João Paulo Parisio - Ranho e sonho
O mais recente lançamento de João Paulo Parisio é uma coletânea de poemas narrativos, se é que podemos chamar assim por falta de definição mais precisa, uma prosa encadeada em versos ritmados nos quais a métrica e a rima conduzem o leitor por fábulas contemporâneas, pequenas epopeias urbanas e histórias de gente comum. Parisio é um autor que já tinha me chamado a atenção em seus primeiros livros de contos (Homens e outros animais fabulosos e Beija-flor), assim como no romance (Retrocausalidade), reafirma aqui o seu experimentalismo com base em um cuidadoso artesanato, utilizando vocabulário erudito e a renovação do trabalho de gerações anteriores.
Neste Ranho e sonho, os protagonistas estão muito próximos à nossa realidade, gente simples que teima em sobreviver nos grandes centros urbanos como em Sermão do piruliteiro (p. 13): "Cada pirulito desse / é uma flecha em minha carne. / Uma flecha amarga. / A culpa não é sua, / a culpa não é minha. [...] / Espero que a dor / sirva para alguma coisa, / porque se não servir / minha vida é um desperdício / Só essa amargura. / Perdão, Senhor. / Perfeitos são os teus desígnios. [...]" Até mesmo um cachorro pode se tornar o centro da narrativa em Osmose (p. 23): "Esse cachorro invisível / chorando a noite inteira, / assombrando o bairro da Boa Vista. / Onde esse cachorro chorando? / Certamente num andar alto, / porque se projetou no espaço, / porque se espapaçou no asfalto / feito uma jaca ou uma manga. / Quanto assimilou do humano / para chegar ao seu gesto arcano?"
Em muitos casos encontramos verdadeiros contos narrados em verso, processo bem conduzido em Balada do rapaz feiíssimo (p. 85): "[...] sou jovem, / mas a juventude em mim / é uma contradição apenas. / Sou pobre, isso é consistente, / trabalho de embalador no Extra. / Saio antes que clareie, / volto depois que escureça. / A felicidade é desistir de ser feliz, e o que vier é um extra. [,,,]" ou no longo A festa de aniversário do cangaceiro Criança e da menina Senhorinha (p. 54), uma homenagem do autor à prosa caudalosa de Guimarães Rosa, impossível de se resumir aqui. Contudo, o livro não se limita ao desencanto. Há também espaço para a delicadeza e para a esperança, como no sensível Estrela do futuro (p. 79): "Meu bebê. / Tuas pupilas são o universo / ao fundo de tudo, brilhando como uma estrela / do futuro."
Balada do rapaz feiíssimo
Pareço um peixe fora d´água.The end.
Não queira me imaginar,
isso não é um conto,
é um poema,
e antes que por poeta você me tome,
alguém que a beleza de um talento indeniza,
como Adoniran ou Noel Rosa,
saiba que isso é a expressão manifesta
de um conteúdo latente
que ao poema se empresta.
As palavras não são minhas
e mesmo as que são
sofrem uma edição
em seu teor, sua ordem,
ali uma elipse,
aqui uma adição,
o resultado um Frankestein,
o que aliás condiz
(eu teria dito "combina") comigo,
ou uma simbiose insólita,
uma mescla que me torne belo,
uma alquimia de fonemas.
Dito isto (aqui interveio o poeta;
peço que agora se retire
para os bastidores do poema),
sou jovem,
mas a juventude em mim
é uma contradição apenas.
Sou pobre, isso é consistente,
trabalho de embalador no Extra.
Saio antes que clareie,
volto depois que escureça.
A felicidade é desistir de ser feliz,
e o que vier é um extra.
Quando posso arranco os meus bocados
de prazer desta cidade.
Ou seja, quase nunca.
Não dou para o mal,
atalho.
Meus colegas arretam,
tenho cem apelidos.
Não brigo.
São meus amigos.
Nem eu me acostumo comigo.
No ônibus lotado da volta,
evito meu reflexo
no vidro das janelas.
Coisa difícil porque só através delas
é possível olhar a noite poluída
e evitar os rostos sólidos.
Sou o centro das atenções
mais do que se fosse Henry Cavill,
meu irmão do Upside Down
(Como é que o bicho é galego dos olhos azuis
e nasce feio desse jeito? Só Jesus.
é um dos motes que escuto aos montes).
Se evito vitrines,
não vou a shoppings,
que são aquários,
evito shows, estádios, qualquer lugar
que me multiplique com seus olhares.
Não vou quase a nenhum,
refúgios tenho vários.
Namorada é luxo,
e não irritarei ovários
com projetos esdrúxulos.
Filhos. Apuros.
A certeza de que não vou tê-los,
de que não vou contemplá-los,
me alivia o futuro.
Quem se habilitaria?
Alguém, talvez, mas eu, nunca.
As putas, muito profissionais.
Basta não tentar beijar na boca
e pagar pela labuta.
As putas são umas santas.
Encaram cada tranqueira.
Além disso vario
e não é nem só por mim,
é por elas;
para que algum bem me queiram.
De todo jeito o dinheiro
só dá pra uma vez por mês.
Tenho que dar de comer
ao porco do minhaeiro,
aposentadoria é sonho.
Scarlett disse que sou bom,
naturalmente tenho a manha.
Elas esperam eu ter uma rolona
em compensação ou por predisposição
ao desproporcional, ao bisonho.
É uma rola normal,
nada demonstra
da cara do dono.
Scarlett tem uma cicatriz
bem do lado do umbigo
e desenvolveu vitiligo.
Queria ser atriz
ou qualquer espécie de famosa.
Recusada no Big Brother,
aprovada no bordel,
tem fama no bairro onde mora.
Quando me abri para ela
e ofereci meu céu,
com cada astro,
fechou-se em ostra.
Nunca mais abriu a concha.
Por que tu me elogiasse, Scarlett?
Por que me dissesse
teu nome de batismo, prenda rara,
e me desse uma foto três por quatro,
Jussara?
Não é pra dar comida
aos bichos do zoológico,
pipoca aos animais do circo.
Teu elogio matou minha calma,
tua confidência invocou
os demônios do meu cuidado
Eu estava bem sem esperança,
essa ferida não sara,
essa dor não descansa.
Estou na rua da Amargura.
Eu era só um monstro,
agora sou um fantasma.
Mas minha mãe me ama.
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