Sallié Oliveira - Negro no para-brisa
O mais recente romance de Sallié Oliveira, Negro no para-brisa, nos mostra até onde pode chegar o racismo estrutural em nosso país – uma ideologia que unifica, implícita ou explicitamente, a crença na superioridade branca e justifica e naturaliza a desigualdade. As consequências desse preconceito ancestral contra as pessoas negras manifestam-se não apenas na esfera econômica e social, mas também no acesso desigual aos serviços públicos, principalmente à segurança e à justiça. Na ficção imaginada pelo autor, uma espécie de doença tem início no Brasil quando homens e mulheres de variadas camadas sociais, todas brancas, perdem inexplicavelmente o controle de suas ações e utilizam seus carros para perseguir e atropelar pessoas negras nas ruas.
O argumento imaginado por Sallié Oliveira nessa espécie de distopia social, apesar de muito bem conduzido, é propositalmente irreal ou farsesco; ainda assim as situações vivenciadas por seus personagens, assim como as ações tomadas pelas autoridades ao longo da narrativa, demonstram um processo diário de perpetuação do racismo e exclusão social, infelizmente muito real. É quando o preconceito pode atingir um ponto de irracionalidade e ódio injustificado fora do controle, como destacado por um personagem em certo trecho do livro: "A gente vive em um país que foi construído, e é mantido, por uma base larga odiada pelos que estão acima na pirâmide. A questão é que, sem base, não há pirâmide. O pessoal quer, ao mesmo tempo, depender dessa base e exterminá-la." Essa reflexão resume o absurdo de uma sociedade que pretende excluir a própria estrutura que a sustenta.
"Segundos antes, Júnior havia fixado seu olhar no ônibus do outro lado do cruzamento. Por conta de sua concentração, não percebeu o carro se aproximando. Quando se virou para encará-lo, era tarde demais. Seu corpo subiu ao ar como se içado por uma corda invisível. Caiu desacordado entre as duas faixas. Não ouviu os gritos histéricos dos clientes do bar da esquina. Inconsciente, não percebeu os passos que se aproximavam, desesperados, prontos para prestar qualquer auxílio. Não houve tempo para que erguesse a cabeça, pois o pequeno carro branco voltou a acelerar. Seu motorista, recuperado do primeiro susto, não esperou as pessoas se aproximarem furiosas e questionadoras. Guiou as rodas até o pescoço do desconhecido. Queria ser fatal. O barulho que ouviu embaixo do assento provou que havia conseguido. Era o som de um corpo sendo despedaçado, deixando de ser inteiro." (p. 24)
Um ponto a se destacar é a forma como o autor lidou com o humor em meio a situações violentas, sem comprometer a consistência da narrativa e, ainda assim, mantendo o senso crítico da obra. O tom contemporâneo foi evidenciado pela presença do personagem-influencer Phelipe Mistérios e o posicionamento político de extrema direita de parte da população e de alguns políticos: "O homem parou para beber água. Havia perdido o fôlego. Desde a pandemia do começo dos anos 20, estava assim, exausto. Usara remédios e mais remédios, tanto preventivos como durante os dias em que tivera sintomas graves da doença que matara mais de setecentos mil brasileiros. Vencido pelo próprio corpo, tomou a vacina às escondidas, sem jamais revelar isso publicamente."
"Todos os presos, sem exceção, diziam estar arrependidos e envergonhados. Seus próprios atos os deixaram tão constrangidos que optaram por não serem atendidos por psiquiatras negros. Era o temor de olhar nos olhos deles e assumir que haviam derrubado alguém como eles. Foi em vão que o órgão público tentou intervir, definindo essa preferência como discriminatória: o profissional chamado para atendê-los lidava com homens e mulheres lhes pedindo desculpas sem parar; depois, calavam-se definitivamente. Após a confissão dos motoristas encarcerados, o Brasil não teve outra saída — teve que assumir ser o nascedouro de uma doença. O governo, os cientistas e a mídia não sabiam como ela se espalhava, quais eram seus sintomas ou como curá-la, mas sabiam e precisaram comunicar a sua população. O mundo precisava saber que o país tropical, berço do samba e da MPB, exportador da bossa nova e do funk carioca, acabava de originar também uma peste misteriosa que tinha seus infectados obcecados pela ideia do corpo negro no para-brisa." (p. 122)
A conclusão do livro é surpreendente e convincente, reforçando, na forma de metáfora, como pessoas negras precisam seguir algum tipo de protocolo de sobrevivência para escapar das ameaças diárias em um contexto político e social adverso. Trata-se de uma herança histórica que a sociedade brasileira prefere ignorar (apesar de todas as evidências em contrário) ou, ainda pior, perpetuar por muitas gerações no futuro. Com este romance, Sallié Oliveira tenta nos chamar a atenção para uma doença que não é a dos atropelamentos inexplicáveis — essa permanece no campo da ficção. A verdadeira doença que ele quer destacar é de caráter cultural que precisa ser tratada com urgência se quisermos evoluir como indivíduos e como nação.
"A guerra civil estava declarada. Diretamente, com essas exatas palavras. Ainda hoje, é possível ir aos perfis públicos de diversos participantes dessas manifestações e ler frases emocionadas que chamavam os amigos virtuais, a família e os vizinhos à batalha. Muitos outros apagaram tais vestígios, uma vez que descobriram que declarar guerra ao Estado é crime no Brasil. Verdade seja dita: o País não sabia o que fazer com seus carros e com seus motoristas. A paralisação dos primeiros dias até funcionou sob as restrições impostas e as novas regras de locomoção pela cidade — apenas transporte público dirigido por pessoas autodeclaradas não-brancas, que levaram e trouxeram os prestadores de serviço essenciais para seus postos de trabalho —, mas os condutores afastados de seus veículos ficaram perigosamente insatisfeitos. Entre as principais reclamações, estava a de que haviam lutado muito para conquistar aquela peça de seu patrimônio e agora não poderiam usufruí-la. Muitos debateram que não eram monstros ou assassinos, não eram preconceituosos ou racistas para que o governo imputasse sobre eles essa pré-acusação, impedindo-os de tirar seus carros da garagem." (p. 165)
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