Mário Araújo - Breu

Literatura brasileira contemporânea
Mário Araújo - Breu - Editora Faria e Silva - 248 Páginas - Projeto gráfico e Diagramação: Estúdio Castellani - Capa: Tom Catan - Lançamento: 2020.

Mário Araújo conduz o seu romance de estreia com muita segurança ao utilizar diferentes vozes narrativas – todas de mulheres – para contar a trajetória de quatro gerações de uma mesma família ao longo de quarenta e cinco anos, iniciando em Porto Alegre e Santa Catarina até se estabelecer em Curitiba. O exercício de polifonia adiciona camadas com novos pontos de vista para os mesmos eventos que se tornam mais claros no decorrer da leitura. As protagonistas, inspiradas em pessoas simples de uma classe média baixa, procuram vencer as dificuldades e superar as tragédias que a vida lhes impõe, nem sempre com sentimentos nobres.

Não há como pensar em famílias infelizes e não lembrar da frase inicial do romance Anna Kariênina de Tolstói: "Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira." E, realmente, a infelicidade dessa família é muito peculiar porque os traumas são provocados muitas vezes em nome do amor e da proteção entre seus membros, mas, no final, consegue-se o efeito contrário, por meio de atos mesquinhos que não conseguem esconder o egoísmo dissimulado.

Na primeira parte, o autor apresenta quatro histórias independentes, iniciando com Úrsula em 1963, então uma menina de doze anos de idade, que é ridicularizada pelas primas por comparecer no casamento da prima com um vestido reformado de quatro anos antes. A segunda narrativa apresenta Edna que dá à luz uma filha, Aline, ainda morando com o marido na casa dos pais. A terceira, mostra um dia na vida de Olívia, fila de Aline, já em 2006, uma adolescente cheia de vida. Na quarta, encontramos Aline em 2007 cuidando da avó Inácia no hospital, um relacionamento que não conseguimos identificar se é baseado no amor ou no ódio.

"O estômago voltara a se manifestar na forma de uma azia aguda, uma labareda que avançava até a garganta e recuava, como uma maré de fogo. Às vezes ela pensava que seu estômago era como certas pessoas que quando estão ociosas só fazem besteira. Por isso, tinha que mantê-lo ocupado com qualquer migalha que fosse. Levantou-se e vasculhou a gaveta do criado-mudo atrás de uma bala de hortelã. Em seguida, girou o botão da TV para um lado e para o outro até encontrar um filme de terror, do jeito que ela gostava e a avó não. Uma jovem mulher andava entre os jazigos de um cemitério, atravessando jatos de neblina e vento que faziam esvoaçar suas vestes e cabelos. Morta de medo. Almas penadas poderiam surgir a qualquer momento. Aline não acreditava em almas do outro mundo, apesar de adorar os filmes. Neles, o medo vinha sempre da possibilidade de contato entre os que estão do lado de cá e os que estão do lado de lá. Mas o que ela mais temia era que não houvesse ninguém do lado de lá. Nem ela mesma. Aline assistiu ao filme até o fim, de pé, com o nariz colado à tela e o som no volume mínimo – assim não incomodaria a avó. Depois voltou à poltrona, orgulhosa por não sentir medo, aninhou-se nas cobertas e dormiu." - Trecho de Aline, Inácia (p. 104)

Já na segunda parte do romance, as histórias começam a se interligar, no capítulo de abertura Úrsula, com trinta e oito anos em 1988, faz uma visita juntamente com a mãe, Marli, à tia Inácia. Uma cena muito bem construída da mais pura dramaturgia em que as mulheres conversam na cozinha sobre outros membros da família. Na narrativa seguinte, decobrimos que Edna, filha de Inácia, decidiu fugir da visita (ela detesta Úrsula) e leva toda a tarde e início da noite passeando por Curitiba em um ônibus circular. É o momento em que o privilegiado leitor pode conhecer de perto os pensamentos e reflexões da protagonista e conhecer outras verdades de uma mesma história.

"Edna detestava ser chamada de Dininha. Um diminutivo idiota que jamais fizera parte da sua vida, e que fazia ainda menos sentido agora que ela beirava os quarenta e cinco anos. O fato de a tia tê-la batizado não lhe dava o direito de chamá-la assim. Muito pelo contrário, a tia deveria ser a guardiã do seu verdadeiro nome. Mas aquela gente adorava inventar moda, alteravam os nomes dos outros para criar intimidades que não existiam. Gostavam de aparecer de surpresa no meio da tarde, em horário sempre muito posterior ao combinado. Isso se não atrasavam mais de vinte e quatro horas, chegando só no dia seguinte, quando a visita já tinha sido dada por cancelada. Em 1988, a mãe de Edna ainda se relacionava timidamente com o telefone – embora possuíssem o aparelho havia quase cinco anos, comprado com o dinheiro recebido após a morte de Nelson –, de tal modo que, mesmo depois de passar horas à espera, ela preferia sofrer imaginando o que poderia ter acontecido em vez de simplesmente tirar o fone do gancho e perguntar à irmã o motivo pelo qual não viera na hora marcada. Seria muito azar se acontecesse desta vez: passar a tarde fora de casa para escapar de visitas que só chegariam no dia seguinte. [...]" - Trecho de O Passeio (p. 135)

Cada vez o leitor vai entendendo melhor como a estrutura dessa família está corroída pela dor causada por um passado de perdas e decadência. Todo o romance é muito bem escrito, com personagens convincentes e muita sensibilidade do autor em reproduzir na sua ficção essas relações tóxicas que conseguimos identificar em alguns momentos da nossa própria vivência, mas o capítulo final, Monólogos, é simplesmente magistral, encerrando o romance com dois fluxos de consciência em sequência, primeiro de Inácia, matriarca que vive seus últimos dias na casa da irmã Marli e de sua sobrinha Úrsula que manipulou toda a situação para cuidar da tia doente, unicamente em nome da sua vaidade. O livro está entre os melhores que li este ano, muito recomendado.

"Fazia sete meses que Úrsula dedicava a Inácia boa parte de seu tempo livre. Com os filhos já crescidos e o marido aposentado e entediado, ela se dividia entre os dois netos, a mãe idosa, os bolos que preparava e a tia, que convencera a sair do hospital diretamente para a casa da irmã. Antes disso, ela já devotava enorme atenção a Inácia e aos tios que viviam em Santa Catarina. Preocupava-se com o bem-estar deles e se afligia com seu envelhecimento, a marcha veloz e inexorável para a morte. A exceção era o pai. Por ele Úrsula não perdia o sono, e ainda se exasperava com o barulho ensurdecedor da TV que vinha do cômodo onde ele passava seus dias. Ninguém entrava lá, a não ser Cibele. Era ela que apertava o play logo cedo, ao levar o café com bolachas Maria que ele pedia para tomar na cama. O aparelho funcionava até altas horas da noite, quando era desativadopor um certeiro golpe de bengala." - Trecho de O Pedido (p. 199)

Sobre o autor: Mário Araújo nasceu em Curitiba, é escritor e diplomata em serviço atualmente em Xangai, China. Publicou os livros de contos A Hora Extrema (7Letras), ganhador do Prêmio Jabuti 2006 e Restos (Bertrand Brasil), elogiado por Millôr Fernandes, Luiz Ruffato e Cristovão Tezza. Alguns de seus contos foram selecionados para antologias publicadas no Brasil, Alemanha, Espanha, Finlândia e México. Entre 2014 e 2017 foi cronista da editoria Vida Breve, do Jornal Rascunho.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Breu de Mário Araújo

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