Peter LaRubia - Dos quatro nenhum sentou à cabeceira
O romance de Peter LaRubia protagoniza um casal que se acomoda no desconforto do cotidiano e transforma o silêncio em presença constante na relação. Com dificuldades para engravidar, tomam a primeira de uma série de decisões equivocadas ao recorrer a uma adoção clandestina que os levará à separação com um final trágico e surpreendente. Na verdade, a opção de Isabel e Saul pela adoção de Benjamim, ainda bebê, se revela logo no início um elemento catalisador do desconforto que permeia o casal, sobretudo quando Isabel percebe a distância afetiva que a separa do filho adotado: "Apertando aquele corpo diminuto contra si notava um espaço. Um espaço que parecia impossível de preencher. Por mais força que fizesse o menino nunca parecia tocar de verdade seu corpo."
A trama psicológica é muito bem conduzida, levando o leitor a tirar suas próprias conclusões, muito mais a partir das ações dos personagens do que das poucas palavras que trocam ao longo da narrativa, inclusive sobre o fato de Benjamim ser adotado. De fato, Isabel, Saul e Benjamim formam uma família marcada pela angústia da ausência e do silêncio, algo que se manifesta nos problemas do menino, que chega aos cinco anos sem pronunciar sequer uma palavra, nem mesmo “Mamãe”. A tensão se intensifica quando Isabel engravida de Rebeca, uma gestação atribuída ao suposto sucesso do tratamento de fertilidade de Saul, mas a sombra de Isaque, um relacionamento anterior de Isabel, introduz uma dúvida, mais um elemento de corrosão da estrutura familiar já debilitada.
"Isabel só gozava de olhos fechados. Fechada em si. De olhos fechados concebia o mundo. Concebeu Isaque. Pensar nele injetava sal em cada fluido do corpo. Culpa, tempero pra dor. Que fazia Isabel dilatar mais a boca e contrair mais os olhos. Fechada em escuridão, Isabel-árvore. De madeira frágil. Os braços, mãos e dedos eram galhos esticados quase tocando um céu de estrelas. Isaque, a serpente. Deslizava o corpo de Isabel em espiral robusta. Isaque sussurrava. Comprimia e relaxava. Compassava a respiração. Esmagava Isabel: carne, costelas, coração e pulmão. Isaque. Ele segredava verbos incompreensíveis. Num idioma absurdamente claro. Versos de uma música langorosa. Música de ritmo crescente. Isabel passiva Isabel agressiva, respondia aos versos em terça dissonante, fazendo coro ao canto. E quando em sussurros mais acelerados a serpente lhe invade pressionando úmida o fundo da base de seu tronco Isabel crava os dedos nas costas de Saul com unhas que lhe marcam fendas e aperta o peso do marido contra si impedindo que ele se mova ou veja seu rosto e Isabel abre os olhos e permanece encarando o teto sem estrelas. O orgasmo se esfarelou. Não conseguia encarar Saul. Aquele sorriso condescendente. De dentes expostos. De olhos bentos e inseguros. O mesmo sorriso de sempre. Ela sabia. O mesmo que conquistou Isabel. Um sorriso que não julgava. Que não pedia. Que deixava tudo sempre num silêncio confortável. Que ela achava meigo, transparente e que dava vontade de abraçar e guardar. O sorriso não mudou. Ela mudou? Como algo que a confortava por dentro agora causava quase uma repulsa? Era justamente aquela insegurança de Saul que fazia Isabel se sentir segura. Não queria que isso mudasse. [...]" (pp. 13-4)
O acúmulo de tensões e culpas ao longo do tempo levará a um desfecho brutal e inesperado para o romance, resultado quase inevitável de uma convivência marcada por silêncios que se tornam insuportáveis. A narrativa funciona como um alerta para os perigos da falta de comunicação familiar, que transforma cada personagem em habitante de uma espécie de caixa à prova de som, incapaz de ouvir e de ser ouvido. Peter LaRubia expõe a fragilidade das relações humanas e a violência que pode emergir quando as pessoas não encontram espaço para expressar afeto e compreensão, permitindo que a solidão se torne o sentimento dominante.
"Nenhum dos dois queria realmente estar naquela sala de orfanato. Depois de semanas pesquisando. Depois de meses aguardando as vias oficiais. Amontoou-se desengano e frustração. Calvários de areia. A dificuldade na adoção devia ser uma constatação do Destino: Não mereciam. Não estavam preparados. Nunca seriam pais de verdade. Tinham iniciado uma diligência impossível em busca de uma meta inalcançável. Papelada, documentos, entrevistas, idas e vindas e espera. Espera. Mas acima de tudo: o Julgamento. Juízos de valor muito mal encobertos em cada olhar. Cada assistente social, cada médico, cada funcionário. Um julgamento que o casal transmutava em angústia. Inidentificável. Cada dia mais abafadiça. Por causa dessa angústia. E por causa da mudez grudada a ela. Não conseguiam ver a adoção alternativa como um desvio ilegal. Não queriam estar ali, mas a Lei era insuficiente. Contornavam por saída menos dolorosa. Atitude natural. Como recolher o pé que acabou de pisar num prego. Tráfico de crianças: apenas o fantasma do som dessas palavras percorreu a casa deles, nunca as palavras. Estavam se protegendo do olhar e da cobrança do mundo. Seriam seu próprio mundo. Tornavam o ato íntimo. Porque era um ato íntimo. Mais íntimo impossível. Mas também, caso falhassem, garantiam a ausência de testemunhas." (p. 22)
Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Dos quatro nenhum sentou à cabeceira de Peter LaRubia


Comentários