Tamara Klink - Bom dia, inverno

Livro de viagem
Tamara Klink - Bom dia, inverno - Editora Companhia das Letras - 256 Páginas - Capa e projeto gráfico: Elisa von Randow - Foto de capa: Tamara Klink - Lançamento: 2026.

É impossível não se apaixonar pela beleza, inteligência e pelas ideias dessa jovem navegadora brasileira que passou um inverno sozinha no mar congelado do Ártico, atravessou a Passagem Noroeste em solitário e cruzou o Atlântico duas vezes, também sozinha. De fato, Tamara Klink é um ser humano especial e, para nossa alegria, também escreve com leveza e personalidade, tornando a leitura deste livro um prazer comparável apenas ao que senti com outros diários de viagem, como South, que narra a lendária expedição de Ernest Shackleton à Antártica em 1914, ou Paratii, de Amyr Klink, pai de Tamara, que navegou durante 22 meses, percorrendo 50.000 quilômetros, de 1989 a 1991, dos quais seis passou imobilizado no gelo antártico.

Com apenas 26 anos, Tamara conseguiu, ao longo de oito meses, libertar-se “das necessidades desnecessárias e das urgências que não o são” e descobriu que, apesar da região inóspita onde escolheu realizar sua “invernagem”, poderia estar mais segura do que nas grandes cidades, "sem o risco de ter sua casa ou seu corpo invadidos", além do prazer de precisar agradar apenas a si própria, sem se sentir excluída “por ter útero ou subestimada por ser jovem” e podendo se vestir apenas “para ficar aquecida e confortável ao se deslocar”, sem a necessidade de seguir os padrões de beleza que restringem a liberdade das mulheres, revelando, assim, como o isolamento acabou se transformando em um exercício de liberdade e autoconhecimento.

"Tenho raiva das palavras. Parece que tudo que escrevo é invenção, porque as palavras não são as coisas, são um punhado de manchas e senhas. Os acontecimentos não se parecem com elas, e a experiência muda as definições. Pensava ter tido frio ao navegar até aqui, mas agora duvido dessa lembrança porque o que chamei de frio em julho virou o morno de janeiro. O que chamei de silêncio quando o mar fazia ondas é barulhento perto do som surdo de agora, os ventos 'fortes' da navegação eram mais fracos que os do início do inverno, e 'aproveitar' tem outro sentido. Aproveitar era fazer muitas coisas; agora aproveitar é caminhar, sentar numa pedra, olhar as nuvens passarem. Brigo com a linguagem para guardar os cheiros, os sons, o gosto da água de iceberg ou da água de neve. Mas sou refém, porque só sei organizar lembranças com palavras. Acredito cada vez menos nelas. / Às vezes penso em como viverei depois daqui, depois de passar esses meses conversando sem abrir a boca, sorrindo sem mostrar os dentes, vivendo sem rosto, sem identidade, inventando minha civilização no espaço de um inverno. O que será a vida depois de dar a ela outra definição? De ver que, entre raposas, focas, lagópodes e corvos, sou apenas mais uma mortal? O que será das ruas que abri, das pedras que batizei, das leis que criei  para me sentir segura entre os perigos desse lugar? [...]" (pp. 18-9)

Chamou-me a atenção uma das entrevistas de Tamara, na qual ela afirma que não precisaria ter feito essa viagem para aprender muitas das coisas que veio a descobrir — pois, de alguma forma, elas já estavam dentro dela. Ainda assim, um período prolongado de isolamento, cercada por raposas, focas e outros animais selvagens, além das noites intermináveis do Ártico, certamente favorece uma conexão mais profunda com o próprio interior. Outro ponto de destaque surge quando ela questiona o foco excessivo dado ao colapso climático como uma ameaça futura, lembrando que já existem urgências concretas no presente, não apenas ambientais, embora muito importantes, como a desigualdade social no planeta, que impede muitas pessoas de sonhar com experiências como as que ela viveu.

