A fina flor de Stanislaw Ponte Preta

Crônicas
A fina flor de Stanislaw Ponte Preta - Seleção e apresentação de Alvaro Costa e Silva
Editora Companhia das Letras - 360 Páginas - Capa de Mateus Valadares - Lançamento: 2021.

O brasileiro é um craque na arte de escrever crônicas, fato comprovado pelas gerações de grandes escritores que se tornaram mestres no gênero em todas as épocas, tais como: Machado de Assis, João do Rio, Lima Barreto, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Rubem Braga, Rachel de Queiroz, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Nelson Rodrigues, Millôr Fernandes, João Ubaldo Ribeiro e Luis Fernando Verissimo, para citar apenas alguns nomes mais conhecidos.

Neste time há um lugar garantido para Sérgio Porto (1923-1968) ou, como ficou conhecido, Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo inspirado no personagem Serafim Ponte Grande de Oswald de Andrade; dono de um estilo sintetizado no seu Febeapá: "Festival de Besteiras que Assola o País", uma coleção de crônicas irreverentes e de teor anedótico, bem ao gosto do público carioca, mas que continham também sérias críticas sociais e políticas, principalmente ao regime militar instaurado em 1964.

A antologia reúne uma seleção de textos de Stanislaw Ponte Preta a partir dos livros: Tial Zulmira e eu (1961), Primo Altamirando e elas (1962), Rosamundo e os outros (1963), Garoto linha-dura (1964), Febeabá 1, 2 e 3 (1966/7/8) e Bola na rede (1993). Não satisfeito em criar um personagem para assinar as crônicas, preservando o seu nome para trabalhos pretensamente mais "sérios", Sérgio Porto acabou expandindo a família Ponte Preta com outras figuras inesquecíveis como a Tia Zulmira, o primo Altamirando e Rosamundo.

"Ainda vai chegar o dia em que o Rio será agraciado com o título de 'Cidade Boteco'. Dia em que, para saber quantas esquinas tem uma rua, bastará saber quantos botequins existem nela, pois haverá um botequim em cada esquina. Mas o que é mais lamentável: é nesses botequins, geralmente infectos, onde estão instalados os lavatórios mais incrivelmente sujos do mundo, que a grande maioria dos cariocas mata a fome. Você aí já reparou que enormidade de porcarias vendem os botecos do Rio? Empadinhas de um remoto camarão, pastéis de onde escorre uma banha que o próprio porco recusaria admitir a paternidade, pudins de pão (feito com o miolo rejeitado pelos fregueses da véspera), aquele doce  chamado 'sonho' mas que, comido num balcão de botequim, pode transformar-se em terrível pesadelo, bolinhos de carne, biscoitos, rosquinhas, cocadas, tudo de procedência suspeita!" (p. 112) "Coma e emagreça" de Primo Altamarindo e elas (1962)

A sábia tia Zulmira, ex-condessa prussiana, ex-vedete do Follies Bergère e mestre em literatura francesa na Sorbonne, funcionava como alter ego de Sérgio Porto para entender a alma carioca, valendo-se de humor e senso crítico, como destacou Alvaro Costa e Silva na apresentação. Já o primo Altamirando era um "esplêndido marginal" aos quinze anos e foi expulso do jardim de infância aos cinco anos quando a professora o flagrou no recreio falando mal de são Francisco de Assis, na descrição do autor: "nasceu no ano da desgraça de 1926. Para que vocês tenham uma ideia de como foi diferente o ano de 1926, basta lembrar que, nesse ano, o São Cristóvão foi campeão carioca."

"Da janela eu vejo os garotos no pátio do colégio, durante o recreio. Sempre me dá uma certa saudade, porque eu já fui menino. Aliás, embora pareça incrível, até mesmo pessoas como o sr. Jânio Quadros ou d. Hélder Câmara ou mesmo a veneranda Tia Zulmira já foram crianças. O importante é não deixar nunca que o menino morra completamente dentro da gente [...] Pouco a pouco os meninos vão retornando para suas salas, pelas mesmas portas por onde saíram. O padre ficou sozinho no pátio. Caminhou até a bola e colocou-a outra vez debaixo do braço, sempre com um ar sério e compenetrado. Eu já estava a pensar que ele era desses que deixaram de ser meninos para sempre, quando ele me surpreende. Olha para os lados, certifica-se de que está sozinho no recreio e então joga a bola para o ar, controla no peito e deixa a bichinha rolar para o chão. Levanta a batina e sai veloz pela ponta, dribla um zagueiro imaginário e, na corrida, emenda no canto, inaugurando o marcador." (p. 158) "Gol de padre" de Rosamundo e os outros (1963)

Embora algumas das crônicas possam ser consideradas hoje politicamente incorretas, devido à postura machista da época, a maioria continua pertinente, até mesmo porque muitas das mazelas do Rio de Janeiro permaneceram ou até mesmo se agravaram, como a desigualdade social e o eterno festival de besteiras – cada vez maior diga-se de passagem – que assola o nosso pobre país. Uma ótima oportunidade para conhecer o estilo "lírico-espinafrativo" de Stanislaw Ponte Preta e um pouco da história do Rio de Janeiro nas décadas de 1950 e 1960. Imperdível.

"Há conversas que surgem numa mesa de bar que dão perfeitamente para derrubar qualquer Freud num divã de psicanalista. É claro que não estou me referindo a conversa de bêbado, pois conversa de bêbado não tem dono. Refiro-me a essas conversas de bar, de tardinha, onde vão os bebedores de chope ou uísque fraquinho, todos sentados mais pelo prazer do convívio do que pelo vício de bebericar. [...] Na mesa de um bar onde se reúnem bebedores verpestinos, vão sentando uns, levantando outros; às vezes a roda é grande, depois diminui, para aumentar meia hora depois. Acontece que essa gente que molha o bico ao cair da noite nunca tem pressa em seus assuntos, nunca mistura conversa: fala pouco, porque são bebedores e não bêbados. A única coisa que pode perturbar um pouquinho é mulher, quando entra ou quando passa em frente ao bar." (p. 293) "O cego de Botafogo" de Febeapá 2 (1967)

Sobre o autor: Sérgio Porto nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e morreu na mesma cidade em 1968. Foi cronista, radialista, compositor, homem de teatro e TV. Conhecido nacionalmente por meio do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou, além de Febeapá, coletâneas de crônicas, textos sobre futebol, entre outros. Dele, a Editora Companhia das Letras publicou O homem ao lado (2014), Febeapá (2015), a coletânea Éramos mais felizes aos domingos (2015) e As cariocas (2020).

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