Antônio Xerxenesky - Uma tristeza infinita

Literatura brasileira contemporânea

Antônio Xerxenesky - Uma tristeza infinita - Editora Companhia das Letras - 256 Páginas - Capa: Bloco Gráfico - Imagem de Capa de Célia Euvaldo, óleo sobre tela, 2017 - Lançamento: 2021.

A primeira surpresa neste mais recente lançamento de Antônio Xerxenesky é que a trama do romance, situada no período de 1952 a 1953, portanto logo após o final da Segunda Guerra Mundial, não se passa no Brasil, assim como os personagens não são brasileiros. Nicolas é um jovem psiquiatra francês contratado para trabalhar em uma clínica psiquiátrica próxima de um vilarejo na Suíça, para onde ele se muda com a esposa Anna. No entanto, apesar do afastamento de tempo e espaço, algumas situações podem ser associadas aos problemas contemporâneos da nossa sociedade, como a culpa e a responsabilidade histórica diante de escolhas políticas equivocadas, a busca de tratamento para a depressão, ou melancolia como se chamava na época, e as primeiras soluções farmacológicas que prometiam uma cura impossível, transformando-se no vício que conhecemos hoje.

A inspiração para o livro veio da residência literária oferecida para o autor pela Fundação Jan Michalski em 2017 na pequena localidade de 900 habitantes chamada Montricher no cantão de Vaud, Suíça. Na época, a intenção de Xerxenesky era escrever uma história sobre São Paulo mas, só após o retorno ao Brasil, percebeu que deveria ambientar o romance nesta mesma região. Logo, o hospital psiquiátrico, imaginado por ele, fica ao lado de um bosque no qual o protagonista Nicolas projeta alguns de seus medos decorrentes do próprio estado de depressão, cada vez mais evidente após as conversas com seus pacientes em sessões de terapia que se opõem aos tratamentos à base de eletrochoque da época.

"A enfermeira, desobedecendo às ordens diretas de seu superior, contou Nicolas à esposa Anna, foi até o depósito onde guardavam os objetos pessoais dos pacientes, localizou as sete medalhas e, no silêncio da noite, caminhando sem sapatos pelo assoalho de madeira, voltou e as entregou em um saco de papel pardo. L. puxou uma medalha em forma de estrela e seus olhos se encheram d’água. A enfermeira sorriu. Ele, então, cravou a estrela com toda a força no pescoço. A enfermeira demorou a reagir, de tão estupefata. A estrela girava na pele do paciente, que depois a retirou e voltou a golpear o próprio pescoço, determinado. Ela agarrou o braço dele, mas sua força era ínfima perto daquele soldado. Aos gritos, conseguiu chamar o vigia da clínica, que correu até ela e a ajudou a imobilizar o paciente." (p. 16)

Uma outra surpresa neste romance de Xerxenesky é a riqueza de referências culturais e científicas da época, seja na área da literatura (homenagem ao escritor suíço Robert Walser que foi tratado de esquizofrenia no sanatório de Herisau), física (citações a Einstein, Wolfgang Pauli e Paul Dirac) e, é claro, à psicanálise (Freud e Jung) com destaque para a "crise de fé" dos psicanalistas frente às primeiras drogas contra a depressão, como o diretor da clínica resume bem no diálogo com Nicolas: "Todos os psiquiatras passarão por isso com essa descoberta. Vão achar que serão substituídos por neurocientistas. Que a discussão se restringirá a qual hormônio atua na amígdala. Talvez isso aconteça, de fato. Os psiquiatras medicamentosos serão os novos materialistas, e o nosso Freud será visto da mesma maneira como olhamos para Jung agora, como um charlatão místico. Ninguém pode prever o futuro."

"Como somos cegos, todos nós, horrivelmente cegos, e estúpidos, e burros, Nicolas pensou muitos anos depois, na Suíça, quando se lembrou do pai, de repente, quando se deu conta de que o suicídio era uma causa de morte tão frequente, o que não deveria ser, mas todos somos tristes, terrivelmente tristes, e estamos imersos nessa tristeza infinita, cósmica, uma tristeza do tamanho do universo ou do espaço vazio dentro do átomo, e pensou que pelo menos agora estava na Suíça, estava em um país neutro, em um país imune à história, e que agora estava livre, agora a história não mais o perseguia, a Suíça era a-histórica, atemporal, isolada, blindada, e não percebeu como continuava ingênuo, tão estupidamente ingênuo." (p. 151)

Em contraponto ao tema da psicanálise, Anna, a esposa de Nicolas, passa a trabalhar em Genebra com um grupo de pesquisa, ou conselho nuclear, formado por grandes físicos para discutir a estrutura da matéria, um tema delicado após a Segunda Guerra Mundial e o trauma provocado pelo absurdo e violência das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki. Afastando-se da literatura de gênero, Uma tristeza infinita é uma obra de cunho realista, resultado de intensa pesquisa histórica nas áreas de física e psiquiatria, assim como suportada por diálogos inteligentes e muito bem elaborados, uma ótima recomendação de entretenimento e que também nos ajuda a refletir sobre a necessidade de posicionamento político e a responsabilidade sobre nossas escolhas.

"Foi o que o diretor disse. A imensa maioria da população apoiou Hitler e todos seus correligionários. Claro, ninguém o elegeu para que ele invadisse a Polônia do dia para a noite. Mas todos os seus eleitores sabiam muito bem das posturas racistas e antissemitas de Hitler, afinal, ele nunca tentou escondê-las. Pelo contrário, foi alçado ao poder proclamando seu racismo em qualquer cervejaria. Os alemães não apenas aceitavam isso, como adoravam aqueles discursos. Assim como os austríacos, que celebraram sua chegada com uma grande festa na Praça dos Heróis. E assim como muitos cidadãos suíços, provavelmente, ainda que o país tenha mantido sua neutralidade oficial. Esses suíços aplaudiram seus discursos em silêncio, seguindo suas rotinas ordinárias e jamais reclamando para ninguém, apenas ouvindo as notícias da rádio com um sorriso no rosto. É um fato da vida. E continuam aí, andando pelas ruas, educando seus filhos à sua maneira." (pp. 215-6)

Sobre o autor: Antônio Xerxeneski nasceu em 1984, em Porto Alegre, e radicou-se em São Paulo. Doutor em teoria literária pela USP e tradutor, é autor de, entre outros, F (Editora Rocco, 2014) e As perguntas (Editora Companhia das Letras, 2017). Sua obra foi traduzida para o francês, o espanhol, o italiano e o árabe.

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