Sandra Godinho - O Verso do Reverso

Literatura brasileira contemporânea
Sandra Godinho - O Verso do Reverso - Editora Penalux - 228 Páginas - Projeto gráfico de Cintia Belloc - Lançamento: 2019.

É uma característica essencial da natureza humana a capacidade de resistir aos reveses da vida e a literatura, como bem sabemos, é uma das mais belas formas de resistência, principalmente quando consegue transformar a injustiça em esperança, o desconforto em mudança e a dor em arte. A força de cada um dos contos desta antologia, Prêmio Cidade de Manaus de 2019, reside na coragem de Sandra Godinho em olhar de frente alguns temas que a sociedade tem preferido ignorar, promovendo uma espécie de antídoto contra a insensibilidade.

As narrativas utilizam técnicas próprias de acordo com o tema que será desenvolvido, tornando a leitura sempre dinâmica e de interesse renovado. Na abertura de cada história, a autora apresenta um interessante recurso como epígrafe, a inserção de um pequeno poema que já coloca o leitor no clima. Por exemplo, no conto de abertura do livro, "Quando escapou..." (ler um trecho abaixo), que trata do abandono e solidão da velhice, os seguintes versos já anunciam: "Se for para partir / Que seja de mansinho / No tempo certo da despedida / Se tornar saudade."
"Quando lhe escapou as lágrimas ficou mais leve. Ele sentiu de imediato a leveza no corpo frágil de inconfessáveis segredos. Fugiram-lhe à face, simplesmente, cansadas de rolar por bochechas que se negavam a sorrir, fugiram-lhe à causa de uma maturidade cansada que deixava sulcos profundos no rosto, traços marcantes de um mapa que somente ele decifrava devido aos anos de vivência. Secaram, desapegadas de posse, descuidadas de afeto. A tristeza quando é demais, reivindica a insensibilidade como couraça, um truque usado por muitos para continuar vivendo além das perdas que sempre são demasiadas num vellho de 85 anos. [...]" - Quando escapou... (p. 9)
Sandra Godinho consegue criar o verso do reverso, trazendo para a sua ficção alguns tristes eventos que logo reconhecemos do recente noticiário nacional como a tragédia do rompimento da barragem em Mariana e outros dramas recorrentes e anônimos que são resultados da injustiça social em nosso país, como a violência doméstica contra a mulher, preconceito racial, desigualdade econômica e tantas outras feridas que precisam ser curadas para resgatarmos a nossa dignidade humana. "Se for para partir / Que as rimas sejam de sangue, / Que as rimas sejam de vozes, / Que as rimas não adormeçam / As lágrimas que rolam."
"Murilo parecia fantasma em camuflagem. Camiseta puída de algodão, cabelos enrolados e a boca sedenta de alacazans, dissolvido no meio da multidão que sempre passava por ele com pressa. Dizia que um dia ia ser mágico. Da sua boca, saía um arco-íris que o fazia rir de orelha a orelha. Da sua cabeça amarfanhada, pardais se juntavam dando ideias para novos truques, emprestando asas à sua imaginação. Das suas mãos, fazia levitar limões, que nunca foram azedos, mas doces feito mel. Ele retirava da manga cartas. E dos bolsos, lenços que lembravam lençóis de tão imensos. Um dia, assim ao longe, tive a impressão de tê-lo visto enxugar uma lágrima, mas pode ter sido apenas impressão. Às vezes, ele nos enganava, trajando um pequeno paletó que o tornava semelhante a um adulto em miniatura. Era assim que o tratávamos, como um pequeno adulto."  - A Metamorfose de Murilo, o Mágico (pp. 55 e 56)
O cenário nem sempre se restringe às grandes cidades, mas também localiza as histórias no interior, de onde o homem muitas vezes precisa fugir como bicho para sobreviver, como no conto "A Caçada", um dos mais fortes e bonitos do livro: "Na gastura da noite, se embolando na rede, esperaram o dia raiar no horizonte, o sol apontar no céu. Pegaram o de mais necessidade, farinha no saco, menino no braço, canoa na água para fugir da desgraça. Rumaram pra cidade, secar a precisão que apertava no bucho roncador." Prosa e poesia se misturam em harmonia no texto: "Se for para partir, Que as mãos sejam fortes, / Que os pés sejam firmes, / Que as pernas não esmoreçam, / Que as linhas não se tornem rendado, / De cicatrizes profundas."
"Tempo fechando. Sol sem rasgar nuvem, chuva branca arriando no céu. Diacho de inverno trazendo desgraça, dificultando peixe. Família minguando de bucho vazio, só na farinha com água. As águas invadindo as terras, os bichos fugindo pros igapós, os peixes sem morder anzol. Ariscos, homens e animais na terra desconforme. Mais um avanço do chuveiro e a mata se afoga nas águas. Nem a maromba aguenta, matando boi, vaca, boiada inteira. O cachorro pirento já é um quase nada. Nem dá mais sinal de onça, anta ou calango. Só no morre-não-morre. Canarana alta triscando a canela, dificultando passo." - A Caçada (p. 69)
Sobre a autora: Sandra Godinho, nascida a 27/07/1960 em São Paulo, é graduada e Mestre em Letras. Já participou de várias coletâneas de contos, sendo agraciada com alguns prêmios como o primeiro lugar no prêmio VIP de literatura de 2018 de A. R. Publisher Editora com o conto "Jogo de Damas" e o segundo lugar no Concurso Literário Internacional Palavradeiros 2018 com "O massacre". Publicou O Poder da Fé (2016), Olho a Olho com a Medusa (2017), Orelha Lavada, Infância Roubada, que foi o único livro de contos finalista na Maratona Literária (2018) do Carreira Literária, agraciado com Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas (2019) e semifinalista do Prêmio Guarulhos de Literatura (Escritor do ano 2019), O Verso do Reverso ganhou o Prêmio de Melhor Conto Regional da Cidade de Manaus 2019; Segredos e Mentiras (inédito) foi finalista no Prêmio Uirapuru 2019; Terra da Promissão foi publicado (2019) e As Três Faces da Sombra foi o romance ganhador do concurso da Editora Fora da Caixa (2019).

Comentários

Sandra Godinho disse…
Grata pela leitura minuciosa e a bela resenha, querida Alexandre. Que os reveses da vida nos vistam de resistência sempre e que a literatura crie empatia e engajamento sempre. Um beijo
Alexandre Kovacs disse…
Oi Sandra, obrigado pela visita e comentário e parabéns pelo livro!
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