"Por 26 anos, vivi entre humanos. Outros marinheiros me disseram que seria perigoso viver sem. E é. Mas quando comparo os perigos daqui com os das cidades, me sinto confortável. Com meu bastão de madeira, meço o gelo e estabilizo meus passos. Com o martelo, quebro icebergs e faço água. Com a voz, afasto outros animais. Com a isca e o anzol, atraio comida. Aqui, caminho sem temer ser perseguida. Durmo sem medo de ter minha casa ou meu corpo invadidos. Danço sem medo de ser atacada. Nem fraca, nem forte, pois não há comparação. Corro, brinco, pulo, salto, canto. Não sou excluída por ter útero. Não sou subestimada por ser jovem, ou excluída por não ser. Não sou obrigada a sorrir quando não quero, a agradar quem me desagrada. E não preciso ter superpoderes para obter respeito. Se um dia as falas negativas dos outros me doeram, hoje me fazem lembrar das dificuldades do caminho até aqui. São minha prova de coragem. / E é incrível quanto tempo sobra quando a gente só precisa agradar a si mesma. Quando a gente se veste para ficar aquecida e confortável ao se deslocar, e não para ser bonita. Um dia achei normal as roupas femininas serem desenhadas para limitar nossos movimentos. Com todo um catálogo de artigos para controlar nossos gestos, punha um salto e achava normal que agradar os outros me machucasse." (p. 91)

A narrativa descreve também o difícil planejamento e os obstáculos para a arriscada viagem, assim como a adaptação do pequeno veleiro de aço Sardinha 2, de apenas 10 metros de comprimento, construído por Jacques Le Berre no jardim de sua casa, na Bélgica — embarcação que Tamara conseguiu adquirir apesar do orçamento apertado de que dispunha. Trata-se de uma obra recomendada, não apenas como livro de viagem, mas também por reunir reflexões relevantes sobre as prioridades do nosso tempo, como liberdade, meio ambiente, feminismo e desigualdade social. Afinal, o que é realmente importante para sermos felizes?

"Estou dentro d´água e não dá tempo de pensar em morrer. Só olho para a frente e me agarro em pedaços soltos de gelo, tentando arrastar meu corpo com as mãos. Sinto a água subindo pelas pernas, avançando pelas três camadas de calças e tornando as pernas pesadas, fazendo das botas duas âncoras que me puxam para o fundo. Os pedaços de gelo em que me seguro quebram, o corpo escorrega, mas não há desespero, não há medo, apenas a obstinação absoluta de lutar por cada centímetro, de reconquistar o terreno perdido com toda força que meu corpo tiver. Não haverá depois. A cabeça não para para rebobinar o filme do passado, se concentra somente neste instante. TE TIRA DAQUI. O gelo afunda com o peso das pernas e quanto mais tempo passa, mais molhada fico, mais difícil é sair. Cada segundo, cada centímetro para fora são uma chance de vida a mais. Dou socos no gelo podre em cima de uma pedra, abro buracos onde conseguir me segurar. Centímetro por centímetro, uma mão, a outra, então um cotovelo, e o outro. Me arrasto para cima da pedra, agarrando no gelo e nas ranhuras da rocha. Consigo encostar a cintura, a coxa, e sei que vou conseguir. [...]" (p. 180)

Livro de viagem
Sobre a autora: Tamara Klink já passou um inverno sozinha no mar congelado do Ártico, atravessou a Passagem Noroeste em solitário e cruzou o Atlântico solo duas vezes. Nascida em 1997, em São Paulo, formou-se em arquitetura naval e terrestre pela ENSA Nantes. Já realizou mais de 300 palestras em inglês, português e francês, e é uma voz importante sobre a fragilidade do clima e do gelo marinho. Atualmente, reúne uma das maiores comunidades de vela nas redes sociais, autora de “Mil milhas” (Peirópolis, 2021), “Um mundo em poucas linhas” (Peirópolis, 2021) e “Nós – O Atlântico em solitário” (Companhia das Letras, 2023).

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Bom dia, inverno de Tamara Klink

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