Dau Bastos - Morte certa

Literatura brasileira contemporânea
Dau Bastos - Morte certa - Editora Patuá - 276 Páginas
Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação: Leonardo Mathias - Lançamento: 2021.

Em certo ponto do romance, Dau Bastos define a importância das plantações de cana na nossa identidade como nação, destacando a versatilidade do vegetal que se transforma em açúcar, cachaça e combustível e a sua capacidade de oferecer, respectivamente, doçura, animação e energia. Contudo, um cultivo que, apesar da suposta importância econômica, está diretamente associado à escravidão, miséria e morte. A recente mudança da cana para a pecuária representa um problema ainda maior que é prenunciado pelo "sumiço tanto de vegetação quanto de gente", a aproximação do sertão até a "desertificação fatal da zona da mata".

Este é o contexto do romance Morte certa, situado na zona canavieira alagoana no final dos anos 80 e início dos anos 90, época do processo de impeachment do ex-presidente Fernando Collor e da falência generalizada dos donos de terra após uma fase de prosperidade artificial, originada pela crise do petróleo a partir de 1973 e a criação do Proálcool em 1975, programa que alavancou o desenvolvimento das regiões produtoras de cana de açúcar em várias regiões do país, apesar dos impactos socioambientais, ou seja, destruição da natureza e trabalhadores rurais migrando para os subempregos nas cidades devido à tecnificação do processo.

"O misto de rua e rodovia parece uma ferida larga e amarelecida, em cujas laterais um líquido escuro e fedorento serve de divisória em relação à área onde um dia talvez se construam calçadas. Aqui e ali, veem-se canas caídas dos caminhões se decompondo sob o sol abrasador. O aspecto de monturo é reforçado por sacos plásticos rasgados e vazios que, desobrigados da função de embalar diferentes produtos industrializados, parecem aguardar que o vento os salve da sarjeta. Imagino a quantidade de gente com doenças respiratórias, causadas pela poeira levantada pelos carros. Para mim, viver nestas condições seria morte certa. Os ex-moradores postados na frente dos casebres acenam, sorriem, às vezes pulam o esgoto e se aproximam para o aperto de mão. Após passarmos, comentam com os vizinhos, demitidos de outras fazendas. Fora de propriedade alheia, parecem menos cabisbaixos, com direito a mirar o mundo, uns poucos a me lançarem até uma expressão sutilmente desafiadora" - Trecho da parte 1 - Espólio (p. 18)

Doro, o narrador e protagonista, se autodefine como um homem "fraco, frouxo e facilmente corrompível", uma fraqueza incompatível com o padrão machista tradicional da sociedade nordestina. Ele retorna ao que restou da fazenda Cacimbinhas, propriedade da família Baraúna, após a morte do pai, este sim um legítimo representante da misoginia local, que "gastou os últimos anos em bacanais e bebedeiras tão dispendiosos que, para quitá-los, precisou vender nacos cada vez maiores da fazenda." Doro passa por uma crise pessoal devido ao final do seu relacionamento com Paula, assumindo a sua condição de "corno" com resignação.

As personagens femininas são fortes também, a começar pela mãe do protagonista, cuja morte precoce foi certamente provocada por uma vida de submissão às vontades do marido, mas sempre com uma visão humanista sobre os empregados: "Mamãe achava perfeitamente natural que poucos fossem patrões e muitos, empregados. Todavia, não sentia prazer com o sofrimento alheio e, até mesmo ao apertar as aprendizes de dona de casa, achava-se fazendo o bem. Os moradores a sabiam bem-intecionada e, como a viam igual na condição de vítima a procuravam para desabafar e pedir ajuda."

"Ao longo de 32 anos de existência, encontrei muita gente que, abrindo ou não a boca, se mostrou surpresa de eu conseguir sobreviver e incomodada com minha insegurança. Com exceção de mamãe (que não se permitia questionamentos a meu respeito e de Paula (que adorava dispor de um parceiro completamente anulado), as pessoas parecem esperar comportamentos para os quais meu pântano interior não oferece qualquer base. Os cinco anos de curso de psicologia e os dois semestres de terapia em grupo não me ajudaram a criar qualquer alicerce. Dói admitir, mas meu ex-sogro tem razão de me chamar de bolha. Em meio às intermináveis indagações sobre os motivos de eu ser assim, persiste a confusa hipótese de que me porto diante do gênero humano com o mesmo servilismo com que mamãe tratava o marido. Soubesse ela canalizar a coragem de que dispunha, teria rompido as garras da formação patriarcal e guerreado também na cama, tendo como trunfo não o afã de limpeza, e sim a força dos condimentos. Mas como, se a firmeza com que enfrentava a vida prática tinha como contrapartida a trava na esfera sexual?" - Trecho da parte 2 - Inventário (p. 93)

Aos poucos, Doro passa a conhecer a história do casal Zê e Zero, vindo de Pernambuco, personagens que citam Dom Hélder e Miguel Arraes em um trabalho de alfabetização com os trabalhadores da fazenda na "casa de farinha". Em contraponto, Jacinto é um personagem que defende o patrão e seus interesses, gerando um conflito resultante das desigualdades sociais. Um romance que apresenta uma voz narrativa bem construída e convincente nas suas próprias fraquezas e contradições, resgatando a força e importância da literatura regionalista.

"Em pouco tempo, a casa de farinha resplandecia à luz dos candeeiros e do fogo que outrora seus habitantes acendiam para cozinhar. A sessão se iniciava com umas poucas notícias sobre bicos passageiros e outros meios buscados pelos desempregados para ir levando. Passava ao arrolamento de aves, cereais, frutas e demais itens trazidos pelos moradores para a Vaquinha da Solidariedade. Finalmente se atinha à discussão propriamente dita, que certa noite incluiu a cogitação de fazer greve, mas nela não se demorou, pois havia tanta mão de obra que, ao menor movimento de os empregados restantes cruzarem os braços, pai os mandaria embora e passaria a fazer como a maioria dos fazendeiros, que contratavam apenas boias-frias." - Trecho da parte 3 - Quinhão (p. 166)

Sobre o autor: Dau Bastos nasceu em 1960, na cidade de Maceió. É professor de literatura brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde mantém a oficina Contos do Fundão. Tem, entre seus livros, a tese Céline e a ruína do Velho Mundo (EdUERJ, 2003) e a biografia Machado de Assis – num recanto, um mundo inteiro (Garamond, 2008). Dedicado sobretudo à produção de narrativas, lançou Das trips, coração (Marco Zero, 1984), Snif (Marco Zero, 1987), Clandestinos na América (Relume Dumará, 2005) e Reima (Record, 2009). O romance que o leitor tem em mãos forma, juntamente com Mar Negro (Ponteio, 2014) e Espiral (Ponteio, 2017), o que o autor chama de trilogia alagoana, resultante do esforço de recriar ficcionalmente suas raízes, situadas entre o litoral e o agreste.

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