Godofredo de Oliveira Neto - Marcelino

Literatura brasileira contemporânea
Godofredo de Oliveira Neto - Marcelino - Editora Ímã - 260 Páginas - Lançamento: 2019

Marcelino é um romance histórico ambientado em 1942 durante o último período do governo de Getúlio Vargas que se convencionou chamar de Estado Novo, no momento em que o Brasil rompia as relações diplomáticas com a Alemanha, o Japão e a Itália, devido aos ataques a navios mercantes brasileiros por submarinos alemães, ações que acabaram definindo a posição política de Vargas, até então neutra ou ambígua em relação ao alinhamento com os países aliados contra o avanço nazifascista europeu na Segunda Grande Guerra.

O jovem protagonista, Marcelino Alves Nanmbrá dos Santos, é um solitário pescador de Praia do Nego Forro em Florianópolis, um símbolo da fragmentação da identidade nacional, resultante da miscigenação de índios com negros africanos, ele representa a ingenuidade nacional da época, um país não industrializado e com a maioria da população analfabeta. Marcelino é lembrado pela professora da escola primária local, Dona Edneia que, entre conversas sobre greves no porto de Itajaí, submarinos que ameaçavam barcos brasileiros, racionamento de gasolina e escassez de alguns gêneros alimentícios, relembra do ex-aluno, na sua opinião um Cruz e Souza dos mares:
"[...] – Me lembro sempre do Marcelino. Ele foi até o terceiro ano, se a avó não tivesse morrido conseguia acabar pelo menos o curso preliminar, um dos melhores alunos, asseado e aplicado, muito inteligente, de temperamento diamantino. O avô foi escravo e depois trabalhou para o coronel Laurindo, o dono do clube açoriano inteiro, ali da Trindade, o avô veio lá das bandas de Hamônia. A avó, dona Chiquinha, era meio índia daquele fim de mundo ainda mais pra cima, lá pro alto da serra. Vieram para cá fugidos do posto dos índios. Marcelino não conheceu nem pai nem mãe, pai conhecido não tinha mesmo, a mãe morreu parindo, a certidão de nescimento dele está errada, ele é um ano mais velho do que consta no papel. Naquela época a dona Chiquinha era muito pobre, a chupeta dele era um nó de pano com açucar, eu mesma vi, nem sei como ele conseguiu manter essa dentição tão perfeita, aúcar dá cárie, eu li no boletim do Ministério que chega à escola. A vida dele é a vida de muita gente neste país. Ele é um Cruz e Souza dos mares. [...]" (pp. 17 e 18)
A vida na pacata região de Nego Forro está prestes a mudar quando o senador Nazareno di Montibello, assessor especial de Getúlio Vargas, vem do Rio de Janeiro para passar as férias com a família em sua casa de praia, chamada de Villa Faial. Esta já é uma tradição de muitos anos. Marcelino que ainda vai completar 18 anos e é inexperiente em matéria de sexo, tem a sua atenção despertada por Sibila filha do senador que tem a mesma idade, mas finalmente será seduzido pela misteriosa Eve, a governanta polonesa que cuida dos filhos do senador. 
"O rapaz concordou. A preceptora, quando já entravam nos jardins da Villa Faial, puxava-o pela mão. Coexistiam no rosto de Eve um sorriso congelado e um cerrar de sobrancelhas, seu coração acelerava. Queria mostrar ao pescador os aposentos do segundo andar. Os lábios de Eve pareciam esbranquiçados, trêmulos e secos, a língua tentava sem parar umedecê-los, seu baixo-ventre apertava, ela sentia uma pequena cólica, como se fossem se iniciar aquelas dores rubras e viscosas. Algo corria por dentro qual uma cobrinha, mistura de prazer e de dor. A cobrinha subia e descia. Quando subia provocava enjoo, descia vinha a pequena cócega melada, subia enjoo. Lá no alto, o coração ia sair pela boca afora, ia ser vomitado. A cobrinha descia novamente e, lá embaixo, pequeno aperto gostoso de novo. E ainda estavam na metade da escada que levava ao segundo andar da casa, onde se espalhavam os sete quartos, inclusive o de Eve. A escada também parecia imensa para Marcelino, longa, de tirar o fôlego. Mas prazerosa." (p. 130)
Na segunda parte do romance, após um acidante, Marcelino é convidado a passar um período no Rio de Janeiro, Distrito Federal do país na época, cuidando dos pássaros do senador. Nesta nova cidade, surpreendente para o jovem pescador, ele sente a falta da sua liberdade e não consegue perceber que está sendo manipulado em uma conspiração política que pretende utilizar agentes que sejam representantes da raça brasileira.

O livro tem como base uma linguagem refinada e também uma detalhada pesquisa de época, revisitando um Brasil que, em alguns aspectos, não é tão diferente do país em que vivemos hoje, no sentido de que continuamos distantes de realizar o sonho de uma sociedade sem diferenças, como nos mostra a alegoria da perda da inocência original de Marcelino, que não consegue evitar ser corrompido por um sistema que não entende.

Sobre o autor: Godofredo de Oliveira Neto é Professor do Departamento de Línguas vernáculas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, graduou-se em Relações Internacionais pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais da Universidade de Paris II (França) e em Letras pela Universidade de Paris III (França), onde também realizou seu mestrado em Letras. Possui o título de Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Marcelino, publicado pela Ímã Editorial (2019), é a versão definitiva do romance que o autor vem escrevendo há 20 anos, desde a primeira edição pela editora Nova Fronteira (2000), passando pela segunda, da Imago (2008). Nesse percurso, o livro foi semifinalista dos prêmios Portugal Telecom (atual Oceanos) e Zafffari-Bourbon.

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