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Mostrando postagens de 2026

Maíra Valério - Amarga

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Maíra Valério - Amarga - Editora Orlando - 88 Páginas - Projeto gráfico e diagramação: Ana Elisa Granziera - Ilustração de capa: Caio Gomez - Lançamento: 2025. Já resenhei por aqui, há algum tempo, a coletânea de contos  “Homens que nunca conheci” (Patuá, 2020) de  Maíra Valério, obra que me chamou a atenção pela sinceridade em descrever os comportamentos ditos inadequados ou politicamente incorretos dos personagens, revelando fragilidades que permeiam a condição humana. São características que procuramos disfarçar em contínuas edições nas redes sociais, na tentativa de corresponder ao que supostamente esperam de nós. Em seu lançamento mais recente, agora assumindo a poesia como forma de expressão, a autora recorre ao sarcasmo e à amargura para desafiar a "maquiagem da positividade tóxica" do mundo contemporâneo, como destaca Thais Camponila na introdução. O livro, que foi o vencedor do Prêmio Tato Literário 2025, revela poemas com influências diversas — de Ana Cristina Ce...

Leonilia Ribeiro - Homo restus

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Leonilia Ribeiro - Homo restus - Editora Patuá - 120 Páginas -  Capa e projeto gráfico: Luyse Costa Lançamento: 2025. O romance de Leonila Ribeiro é narrado em primeira pessoa por um protagonista nada confiável, o que é sempre uma técnica valiosa para a literatura quando bem executada. Marcílio, homem branco de 49 anos, solitário e eterno candidato a concursos públicos, expõe ao leitor seu cotidiano obsessivo de estudos, manias e hábitos excêntricos, compartilhados apenas com Dona Nélia, a mãe idosa, e Mimo, o gato que governa o apartamento em São Cristóvão segundo seus próprios caprichos. Essa rotina claustrofóbica está prestes a ser abalada pela chegada de duas crianças negras, de seis e oito anos, recém-adotadas por sua irmã Lena — desembargadora do Tribunal de Justiça — e pela companheira dela, que, devido a uma viagem, pedem para deixá-las nesse bizarro lar por uma semana. A convivência forçada afeta a rotina de estudos de Marcílio, assim como o cotidiano de Dona Nélia, trazen...

João Paulo Parisio - Ranho e sonho

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João Paulo Parisio - Ranho e sonho - Editora Caos & Letras - 140 Páginas -  Projeto gráfico: Cristiano Silva - Capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2025 O mais recente lançamento de João Paulo Parisio é uma coletânea de poemas narrativos, se é que podemos chamar assim por falta de definição mais precisa, uma prosa encadeada em versos ritmados nos quais a métrica e a rima conduzem o leitor por fábulas contemporâneas, pequenas epopeias urbanas e histórias de gente comum. Parisio é um autor que já tinha me chamado a atenção em seus primeiros livros de contos ( Homens e outros animais fabulosos   e  Beija-flor ) , assim como no  romance ( Retrocausalidade ),  reafirma aqui o seu experimentalismo com base em um cuidadoso artesanato, utilizando vocabulário erudito e a renovação do trabalho de gerações anteriores. Neste Ranho e sonho , os protagonistas estão muito próximos à nossa realidade, gente simples que teima em sobreviver nos grandes centros urbanos como em...

Epitácio Carvalho - Lá fora é tudo abismo

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Epitácio Carvalho - Lá fora é tudo abismo - Editora Patuá - 180 Páginas - Capa, projeto gráfico e diagramação: Henrique Lourenço - Lançamento: 2024. O jovem protagonista de Lá fora é tudo abismo , segundo romance de Epitácio Carvalho, chama-se Bernardo.  Filho único, aos vinte e um anos carrega uma personalidade introspectiva que o leva a achar  “todo tipo de socialização um esforço descomunal” .  Desde a adolescência, sonha em se tornar escritor e poeta, em clara oposição às expectativas do pai, que sonha vê-lo seguir sua própria carreira como advogado.  Movido por essa ambição ainda imatura, Bernardo abandona a faculdade de Direito para dedicar-se à literatura, decisão pouco consistente, como ele deixa transparecer ao admitir: “Era para as mulheres que desejava projetar minha figura de escritor. Meu livro seria uma espécie de cauda de pavão, exibido para seduzir a fêmea” . Com relutância, os pais acabam aceitando a escolha do filho, impondo apenas que ele trab...

Peter LaRubia - Dos quatro nenhum sentou à cabeceira

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Peter LaRubia - Dos quatro nenhum sentou à cabeceira - Editora Patuá - 152 Páginas - Capa, projeto gráfico e diagramação: Alessandro Romio - Lançamento: 2025. O romance de Peter LaRubia protagoniza um casal que se acomoda no desconforto do cotidiano e transforma o silêncio em presença constante na relação. Com dificuldades para engravidar, tomam a primeira de uma série de decisões equivocadas ao recorrer a uma adoção clandestina que os levará à separação com um final trágico e surpreendente. Na verdade, a opção de Isabel e Saul pela adoção de Benjamim, ainda bebê, se revela logo no início um elemento catalisador do desconforto que permeia o casal, sobretudo quando Isabel percebe a distância afetiva que a separa do filho adotado: "Apertando aquele corpo diminuto contra si notava um espaço. Um espaço que parecia impossível de preencher. Por mais força que fizesse o menino nunca parecia tocar de verdade seu corpo." A trama psicológica é muito bem conduzida, levando o leitor a ti...

Wilson Gorj - Vidas sem nome

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Wilson Gorj - Vidas sem nome - Editora Litteralux - 154 Páginas - Capa: Dáblio Jotta - Diagramação: Talita Almeida - Lançamento: 2025. O mais recente lançamento de Wilson Gorj é uma coletânea com 58 narrativas breves — minicontos associados, em sua maioria, a um realismo mágico inspirado pelo absurdo que, vez ou outra, insiste em atravessar o nosso cotidiano.  O anonimato dos personagens, jamais nomeados, amplia a sensação de que poderiam ser qualquer um de nós. São figuras comuns, submetidas à força inescapável do destino, e talvez resida aí a empatia imediata que despertam: o leitor se vê tocado diante do imprevisível que cerca suas trajetórias. Isso me faz lembrar de um aforismo atribuído normalmente a Woody Allen , que parece sintetizar essa condição humana tão frágil quanto inevitável:  "Quer fazer Deus rir? Conte-lhe os seus planos para o futuro" . Entre os temas explorados pelo autor, há espaço também para a delicadeza dos sentimentos, como se vê em O circo : “Às v...