Wilson Gorj - Vidas sem nome
O mais recente lançamento de Wilson Gorj é uma coletânea com 58 narrativas breves — minicontos associados, em sua maioria, a um realismo mágico inspirado pelo absurdo que, vez ou outra, insiste em atravessar o nosso cotidiano. O anonimato dos personagens, jamais nomeados, amplia a sensação de que poderiam ser qualquer um de nós. São figuras comuns, submetidas à força inescapável do destino, e talvez resida aí a empatia imediata que despertam: o leitor se vê tocado diante do imprevisível que cerca suas trajetórias. Isso me faz lembrar de um aforismo atribuído normalmente a Woody Allen, que parece sintetizar essa condição humana tão frágil quanto inevitável: "Quer fazer Deus rir? Conte-lhe os seus planos para o futuro".
Entre os temas explorados pelo autor, há espaço também para a delicadeza dos sentimentos, como se vê em O circo: “Às vezes, o que a gente precisa não é tanto fugir da tristeza, mas perceber que ela não é só nossa”; em Os louros da fama: “Quase perguntou à professora onde estavam as autoridades. Onde os acordes da banda? Os aplausos da multidão...” ou ainda em Beleza rara: “No rosto, levava as asas de um sorriso.” Apesar disso, o que conduz a maioria dos minicontos é a brutal fatalidade que ronda o destino desses personagens, como ocorre em O novo prefeito, Olhos azuis, Último cartucho e A vítima. Creio que os três exemplos selecionados a seguir — Encontro marcado, Pancadas na porta e A vida continua — ajudam a ilustrar o estilo de Wilson Gorj.
Encontro Marcado
Um conto de Wilson Gorj
Estendeu a mão à cigana. Na palma calejada, a velha leu as linhas tortas de um triste destino: doença terrível, morte próxima.
— E então?
O homem lhe endereçava um olhar esperançoso, carregado de ansiedade. A cigana sentiu pena. Limitou-se a dizer:
— Falta pouco para você encontrá-la.
— Quem? A mulher da minha vida?
— Não sei precisar — ela preferiu ocultar a verdade — As linhas de sua mão não revelam exatamente o que é. Ou quem é. Apenas dizem isso, que "ela" se aproxima.
— A sorte grande, só pode! Acabo de vir da lotérica. A sorte, é isso! Logo vou encontrá-la... e dar adeus a esta vida miserável!
Exibindo seu dente de ouro, a cigana sorriu amarelo.
— É exatamente isso o que nos diz a sua mão.
Pancadas na porta
Um conto de Wilson Gorj
— Abra. É a polícia.
Ele acorda, sobressaltado. A polícia? "Mas o que querem comigo", pensa, enquanto tenta reconstituir os episódios da noite anterior. A cabeça ainda dói, a boca amarga. O porre. De mais nada consegue se lembrar.
— Abra!Levanta-se, por fim. Quem não deve não teme. Melhor atendê-los. A caminho da porta, vê-se no espelho. Sua camisa. Há manchas de sangue na camisa.
Novas pancadas. Afasta-se.
— Se não abrir, vamos arrombar — gritam do outro lado.A janela está aberta, convidativa. O hotel, ele sabe, tem 13 andares, mas, por sorte, hospedara-se no segundo (uma queda segura, talvez). Tenta lembrar o que fizera de errado, mas as batidas cada vez mais fortes não deixam; vão derrubar a porta a qualquer momento. Fugir, não há outro jeito. Ele, então, corre para janela e salta. Nesse instante, retornam à lembrança, como flashes sucessivos, alguns fragmentos da noite passada: o encontro com a loira no bar do hotel; a conversa, os drinques, as carícias - e o convite: "Vamos para o meu quarto". Os dois entrando no elevador, rumo à cama dela no último andar.
Lembra-se de chegarem à porta.
A memória, no entanto, não passa daí. Apenas seu corpo continua a passar, um a um, pelos 13 andares.
A vida continua
Um conto de Wilson Gorj
No dia do Juízo final, todos foram convocados: vivos e mortos compareceram perante Deus para serem julgados por seus atos. Ao fim do julgamento, os bons subiram ao céu e os maus desceram ao inferno - exatamente como havia sido apregoado nas Escrituras. Contudo, largados neste mundo, ficaram os ateus, apenas os bons ateus. Sim, os bons, pois se, por um lado, a descrença os livrara do Paraíso, por outro, a bondade os salvara do fogo eterno. Condenados a povoar a Terra por toda a eternidade, não sabiam ao certo se estavam sendo recompensados ou punidos.
Não eram muitos, de modo que se dividiram em pequenos grupos para que cada qual tomasse um caminho diferente.
"A vida continua", ponderou a figura encapuzada, que, a certa distância, acompanhava o movimento da humanidade remanescente, agora imortal. Seu olhar voltou para o que trazia nas mãos."Daqui por diante, não precisarei mais disto", concluiu.
E, livrando-se da foice, seguiu no encalço dos homens.
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