Silviano Santiago - Menino sem passado

Literatura brasileira contemporânea
Silviano Santiago - Menino sem passado (1936-1948) - Editora Companhia das Letras - 464 Páginas - Capa de Alceu Chiesorin Nunes - Imagem de capa: Jean Cocteau © Adagp / Comité Cocteau, Paris [2020] - Lançamento: 22/01/2021.

O mais recente lançamento de Silviano Santiago é o primeiro volume de sua autobiografia, cobrindo o período da infância em Formiga, Minas Gerais, de 1936 a 1948, intervalo coincidente com a Segunda Grande Guerra e a implantação do Estado Novo no Brasil, conhecido como ditadura Vargas. No entanto, é bom que se diga, não encontraremos aqui um livro de memórias tradicional, mas sim uma combinação da prosa ensaísta e de ficção tão característica do estilo do autor, na qual a memória não obedece uma cronologia básica, muito menos uma genealogia biológica. As pessoas retratadas, inclusive o próprio Silviano – chamado de "menino sonâmbulo" – não estão fixadas em seu próprio presente, ou seja, é obtida uma elasticidade ou liberdade narrativa, por meio de constantes saltos temporais, que subdividem o presente em passado e futuro, eliminando a sensação de presentificação.

A primeira parte do livro tem como foco a mãe biológica de Silviano, Noêmia Farnese, que morre no parto de seu irmão caçula Haroldo, quando ele tem apenas ano e meio de idade; uma ausência presente em toda a obra, assim como as figuras que tentam inutilmente substituir essa mãe. Primeiramente, "uma bela e jovem senhora" nascida na Itália, Sofia d'Alessandro, assume a função de guardiã das sete crianças órfãs, principalmente os dois meninos mais novos, e marca profundamente a memória afetiva do autor. Em janeiro de 1943, o viúvo, Sebastião Santiago, se casa com Jurandy Cabral, que adiciona quatro filhos à prole do patriarca mineiro, e a italiana Sofia desaparece sem maiores explicações, teria ela marcado também a memória afetiva do pai de Silviano? Uma evidência do silêncio consentido que existia na pequena cidade mineira, fazendo com que o exercício das memórias se transforme aos poucos em um trabalho de ficção.

"Nos anos em que as tropas aliadas combatem as forças nazifascistas no mundo e os indignados cidadãos e cidadãs brasileiros sabotam a ditadura Vargas, moro na casa mandada construir por meu pai – ou pelo vovô Amarante – no número 31 da rua Barão de Pium-i, em Formiga, na região oeste do estado de Minas Gerais. (...) Devido a perturbações hipertensivas na gravidez, mamãe morre de parto no dia 6 de abril de 1938. (...) Não nos tendo confiado aos padrinhos, o papai emprega uma bela e jovem senhora nascida na Itália – a Sofia – como nossa guardiã. (...) Até fins de 1942, quando completo os seis anos de idade, meu irmão mais novo, o Haroldo, e eu dormimos no quarto da Sofia. Ele, no berço gradeado. Eu, em cama estreita de solteiro. De cabelos ruivos e pele aquecida pelo fogo, a Sofia sobrevive na guarda dos filhos alheios e, tendo à flor da pele a sensibilidade de imigrante, se resguarda de fortes emoções sentimentais. Embora não as espere, não chegaram enquanto morou lá em casa. Como se fosse dublê de esponja empoada de talco Johnson, a Sofia polvilha com destreza e carinho os dois corpinhos rosados e nus, saídos do banho vesperal. Sempre estamos limpos e bem-vestidos, e cheiramos bem." (pp. 13-4)

Como uma compensação pelo luto prematuro, Silviano – "o menino que se fez sonâmbulo para sobreviver em meio inóspito" – começa a ler gibis e assistir a filmes muito cedo, atividades que que lhe conferem uma visão de mundo ampla em oposição às limitações da vida no interior (a família se muda para Belo Horizonte somente em 1948): "Na infância, curtir (o gibi ou o filme) é a forma mais adorável e perversa de reconstruir e amar a vida sem experimentá-la no corpo." Na verdade, em nenhum momento o autor destaca a infância como um momento particularmente extraordinário, este período é apenas uma parte da vida vivida. Todo o texto está impregnado de literatura e citações frequentes a autores como Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Machado de Assis e muitos outros.

Em um dos trechos mais bonitos do livro, Silviano analisa a própria foto quando bebê – aqui é impossível não se identificar e emocionar, porque todos temos uma foto como esta – e lembra da mãe quando afirma: "Só a consigo enxergar em carne e osso se a vejo refletida nos olhos do bebê, fotografado aos quatro meses de idade." O autor explica a origem do pensamento citando o filósofo e crítico francês Roland Barthes: "O que a Fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente". Outro ponto interessante a se destacar é que, analisando outras fotos familiares, verificamos como as figuras femininas, sejam irmãs, mãe ou madrasta, estão sempre excluídas, assim como Etelvina, a tradicional empregada mineira, indispensável no dia a dia da casa, mas sempre anônima e solitária.

