea
Godofredo de Oliveira Neto - A ficcionista - Editora Batel - 156 Páginas - Capa: Julio Lapenne - Imagem de capa: Hieronymus Bosch - O jardim das delícias terrenas - Lançamento: 2025.

Neste engenhoso romance de Godofredo de Oliveira Neto, publicado originalmente em 2013 pela Editora Ímã e relançado em 2025 pela Editora Batel, escritor, personagem e narradora se confundem na condução da trama. A protagonista, Nikki, vive em um posto de gasolina abandonado nas imediações do Parque Nacional de Aparados da Serra, na divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. É ali que ela recebe a visita de um escritor, não nomeado, em busca de uma boa história, disposto a pagar por seus depoimentos em uma série de gravações. O resultado é um jogo narrativo em que os limites entre imaginação e realidade se desfazem, dando lugar a um emaranhado de situações absurdas e figuras bizarras.

Nikki carrega uma solidão marcada pela inadequação ao mundo e pela recusa às exigências de uma sociedade com a qual não se reconhece. Ela própria teria sido autora de um livro publicado nos Estados Unidos sob pseudônimo — se é que podemos acreditar. Formada muito cedo como técnica em mecânica e informática, mergulhou depois no vício em drogas e passou a praticar assaltos, ou “expropriações”, como prefere chamar, distribuindo os bens roubados à população. Essas ações a levaram a formar um grupo que vivencia uma série de situações violentas na marginalidade, até culminarem em um episódio decisivo, revelado gradualmente ao longo do romance, nos despenhadeiros de Aparados da Serra. 

"É verdade verdadeira. Nasci em Joinville, meus pais tinham se mudado para lá, meu pai foi trabalhar numa fábrica de compressores, era torneiro mecânico, mas gostava mesmo era de trabalhar com madeira. Moramos em Joinville só um ano. Minha vida é um romance mesmo. No começo, era toda certinha, terminei o Ensino Médio numa escola de São Bernardo do Campo, como você mais ou menos já deve saber. Depois fiz o Cefet de Moji das Cruzes, como também já te disse, área de mecânica e informática. Éramos três gurias na sala, a Nane, a Filó e eu. Foi a Nane quem me apresentou o Mário Sérgio, que acabou na Penitenciária de Florianópolis. / Eu sei, Nikki, estive com Mário Sérgio lá pessoalmente há um mês mais ou menos. Às vésperas da sua liberdade, levei um saco de padaria com dois mil reais. Graças a isso, ele deu o teu nome e paradeiro. Um conhecido do Mário Sérgio falou sobre a tua história para um escritor assassinado depois num assalto a um restaurante em Moema, em São Paulo. O escritor fez referência a uma garota de nome Nikki. Cochichou, meio bêbado num lançamento literário no Morumbi: a história pode salvar qualquer autor sem enredo pra contar, um tal de Mário Sérgio, preso em Florianópolis, pode dar paradeiro e identidade da escritora em potencial." (p. 38) - Trecho da Gravação 3

A escolha da imagem da capa, uma reprodução do painel esquerdo, Jardim do Éden parte do tríptico O jardim das delícias terrenas de Hieronymus Bosch (1450-1516), foi muito feliz porque sugere ao leitor uma atmosfera singular onde realidade e sonho se entrelaçam, tão típica do pintor. A estratégia de estruturar o romance com base nas gravações mostra-se igualmente eficiente, ao conferir uma aura de testemunho e confissão, sem contudo oferecer qualquer garantia de veracidade. Dessa forma, o leitor é constantemente colocado diante de relatos que oscilam entre memória, delírio e invenção, o que reforça a ideia de que a ficção é sempre um espaço onde não há certezas.

"Na primeira vez, assaltamos um supermercado em Concórdia. A estratégia consistia em mudar constantemente de cidade. Essa regra era sagrada. Voltamos para o acampamento com as mochilas arquicheias. Depois uma farmácia, na semana seguinte um desses restaurantes tipo fast-food. Só na mochila de um dos meus escudeiros, o Ademir, trouxemos cento e cinquenta cheeseburgeres. Uma outra vez em Joaçaba, pegamos cerca de cinquenta laptops em uma loja de uma cadeia paulista de eletrodoméstico. Foi nessa vez aí que o Bruno se excedeu, ele ainda não estava bem preparado para a nossa filosofia de vida, a de distribuir bens à população. / Mas não deu polícia? Como é que vocês conseguiam fugir depois dos assaltos? Parece fácil demais. / A gente atacava por bando de dez mais ou menos, e ia para o mato depois da expropriação (era assim que chamávamos), fazia tipo acampamento móvel. A polícia não entra no mato, não está preparada para isso. Soubemos, uma ocasião, que chamaram um destacamento de Curitiba especializado em combate na floresta. Contaram para nós depois que a tropa fazia papel ridículo, soldados caíam em buracos, dois pegaram malária, um foi mordido de cobra. Três dias depois, o batalhão inteiro foi para um quartel em Xanxerê, todos com diarreia. Especializado em luta na floresta nada." (p. 62) - Trecho da Gravação 5

O romance de Godofredo de Oliveira Neto nos leva a uma reflexão sobre o ato de narrar e o papel transformador da ficção, que desafia o leitor a desconfiar de tudo o que lê e reinventar o real. Na verdade, Nikki, a ficcionista, com sua vida marcada pela marginalidade e pela solidão, torna-se espelho de uma escrita que resiste à margem, em confronto com o mundo. Afinal, como o escritor bem define para a sua protagonista e narradora em uma das passagens finais do livro: "Literatura é arte, Nikki. Não é imitação ou descrição do real. E é herança cultural." Pois que assim seja!

"É que quando olho no espelho vejo um rosto peludo como um bicho. Essa visão horripilante me faz correr de mim toda hora. Sei que drogado pesado em abstinência tem alucinações desse tipo, como o alcoólatra na mesma situação também vê baratas correndo pelas paredes. Posso ficar horas e horas sentada e ter a sensação de ter corrido centenas e centenas de quilômetros fugindo de alguma coisa. Já tinham me provado que o meu rosto é normal. Um conhecido, frentista do posto de gasolina situado na entrada de Chapecó, veio aqui um dia com uma máquina fotográfica dessas super modernas, metade filmadora. O visor atrás era enorme, tirou várias fotos e me mostrava no visor. Tá vendo você ali linda e maravilhosa? Onde está o bicho que você diz aparecer, onde? Ele perguntava aos risos." (pp. 138-9) - Trecho da Gravação 10

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autorGodofredo de Oliveira Neto é romancista premiado, contista e cronista. Seus livros, entre os vários gêneros, foram traduzidos para o francês, inglês, italiano, espanhol, búlgaro e vietnamita. É professor titular de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ocupa a cadeira 35 da Academia Brasileira de Letras desde setembro de 2022. Leia também no Mundo de K a resenha de Marcelino, romance histórico ambientado em 1942, do autor.

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