Luiz Henrique Gurgel - Porque era ele, porque era eu e outras quase histórias

Literatura brasileira contemporânea
Luiz Henrique Gurgel - Porque era ele, porque era eu e outras quase histórias - Editora Caravana - 98 Páginas - Capa e editoração eletrônica: Eduardo César Machado de Jesus - Lançamento: 2023.

Luiz Henrique Gurgel nos apresenta alguns textos muito peculiares, nos quais não conseguimos identificar precisamente os limites entre as memórias do autor e a influência da ficção. Logo, uma primeira dificuldade para o resenhista – no seu irritante vício profissional de enquadrar as obras em gêneros predefinidos – é a de classificar este livro entre a crônica ou o conto e acabo marcando as duas opções. O tom memorialista é predominante na primeira e melhor das quatro partes temáticas nas quais a obra está dividida, ou seja: Entre afetos, Perder-se nas cidades, Teimosias e Em sala de aula. Contudo, em todas as partes, seja na lembrança de um momento ou na descrição de uma cidade, os sentidos estão sempre presentes na forma de cheiros, sons e imagens.

De fato, já na crônica de abertura, O cheiro, está explícito o desejo de matar a saudade à moda antiga, nada de conversas virtuais via telas de computador nos famigerados aplicativos Skype, Zoom ou Teams, muito menos fotos postadas nas redes sociais do tipo Facebook e Instagram, mas sim "o cheiro do cabelo, a textura da pele do rosto, o contato das mãos e do beijo". Em Sobre pequenos momentos, a memória singela de um passeio com a mãe em um passado remoto que a mulher relembra por meio da foto lambe-lambe (muita gente nem vai saber o que é isso), "normalmente efêmera que durou décadas suficientes para ser restaurada e ampliada". E o que dizer do sensível texto em "O que você faz quando sabe que seu amigo vai morrer?"

"Você pressente e sabe que seu amigo está morrendo, não solta nenhuma lágrima, nem recomenda que vá a um médico ou pronto-socorro ali, naquela hora mesmo, sondar o estranho e repentino cansaço que fazia com que o peito arfasse tão longamente, andando devagar, reduzindo ainda mais o passo nos pequenos aclives da calçada, dando volta por outro quarteirão para evitar ladeiras e ir conversando com estranha naturalidade, falando devagar sobre o que se vê na rua àquela hora, sobre a caótica e lamentável situação política, sobre uma exposição qualquer em cartaz ou sobre aquela gente se acotovelando na calçada, em frente a um bar da moda, esperando o manobrista trazer o carrão amarelo, modelo europeu, ronco forte. / Ele acende outro cigarro e pede que lhe pague um café na padaria ainda aberta. Sentam-se, bebem o café com o pastel de nata que você incluiu na demanda, observando-o falar e relembrar algum causo, alguma cena com Maria Callas, e ele vai fazendo tudo isso pausadamente, até lhe parece que tem certa dificuldade, mas é tão discreto, que ninguém, a não ser um amigo, perceberia. Toma um gole do café, morde o doce, conta outro trecho da história e isso vai se repetindo, não necessariamente na mesma ordem, mas no mesmo tom de voz sem ênfase." (pp. 19-20) - Trecho da crônica O que você faz quando sabe que seu amigo vai morrer?

O melhor texto dessa ótima primeira parte é mesmo Porque era ele, porque era eu, no qual Luiz Henrique Gurgel presta uma homenagem ao seu cão valendo-se de uma citação do filósofo Montaigne. Tenho de confessar que compartilho do mesmo sentimento e normalmente cito um outro grande escritor, Tchekhov, que costumava dizer: "Que grandes pessoas são os cães!". Na verdade, na minha opinião, os cães são seres humanos melhorados. Destaque também para as crônicas mais tradicionais sobre Carlos Drummond de Andrade e Adoniran Barbosa , ambas inseridas na parte Perder-se nas cidades ou um devaneio sobre a origem de "Conversa de botequim", samba clássico de Noel Rosa, incluído em Teimosias, crônicas que voltam a se valer da ficção.

