Patti Smith - Pão dos anjos

Literatura norte-americana
Patti Smith - Pão dos anjos: A história da minha vida - Editora Companhia das Letras - 272 Páginas - Tradução: Camila von Holdefer - Capa: Barbara Thoben, Colônia - Foto de capa: Lynn Goldsmith - Lançamento no Brasil: 2026.

Diferente das duas autobiografias anteriores de Patti Smith — Só Garotos, vencedor do National Book Award em 2010, que acompanha sua trajetória desde a chegada a Nova York, no verão de 1967, até o lançamento do álbum de estreia Horses, em 1975; e Linha M, marcado por reflexões íntimas sobre o passado recente e a relação com a família e com o marido, o guitarrista Fred "Sonic" Smith, falecido em 1994 — Pão dos Anjos revela uma dimensão mais pessoal. O livro percorre sua infância e atravessa todas as fases da vida de uma das artistas mais influentes do mundo ocidental, que soube lidar com múltiplas formas de expressão: música, artes plásticas e poesia, não necessariamente nesta ordem.

Os primeiros anos, apesar da narrativa um tanto o quanto romantizada, foram profundamente marcados pela pobreza e doença. O pai, um veterano da Segunda Guerra Mundial, volta traumatizado e debilitado pela malária contraída na Nova Guiné e nas Filipinas, sustentando a família com trabalhos em fábricas e mudando-se repetidas vezes até fixar-se em um modesto condomínio na zona rural do sul de Nova Jersey. As condições precárias de muitas dessas moradias, algumas condenadas e infestadas de ratos, favoreceram o surgimento de diversas enfermidades entre as crianças, atingindo especialmente a pequena Patti, que cedo se revelou uma sobrevivente ao enfrentar tuberculose, escarlatina e gripe asiática durante a infância.

"A primeira sensação de que me lembro é de movimento, meu braço balançando para a frente e para trás, um pequeno esforço que resulta na queda do Pernalonga da minha cadeirinha alta. Meu parceiro silencioso, apoiado ali diante de mim, grande como a vida, desapareceu feito um navio viking despencando da borda do mundo. Tudo não passa de um borrão que está muito além do meu alcance; a consequência primitiva de uma ação. Lembro de ser abraçada pelo meu pai, e de como era diferente de ser abraçada pela minha mãe. Ele era calmo; eu buscava seu ombro reconfortante. Gravitava em torno dele, embora fosse minha mãe que estivesse sempre presente, sempre dominante. Ainda não tinha um ano quando dei meus primeiros passos vacilantes pelo chão da cozinha, e depois continuei seguindo em frente. Minha mãe era constantemente desafiada pela primeira filha curiosa e irrequieta, que não conseguia deixar de explorar, de se soltar de suas garras, de se libertar no parque, desaparecer nas lojas de departamentos e rejeitar seu afeto." (p. 13) Trecho do capítulo A idade da razão

Na adolescência, Patti descobre a arte em uma visita com o pai ao Museu de Arte da Filadélfia, onde se depara com obras de Modigliani e Picasso. Na literatura, apaixona-se pelos simbolistas franceses Paul Verlaine e Arthur Rimbaud, cujas influências a acompanhariam por toda a vida. Aos 19 anos, anuncia a gravidez e entrega o filho para adoção, decisão que antecede sua partida para Nova York, onde viveria uma incomum história de amor platônico com o fotógrafo Robert Mapplethorpe e se aproximaria de figuras centrais da geração beat, como Allen Ginsberg e William Burroughs. Nesse período, é também profundamente influenciada pela obra de Bob Dylan, precursor da fusão entre música popular e poesia, que se tornaria uma das características do seu próprio estilo.

"Em 26 de junho de 1975 tocamos na casa noturna The Bitter End, no Greenwich Village, nossa primeira apresentação com baterista, sinalizando que éramos de fato uma banda de rock. No momento em que pisei no palco, percebi que havia algo diferente, a atmosfera estava carregada de energia. A princípio atribuí aquilo ao nosso som mais encorpado, mas havia algo além acontecendo. Podia sentir no ar, como o excesso de umidade sobre pele; a eletricidade que se seguiu intensificou nossa performance já barulhenta. Depois do show, Bob Dylan entrou no nosso camarim. Ouvi aquela voz inconfundível gritar: Tem algum poeta aí? Tomada pela adrenalina, e inexplicavelmente combativa, deixei escapar: Eu odeio poesia. Considerando o quanto ele significava para mim, não sei por que disse aquilo, mas Bob apenas riu, e nada pareceu mais maravilhoso do que o ver sorrir. Sua presença causou um grande rebuliço, e algumas pessoas tiraram fotos. O fotógrafo Chuck Pulin perguntou se poderia fazer um retrato nosso juntos, do lado de fora, perto da entrada. Quando a imagem saiu na capa do The Village Voice dias depois, fiquei preocupada com o que Dylan poderia pensar. Mas pouco depois o encontrei na rua 4 Oeste, em frente a uma banca de revistas com uma pilha de exemplares do jornal. Ele me perguntou com um ar malicioso, se eu conhecia aquelas duas pessoas, e eu quis saber se ele estava aborrecido. Ele só balançou a cabeça e sorriu." (pp. 103-4) Trecho do capítulo arte/ratos

A vida de Patti Smith muda completamente quando conhece Fred "Sonic" Smith, guitarrista do MC5. Movida por esse encontro, ela deixa Nova York e se instala em Detroit, escolhendo a maternidade e a vida doméstica em pleno auge de sua fama. Ao lado de Fred, constrói uma história de amor intensa e discreta, marcada pelo nascimento de dois filhos e pela busca de uma existência mais serena, longe dos holofotes. Essa fase, no entanto, é interrompida pelo falecimento precoce de Fred, em 1994, que a mergulha em um período de luto profundo. Na parte final de Pão dos anjos, que se estende até o presente, Patti narra o processo de reconstrução de sua carreira e de sua identidade artística, revelando como a dor do luto se transforma em força criativa.

"Depois que nos casamos, e pelos catorze anos seguintes, com exceção de algumas poucas horas no hospital quando dei à luz nosso filho e nossa filha, Fred e eu nunca nos separamos. Vivemos segundo um relógio sem ponteiros, dentro da mesma pele, navegando no mesmo barco que nunca deixou a terra. Jesse desenhava ratinhos felizes e flores nos meus diários. À noite, Jackson costumava se sentar junto ao canal com a vara de pescar, ouvindo Pavarotti no aparelho de som portátil. Nas noites insones ou nas primeiras horas da manhã, eu escrevia. Descalça, descia com cuidado os degraus de mármore, passava pela porta de madeira com a imagem de um sol nascente no vitral e entrava na cozinha modesta, com o fogão a gás de quatro bocas, uma pia rústica, armários pesados de carvalho, a mesinha dobrável com um diário aberto e um pequeno pote com canetas. Escrevia o que não podia ser escrito, chamada pelo meu meteoro, minha vela invertida que caiu no mar." (pp. 187-8) Trecho do capítulo Meu madrigal

Literatura norte-americana
Sobre a autora: Patti Smith nasceu em 1946, em Chicago, nos Estados Unidos. Ganhou reconhecimento nos anos 1970 por sua fusão revolucionária de poesia com rock, e seu disco Horses, de 1975, é considerado um dos álbuns mais influentes da história. Além da carreira musical, publicou volumes de poesia, como Babel (1978) e Auguries of Innocence (2005). Dela, a Companhia das Letras publicou Só garotos, vencedor do National Book Award, além de Linha M, Devoção, O Ano do Macaco, Um livro dos dias e Pão dos anjos.

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