Dau Bastos - Manobras de Retorno
O mais recente lançamento de Dau Bastos, "Manobras de Retorno", é uma coletânea de cinco longos contos, praticamente novelas, que abordam diferentes cenários políticos nos últimos cinquenta anos da história do Brasil. As narrativas tratam temas sérios com humor e ironia, evitando que o engajamento político reduza a obra a um tom meramente panfletário. O autor mescla ficção e fatos históricos reais, tendo como tema comum a influência do regime militar em nosso país e as tentativas de resgate desse regime. Alguns personagens são facilmente identificáveis em tramas golpistas recentes, como o impagável general vice-presidente em "Vice não voga".
Já o conto de abertura, "Camicase", é narrado em primeira pessoa por uma corajosa guerrilheira sequestrada na década de 1970, durante a fase mais crítica de repressão dos militares, que é mantida em um cativeiro não oficial por um misterioso algoz com rompantes de fervor religioso. Na sequência, a fase de abertura política é o cenário de "Viva a Abertura!" no qual um grupo de universitários na cidade de Recife, Pernambuco, tenta encenar uma peça engajada. Os planos são interrompidos devido à morte de uma colega por consumo de droga e o escândalo gerado por um inescrupuloso jornal local que faz sensacionalismo com a liberdade sexual dos jovens.
"O toque e inicial foi macio, como se a mão, claramente masculina, tivesse intimidade com minhas costas. Mas a pressão dos dedos longos aumentou até deixar claro que se tratava de captura. Paralelamente, veio a voz a sussurrar que não olhasse para trás e seguisse, sem alarde, misturada à multidão. A quentura da respiração chegava a meus ouvidos, em tal proximidade que podia passar por sensual mas indicava que tentar escapar seria apressar o fim. / Procurei me fixar nas pessoas à frente, de modo a encontrar brechas por onde me deslocar com mais facilidade. No entanto, minha mente se concentrava sobretudo na certeza de que meu acompanhante estava armado. Quando se trata de reforçar o próprio poder, a engenhosidade humana realmente impressiona: um cano de diâmetro mínimo deixa passar uma balinha de nada, porém indefensável e letal — portanto, basta portar o instrumento para neutralizar o adversário." (p. 7) - Trecho do conto "Camicase"
"A viagem da boina" é uma sensível homenagem a Caio Fernando Abreu, transformando em ficção uma passagem do saudoso escritor gaúcho por Santa Teresa, no Rio de Janeiro, e uma viagem ao interior feita com três amigos num fusca, interrompida por uma batida militar e por um sargento boa-praça que teria inspirado o conto "Sargento Getúlio", de Caio. O texto que finaliza a coletânea é uma experimentação, tanto em termos de conteúdo quanto de forma, em homenagem a Louis-Ferdinand Céline — autor de que Dau Bastos é especialista —, uma verdadeira ode ao pessimismo e ao fracasso da condição humana, bem ao estilo do homenageado.
"Lacrimeja só de imaginar que, já na reserva e com um pé na terceira idade — situação que muito cretino se permite saudar com piadinha envolvendo pijama —, tem diante de si a possibilidade de desempenhar a sua missão mais importante. Tão logo ocorra o impeachment, iniciará campanha para que todos os brasileiros se coloquem na boa via. Da mesma forma que na década de setenta a eletricidade e a televisão conectaram o território nacional, usará a internet para fazer os habitantes dos mais distantes rincões adquirirem hábitos saudáveis, como hastear bandeira e cantar hinos, a começar pelo da Independência. / Pena que êxtase algum resista a toque de celular. Até mesmo o som de corneta de seu equipamento lhe parece irritante e inoportuno neste momento especial. Emite um esgar de aborrecimento, que transforma plenamente em careta ao ver, pelo nome do contato, que se trata do tal. Respira o mais profundamente que pode, enxuga os olhos, varre da cabeça o enlevo e solta um pigarro para limpar a garganta, então aperta o sinal verde do aparelho e pronuncia um 'pois não, presidente' positivo e respeitoso." (p. 79) - Trecho do conto "Vice não voga"
A ficção de Dau Bastos é um alerta para que possamos aprender com os erros do passado e, assim, construir uma sociedade mais justa. Afinal, a literatura tem a capacidade de iluminar áreas obscuras da nossa história recente e de questionar, com inteligência e sensibilidade, os rumos do país. A realidade, por sua vez, sempre pode surpreender com a arrogância e a falsa certeza que tantas vezes acompanham a ignorância, forçando-nos a um exercício constante de preservação da memória e de vigilância crítica, bem como à reflexão sobre a responsabilidade de preservar os valores democráticos. Um livro recomendado em um momento muito oportuno.
"Agora me diga: que faz o autor destas páginas?... quebra a sentença! o pensamento! com interjeições e reticências!... Será futurista? cubista? enfim, experimental?... que nada! copiador descarado!... age como aluno dessas demências chamadas oficinas de escrita criativa!... não vai além do exercício de estilo!... E sabe o que consegue?... o contrário do efeito alcançado por meus escritos!... Aqui, minhas descobertas viram cristais!... Lei da imitação! do maneirismo!... o êxito depende do engessamento do predecessor! da anulação da nova autoria!... É o fim! Mas me vingo!... / Como, perguntará o leitor, se tou mortinho da silva?... É que também burilei! facetei! poli!... e não somente textos!... biografia! imagem! persona!... Impossível me invocar sem que eu surja inteiriço! monolítico!... Como se trata de ficção, nem sempre consigo impor a verdade!... entre um fato e outro, eis meu arremedador criando pontes falsas!... chegou a me pintar de desertor!... patranha deslavada!... Outro absurdo é me mostrar mais exclamativo do que fui!... como se me atualizasse! pós-modernizasse!... sei!... me faz apoplético, pra queimar de vez meu filme!... [...]" (p. 115-6) - Trecho do conto "O toró de Céline"
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