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Paulina Chiziane - Balada de amor ao vento

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Paulina Chiziane - Balada de amor ao vento - Editora Companhia das Letras - 176 Páginas - Capa e imagem de Angelo Abu - Lançamento: 2022. Balada de amor ao vento , romance publicado originalmente em 1990, marcou a estreia da moçambicana Paulina Chiziane na literatura. Ela, que foi  na época   a primeira mulher a publicar um livro em Moçambique, também foi a primeira africana a ser distinguida com o Prêmio Camões em 2021.  A obra da autora discute as dificuldades e desafios da condição feminina, sujeita aos aspectos políticos, culturais e religiosos da sociedade moçambicana, fortemente patriarcal, criticando a prática de poligamia no país. A descrição lírica da natureza está sempre presente, acompanhando e simbolizando os prazeres e frustrações dos personagens, construindo assim uma prosa poética que, de forma semelhante aos romances de seu conterrâneo Mia Couto, contrasta com a dura realidade de um país que foi devastado pela guerra de libertação e os conflitos civis posteriores à inde

Paulo Henriques Britto - Fim de verão

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Paulo Henriques Britto - Fim de verão - Editora Companhia das Letras - 96 Páginas - Capa: Kiko Farkas / Máquina Estúdio - Lançamento: 2022. Em seu mais recente lançamento, nono livro de poemas, encontramos Paulo Henriques Britto na sua melhor forma de tradutor e poeta, como ele demonstra, por exemplo, na  genial e bem-humorada construção que é  Três traduções e treze variações sobre um poema de Emily Dickinson , compondo com inteligência e uma boa dose de sarcasmo a partir das contradições entre ciência e religião: "A fé é uma faca cega / com fraco poder de corte. / Serve para aparar (um pouco) / o pavor da morte. // O prudente, com seu microscópio, / um dia morre, sozinho. / E o cavalheiro da fé? / – Morre igualzinho." Não satisfeito, o poeta é ainda mais explícito em Vers de circonstance (BRASIL 2020) - I. IMUNIDADE DE REBANHO : "Pensar é coisa trabalhosa. A ignorância / é o sumo bem dos cidadãos de bem, / é a verdadeira marca dos eleitos. / Ter sucesso é não ter que

Manoel de Barros - Gramática expositiva do chão

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Manoel de Barros - Gramática expositiva do chão - Editora Alfaguara - 88 Páginas - Capa e projeto gráfico de Regina Ferraz - Imagem de capa de Martha Barros - Lançamento original: 1969 / Relançamento: 2022. Este é quinto  livro de poemas de Manoel de Barros (1916-2014), o nosso grande mestre da desimportância, como costumo nomeá-lo, um  homem que tinha um jeito diferente de ver o mundo a partir de um talento nato para enxergar as coisas simples da natureza. O prefácio da escritora Clarice Freire define muito bem a essência da poesia de Manoel de Barros: "santuário das coisas invisíveis" , ou ainda mais certeira quando afirma: "Mais fácil ver brilho numa estrela do que em caracol. Mas há brilho nos dois. Um é quente e explosivo, o outro se arrasta como um cometa que não tem pressa. O caracol é mais antes que depois, por isso carrega a calma que não se entende longe do solo." Nesta obra, prosa e poesia se confundem para formar uma grande celebração de tudo aquilo que

Fernando Pessoa - Poesia completa de Ricardo Reis

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Fernando Pessoa - Poesia completa de Ricardo Reis - Editora Companhia das Letras - 256 Páginas - Capa e projeto gráfico de Elaine Ramos e Julia Paccola - Lançamento: 2022. Fernando Pessoa (1888-1935) criou heterônimos com diferentes personalidades imaginárias e estilos, sendo alguns dos mais famosos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares. As odes e poemas de Ricardo Reis guardam alguma semelhança com a poesia de Alberto Caeiro, mas podemos constatar que os questionamentos filosóficos do primeiro estão mais relacionados à brevidade da existência e à necessidade de viver plenamente cada momento:  "Nada fica de nada. Nada somos. / Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos / Da irrespirável treva que nos pese / Da úmida terra imposta, / Cadáveres adiados que procriam. / Leis feitas, státuas altas, odes findas – / Tudo tem cova sua. Se nós, carnes / A que um íntimo sol dá sangue, temos / Poente, por que não elas? /  Somos contos contando contos, nada." (28-