"Não há como o pai viúvo saber por onde anda o filho ou a filha quando se responsabiliza sozinho – durante o longo e cansativo dia de trabalho no consultório dentário – por cinco deles e duas delas. Mais tarde – depois de ter feito os quatro filhos do segundo casamento – não poderá saber por onde anda cada um dos onze. Soltos pela cidade, todos e um somos alguém e ninguém. Tendo perdido cedo o leme da mãe, a canoa coletiva e superpopulada dos moradores da rua Barão de Pium-i se reproduz em sete canoinhas, todas com banco individual e remo. À deriva nas ondas do cotidiano, navegam soltas e solitárias pelas ruas da cidade. As duas filhas e os cinco filhos do primeiro casamento somos todos 'bichos do mato' – para usar a antiga expressão familiar. (...) Participamos de maneira cronometrada e ocasional da família nuclear, cuja organização interna será dada e julgada como excêntrica pelos vizinhos. Não lhes tiro a razão. O acaso e sua força centrífuga traçam caminho único e intransferível para um e que serve de parâmetro para todos. Todos e cada um sobrevivemos à fatalidade que nos desconstrói sob a forma de figurinhas humanas soltas, independentes e plenas. Odiamos o desejo de conduzir a própria vida como se fruto dependurado em cacho de bananas ou de uvas." (p. 22)

A relação com o pai – muito diferente da lembrança sentimental da mãe – é conturbada e difícil, como podemos perceber no trecho em destaque abaixo, no qual o pai é comparado a um "patriarca bíblico", com "habilidades de comandante em chefe" e qualidades de "provedor e educador", mas uma educação construída com base na "competição entre filhos e filhas" e, portanto, pouco eficaz no sentido do desenvolvimento humano.

"Inauguro-me no interior de família numerosa, de rotina conturbada. A companhia de estranhos torna-se perfeitamente dispensável na primeiríssima fase da vida. Vivo no quarto de dormir, supervisionado pela Sofia. Sua função é a de velar o recém-nascido e o bebê de ano e meio, aproximando-nos do viúvo, dos cinco outros irmãos e do restante da família materna e paterna. Os vizinhos se existem, e existem às pencas, não me atraem como ímã opcional. Pai é pai. Tão exigente e raivoso quanto o patriarca bíblico. Tem habilidades de comandante em chefe e qualidades de provedor e educador. Sendo como é e se revela, não há razão para se fantasiar de mãe ou abraçar ocasionalmente personalidade e temperamento materno. Pai é pai. Não tem habilidades nem qualidades que lhe permitam atuar como elo afetuoso no congraçamento dos descendentes. O primeiro mandamento da lei do Pai estabelece a competição entre filhos e filhas como fator de sucesso no ofício de se educar e de viver. Convivemos soltos em casa e focados em achaques e reprimendas consequentes ao seu julgamento do trabalho escolar de cada um." (p. 428)

A segunda parte das memórias é dedicada à madrasta Jurandy e descreve a origem da família Cabral no sul de Minas Gerais, uma região politicamente tumultuada e a história da falência do pai de Jurandy, Erasmo Cabral, que foi um grande proprietário de terras e exportador de café. Nesta parte, novas frustrações para o "menino sonâmbulo" que perde a atenção da mãe substituta para o novo primogênito. Neste caso, assim como em outros exemplos na família, "não há transmissão de sangue, há de vivência infeliz". Silviano se identifica com a herança da madrasta que "não é precedida por testamento algum", conforme epígrafe de Hannah Arendt, ou nesta parte: "Ela é a filha do patriarca falido financeiramente; eu o filho da família deserdada pela sorte. Ela e eu somos a imagem dos falidos pelas finanças ou dos deserdados pela morte."

Um livro muito recomendado, que não se enquadra unicamente na categoria de memórias e confirma a importância de Silviano Santiago como um dos nomes mais importantes da literatura contemporânea brasileira.

Sobre o autor: Silviano Santiago nasceu em Formiga (MG), em 1936. Sua vasta obra inclui romances, contos, ensaios literários e culturais. Doutor em letras pela Sorbonne, Silviano começou a carreira lecionando nas melhores universidades norte-americanas. Transferiu-se posteriormente para a PUC-Rio e é, hoje, professor emérito da UFF. Foi cinco vezes premiado com o Jabuti. Pelo conjunto da produção literária, recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras e o José Donoso, do Chile. Mereceu do governo francês a distinção de Officier dans l'Ordre des Arts et Lettres e Chevalier dans l'Ordre des Palmes Académiques. Seus livros estão traduzidos em várias línguas. Silviano vive hoje no Rio de Janeiro.

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