"[...] Se me perguntam a razão desse amor, aí respondo como Montaigne: 'Na amizade a que me refiro, as almas entrosam-se e se confundem numa única alma, tão unidas uma à outra que não se distinguem, não se lhes percebendo sequer a linha de demarcação. Se insistirem para que eu diga por que o amava, sinto que não o saberia expressar senão respondendo: porque era ele, porque era eu". / Ouso dizer isso da minha relação com o Fubá, somos um caso concreto de amizade verdadeira e afetuosa, para além de qualquer explicação objetiva ou 'científica', mesmo que me falte um rabo e eu tenha duas pernas a menos que ele. E por mais que também haja – mesmo que eu não queira ou perceba que a possuo (e a utilizo) – uma relação de poder, algo que tentam justificar pelo 'especismo', trem ideológico que vigora soberanamente desde que Deus, no Gênesis, decretou que o homem devia dominar todas as outras espécies. Boa parte da humanidade acredita em Deus, digo nessas palavras de Deus. então, acaba sendo a norma que vigora. E olha que nossas vidas – a minha e a do Fubá – se cruzaram absolutamente por acaso e eu não sei explicar de onde surgiu a afinidade, seguida de carinho, admiração recíproca... Foge à razão, Montaigne explica." (p. 23) Trecho da crônica Porque era ele, porque era eu

No conjunto final de textos, Em sala de aula, uma homenagem à sempre injustiçada categoria dos professores: "Lili!, Lili! Eu vou fazer Letras! Quero ser igual a você! A cara da minha ex-professora de língua portuguesa e literatura nos três anos do ensino médio era de espanto. Pareceu sentir um travo na garganta e gaguejou com falsa indignação: 'Você tá louca, menina! Não! Pelo amor de Deus! Vá fazer Economia, Direito... Professora, não!". O livro apresenta uma edição caprichada, sendo que cada uma das crônicas é ilustrada com imagens dos fotógrafos Manoel Marques e Marcia Minillo, além da jovem fotógrafa e cinegrafista, Marina Gurgel, e também a partir de fotos do acervo do próprio autor, que formam uma espécie de diálogo com essas "quase histórias".

"Era comum o poeta dizer que continuava 'morando' em Itabira, referência clara à antiga 'Itabira do Mato Dentro', da infância e adolescência. Pouca coisa da arquitetura de seu tempo restou. O que ainda existe – e resiste ao descaso de alguns e ao desinteresse de outros – são algumas igrejas e casarões – entre eles, aquele em que passou a infância e adolescência –, além das ladeiras sinuosas, e o Pico do Amor. Dos noventa por cento de ferro das calçadas, como em 'Confidência do Itabirano', parecem ter surgido grandes placas de ferro fundido, com quase dois metros de altura, que reproduzem poemas de Drummond com alguma alusão ao local onde estão expostas, referindo-se à construção ou a algum personagem contemporâneo do poeta que tenha vivido ali. A série de placas, espalhadas pela cidade, formam o chamado 'Caminhos Drummondianos', espécie de museu a céu aberto, criado em 1997, um passeio e tanto para apreciadores da obra, que buscam outras referências dos poemas. [...]" (p. 42) Trecho da crônica Drummond em busca do menino antigo

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Luiz Henrique Gurgel é sociólogo de formação, jornalista e mestre em Literatura Brasileira pela USP. É autor de "amores malfadados" (2020, contos, livro traduzido e lançado na Argentina em 2023 pela Editora Caravana com o título de "amores desgraciados"). Trabalhou com produções editoriais do Estúdio Elifas Andreato, em São Paulo, onde fez parte da equipe de criação e edição da revista Almanaque Brasil, extinta publicação de bordo da TAM Linhas Aéreas, e também da série "História do Samba", coleção em fascículos da editora Globo, dentre outros projetos. Também fez parte da equipe de programação da Galeria Olido, centro cultural da Prefeitura de São Paulo, desde sua inauguração em 2004, responsável pelas atividades com literatura. Por 11 anos atuou em projetos educacionais do Cenpec, com a criação de publicações e atividades voltadas à formação de educadores. Como free-lancer, teve reportagens publicadas por Caros Amigos, Revista Brasileiros, Diário do ABC entre outros.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Porque era ele, porque era eu e outras quase histórias de Luiz Henrique Gurgel

Comentários

Rita Alves disse…
Ainda não li, mas a resenha despertou a vontade de saber sobre quem era ele, quem era eu. Gosto muito da escrita do Henrique.
Adri Aleixo disse…
A sua resenha amplia a beleza do livro. Parabéns!
Alexandre Kovacs disse…
Oi Rita, grato pela visita e comentário! fico feliz que a resenha tenha despertado o seu interesse em ler o livro.
Alexandre Kovacs disse…
Oi Adri, obrigado pelo comentário, que bom ter gostado da resenha!
Sandra Mayumi Hosaka Shibuya disse…
Que capricho de resenha! Leitura atenta que levará muitos a se iniciarem nos textos maravilhosos do Luiz Henrique Gurgel...
Alexandre Kovacs disse…
Oi Sandra, obrigado pela visita e comentário gentil!

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