Shirley Jackson - A loteria e outros contos

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Shirley Jackson - A loteria e outros contos - Editora Alfaguara - 264 Páginas - Tradução: Débora Landsberg - Capa: Elisa von Randow - Imagem:  Nightfall , de Will Barnet - Lançamento: 2022 Apesar de ter escrito romances, livros de memória, novelas e narrativas curtas, a carreira de Shirley Jackson (1916-1965) ficou marcada – para o bem e para o mal, como ocorre geralmente nesses casos – por um único conto,  A loteria , que consta obrigatoriamente em qualquer seleção de grandes contos norte-americanos do século XX, sendo considerado um marco moderno na literatura de terror e influenciado alguns famosos autores contemporâneos do gênero. A narrativa, publicada originalmente em 1948 pela New Yorker, descreve uma estranha tradição anual em uma pequena comunidade fictícia no interior dos Estados Unidos, que provocou uma forte reação nos leitores mais conservadores na época por meio de várias cartas de reclamação e até mesmo o cancelamento de assinaturas, devido à crueldade e brutalidade suge

Carla Bessa - Todas uma

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Carla Bessa - Todas uma - Editora Confraria do Vento - 108 Páginas - Projeto gráfico: Pranayama Design - Lançamento: 2022. O mais recente lançamento de Carla Bessa lida com  um tema polêmico ao questionar até que ponto  o desejo de ser mãe é uma escolha individual ou institucionalizada pela sociedade e mesmo pela religião, fazendo com que, em alguns casos, as  mulheres amem seus filhos e detestem ser mães .  A autora desenvolve narrativas interligadas,  misturando os conceitos de conto e novela, criando  personagens que compartilham a sensação de invisibilidade a partir do momento em que se tornam esposas e mães, precisando superar as pressões do desempenho profissional e ainda tendo que manter a beleza e a sexualidade. A opção pela polifonia explora os fragmentos de uma mesma mulher que precisou se dividir para sobreviver, a estratégia do livro é de unir essas partes em uma única história como sugerido no título: todas e uma. Lívia percebe um leve desbotamento da sua imagem no espelho

Nathalie Lourenço - Tudo meio horrível

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Nathalie Lourenço - Tudo meio horrível - Editora Caos & Letras - 136 Páginas - Projeto gráfico: Cristiano Silva - Capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2022. O título do terceiro livro de contos de Nathalie Lourenço, Tudo meio horrível , nos oferece uma boa indicação sobre o seu estilo criativo, bem-humorado e carregado de ironia, ao trabalhar com personagens caricatos em situações "normais" do cotidiano, porém colocando-os sempre na iminência de alguma transformação perturbadora que provoca uma guinada na narrativa, até então leve e despretensiosa.  Essa capacidade de lidar com o tragicômico sempre presente em nossas vidas, no curto espaço de manobra dos textos velozes, controlando o exato momento da revelação que irá surpreender o leitor desprevinido – fazendo rir ou chorar (ou possivelmente as duas coisas) – é a característica que melhor diferencia o trabalho da jovem autora. Escrevendo em primeira ou terceira pessoa, Nathalie aproxima o leitor do universo bizarrro desses

Decio Zylbersztajn - O arquivo dos mortos

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Decio Zylbersztajn - O arquivo dos mortos - Editora Reformatório - 360 Páginas - Design e Editoração Eletrônica: Negrito Produção Editorial -   Lançamento: 2022. O romance de Decio Zylberstajn tem início com a morte de Ataliba, um jornalista que se especializou em obituários e formou um arquivo com uma coleção de mortes peculiares. Ao longo da narrativa principal são inseridos nove obituários com histórias independentes, um recurso que permite ao autor dar voz aos falecidos que explicam o contexto de suas mortes. Talvez, esta seja u ma fixação macabra na opinião das pessoas que normalmente evitam pensar na "indesejada das gentes" , como era definida por Manuel Bandeira. Contudo, na visão pragmática do personagem, um fato simples e previsível:   "Morte é quando tudo acaba, não há nada de inesperado nela. Aliás, inesperado na vida são os capítulos intermediários e não o capítulo final. A morte é perfeitamente previsível, quanto à vida, não se pode dizer o mesmo." A co