Rosana Piccolo - Alla Prima

Poesia brasileira contemporânea
Rosana Piccolo - Alla Prima - Editora Patuá - 140 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: 2019.

O título da antologia de poemas de Rosana Piccolo, Alla Prima, é uma expressão italiana que significa de primeira, utilizada para nomear uma técnica de pintura, originalmente a óleo e praticada a partir do século XVII, na qual a tinta é aplicada diretamente na base escolhida, sem estudos preparatórios, e o resultado final é atingido após essa única aplicação do pigmento, sem qualquer correção ou retoque. 

No entanto, pode haver uma certa dose de ironia no título pois, embora a estrutura de versos livres e a multiplicidade temática do livro possam induzir a ideia de que os poemas foram gerados de primeira, ou sem retoques, este não me parece ter sido o caso, muito pelo contrário, cada verso demonstra ter sido resultante de um intenso processo de pesquisa. Importante pontuar também que Alla Prima agrega poemas de livros anteriores, alguns revistos e modificados, escritos ao longo de 20 anos, assim como outros inéditos.

A poesia de Rosana é essencialmente urbana e utiliza elementos da arquitetura e da vida nas grandes cidades em um clima de surrealismo: "[...] nada notam os carros / surdos ou habituados / pela avenida capazes de tudo / carros e motocicletas" em Avenida Rebouças (p. 87) ou "a escavadeira / desce o pescoço / ao chão da obra futura [...]" em Diariamente (p. 77). Este é o cenário nem sempre feliz dos poemas que podem ser inspirados em um engarrafamento, "corredeira de embreagens", nas marginais com cheiro de morte ou em uma delicada cerimônia do chá que remete a um quimono com estampa tão perfeita "que a natureza não soube imitar".

De fato, como bem destacado na apresentação do escritor e professor de literatura da Universidade Estadual de Goiás, Alexandre Bonafim, "[...] A voz poética de Rosana é uma voz rebelde, inquieta, reflexiva e crítica. Ela parece não se acomodar ao próprio corpo da linguagem, à fluidez pacífica da fala corrente. Ela deseja saltar, obliterar, tencionar ao máximo a escritura, levando-nos a permanentes choques sintáticos, a atritos lexicais, a curtos-circuitos vocabulares capazes de deixar o leitor em permanente estado de assombro." Vale a pena conhecer e reconhecer um pouco do nosso absurdo e nada planejado cotidiano em Alla Prima.

TORTUOSA

Nunca fui planejada. Partilho esquinas com rampas

inclementes. Que se pergunte ao forasteiro – rosto
desfigurado pelo frio e o pavor de meus silêncios.
Bom caminho não sou. Em passos infinitos,
levo a becos homicidas.
Sempre esqueço os canteiros, embora pontuem-me
e esparsos, confundindo pétalas e bocas. Assim como
a praça, e os anjos dançantes na catedral, e as folhas
que o vento revolve no outono.
Quando vem a noite, e balbuciam as luzes, quando
sou semáforo e lufadas de garoa, sublinho meu aclive
– e mudo de nome, viro avenida.

7239 – LARGO DE PINHEIROS

A manhã seguinte, demasiado clara, fazia lembrar,
éramos gente simples. As marginais,
dilúvio de paciência e retrovisores, odor de abatedouro
e jornal vencido. O cheiro da morte vingava,
vingava no ar.
Verde ou vermelha a camisa de Orlando.
Do que teria sido o próprio Orlando, em fúria castanha,
o cabelo. Dos olhos não me lembro.
Nada que remetesse a violetas encharcadas
– mais bonito o meu amigo. E muito mais amado
do que teria sido o próprio Orlando.
A manhã seguinte, cinérea, derrubando pilha
de classificados. Verde ou vermelha a camisa de
Orlando. As marginais, corredeiras de embreagens,
faziam lembrar, éramos gente humana _______________
Na bolsa arraigada – tralhas e balas, grampo melado.
Mas a pedra de jade pus em sua mão, fechei sob
a palma do destino, devo ter dito: vai, Orlando,
seja o rei de Londres! Porque ele foi, nunca mais vi.

CERIMÔNIA DO CHÁ


Em uma dessas vitrines, dubiamente iluminadas

pela hora mágica, pode ser visto o tatame.
O braseiro rivaliza o pôr do sol. Fumega o incenso,
fumega sem fim. A caligrafia da chuva já foi removida.
Rente à parede, nasce o ikebana da nova estação.

Possível ver convidados, três ou quatro.

E o gestual do anfitrião – lá fora assoviam sacis,
arrepio no crânio das cerejeiras. O vaso, a cumbuca,
utensílios de nome poético foram retirados do recinto,
de entrada tão pequena que o samurai aí se agacha,
espadas do lado de fora.

O chá é vulcão adormecido: por um tremor derrama

o perigo, e queima, e dói, não é? Há também a estampa
dos quimonos, cuja flor é tão perfeita que a natureza
não soube imitar.

ÍTACA


e voltamos para casa


céu abarrotado

de cetáceos debulha
a chuva da semana útil

mar de guelras ardentes

cardume de ruas e avenidas brutas

a tarde exige naufrágio


aço é o rochedo

sereias cantam na poça d'água

Sobre a autora: Publicitária e poeta paulistana, atualmente em Curitiba. Autora dos livros Ruelas profanas (Nankin, 1999), Meio-fio (Iluminuras, 2003), Sopro de vitrines (Alameda, 2010), Refrão da fuligem (Patuá, 2013), Bocas de lobo (Patuá, 2015), além da plaquete O pão (Lumme, 2017), Alla Prima (Patuá, 2019). Organizadora da antologia MedioCridade (Laranja Original), ao lado do poeta Rubens Jardim. Participação em diversas antologias e revistas de literatura do Brasil, Portugal, Espanha e Moçambique. 

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