Clara Averbuck - Sim, nós estamos com raiva

Literatura brasileira contemporânea
Clara Averbuck - Sim, nós estamos com raiva - Editora Patuá - 216 Páginas
Arte de Capa e Ilustrações: Eva Uviedo - Lançamento: 2026.

O mais recente lançamento de Clara Averbuck, após um afastamento de dez anos do mercado editorial, reúne uma coletânea de crônicas centradas em experiências pessoais relacionadas ao feminismo e associadas às questões de gênero, raça e desigualdade social. Não se trata de uma obra de caráter teórico ou ensaístico, na linha de autoras como Gloria Jean Watkins (bell hooks) ou Grada Kilomba. Mantendo o estilo que a consagrou desde os textos publicados em blogs no final dos anos 1990 e, posteriormente, no romance Máquina de Pinball, em 2002, a autora recorre a uma linguagem coloquial, direta e explícita, sem a preocupação de adequar seu discurso às expectativas da crítica literária, o que confere força e espontaneidade aos textos.

Dividido em quatro partes, intituladas 'Faísca', 'Brasa', 'Chama' e 'Incêndio', o livro organiza crônicas que se tornam progressivamente mais raivosas, partindo da adolescência da autora em Porto Alegre, antes de se mudar para São Paulo, enfrentando os primeiros desafios para conquistar o seu lugar no mundo, dominado por uma sociedade patriarcal que insiste em classificar os seus livros como "literatura feminina", quando tudo o que ela deseja é ser reconhecida como escritora. Ao longo do amadurecimento, a indignação se transforma em raiva, que Clara usa como combustível para incendiar os preconceitos: "a raiva tem que ser uma força motriz e um agente de mudança, não um fogo sem controle, senão acabamos por nos autoimolar."

"Já fui uma mulher que dizia querer ser um homem sem perceber que o que eu queria era a liberdade deles. Eu afastava as outras mulheres e execreva o que me era apresentado como feminino, posto que não me contemplava, não tinha nada a ver comigo. Mal sabia eu que não tinha a ver com o indivíduo, e sim com a construção da mulher, essa ideia errada de que devemos seguir um padrão preestabelecido com o que esperam de nós, e não com o que realmente somos ou almejamos ser. / Minha mãe dizia: 'Não seja como as outras'. Eu entendia isso de uma forma pessoal, mas sei que o que ela queria dizer era: 'Não precisa seguir esse modelo, você pode ser o que quiser'. / Fui mesmo. Virei. O que eu quis." (p. 25)

O conceito de feminismo é frequentemente ridicularizado, razão pela qual as crônicas de Clara Averbuck se tornam uma leitura importante para homens e mulheres. Como afirma a autora: "o feminismo é uma luta contra um sistema opressor. Não é o 'contrário' de machismo, que é um sistema de opressão; é uma reação a esse sistema." Eu mesmo tenho de confessar que me surpreendi com alguns textos ao me identificar em pequenas ciladas do cotidiano, relacionadas à objetificação do corpo feminino. Um exemplo é o hábito aparentemente inocente de elogiar uma mulher que perdeu peso e parece "estar mais bonita" segundo padrões estéticos difundidos pela indústria da dieta, uma cultura que a autora identifica como mais um dos diversos mecanismos de controle sobre as mulheres.

"Feminismo não prega ódio, feminismo não prega a dominação das mulheres sobre os homens. Feminismo clama por igualidade, pelo fim da dominação de um gênero sobre outro. Feminismo não é o contrário de machismo, Machismo é um sistema de dominação. Feminismo é uma luta por direitos iguais. [...] Feminismo não tem nada a ver com deixar de usar batom, salto ou dar de quatro. Feminismo não tem nada a ver com ser inimiga dos homens. Feminismo não tem nada a ver com esconder o corpo; muito pelo contrário, exigimos o direito de andar com a roupa que bem entendermos, sem assédio ou constrangimentos. Feminismo não tem nada a ver com morrer solteira de bigode (mas se quiser, pode). Feminismo não tem nada a ver com não ter filhos, e simcom a escolha de como e quando esses filhos virão, e se virão. Feminismo não tem nada a vr com não ser feminina. E nem com ser." (pp. 49-50)

O livro é também uma forma de alívio e acolhimento para mulheres que convivem diariamente com abusos, violência, preconceito e discriminações. Ao compartilhar suas experiências e reflexões, Clara Averbuck transforma vivências individuais em uma narrativa coletiva, na qual muitas leitoras poderão se reconhecer. A autora destaca que essas opressões são amplificadas pela desigualdade social e pelo racismo estrutural que atravessam a nossa sociedade, tornando ainda mais difícil a luta por direitos. A raiva é, portanto, justificada e necessária, da faísca ao incêndio.

"Somos ensinadas que não estamos completas sem um amor, sem a outra metade, a tal da tampa da panela, da metade da laranja. E muitas vezes acabamos aceitando o inaceitável em nome disso. Repito: mesmo as mulheres mais independentes, esclarecidas, com mil livros na cabeça e na cabeceira, carreira e contas bancárias sólidas, mesmo essas não estão livrs disso. É uma questão estrutural. É algo que está muito entranhado em nossas construções. / Não estou falando que todos os homens são monstros e nem que devemos fugir deles e viver solteiras para sempre. Amar é bom, relacionamentos podem ser saudáveis, ainda que complicados, mas temos que estar atentas a essa construção de amor romântico que nos anula. Na verdade, de onde vejo, acho que muitos deles são vítimas de uma construção de masculinidade tóxica que execra o feminino e é calcada em violência e dominação. Não sabem sequer nomear seus sentimentos e viram uns deficientes emocionais, que não sabem lidar com os sentimentos sem ser de formas violentas. Porém, mesmo eles sendo vítimas dessa masculinidade, quem paga o preço alto somos nós, mulheres." (pp. 79-80)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre a autora: Clara Averbuck publicou seu primeiro livro aos 22 anos, achando que sabia das coisas. Ao longo de quase três décadas, sua trajetória se funde com as transformações dos modos de escrever e publicar no Brasil. Passou a vida contando histórias de mulheres que não cabiam nas regras e descobriu, no caminho, que a raiva é uma excelente matéria-prima. Mora com seis gatos resgatados no centro de São Paulo e carrega uma teimosia de gerações. Este é seu décimo livro. Mandou avisar que pretende escrever mais dez ou vinte.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Sim, nós estamos com raiva de Clara Averbuck

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