Daniel Temp - Kuala Lumpur
O romance de estreia de Daniel Temp, Kuala Lumpur, desenvolve-se a partir das reflexões existencialistas de Benjamim Abel, um jovem recém-graduado em Direito que recebe sua primeira incumbência profissional em um caso de pouca expressão no escritório: atuar como assistente da acusação na investigação do desaparecimento de Venâncio Garcez, estudante de 19 anos da cidade de Santa Maria (RS). Ao combinar essa trama investigativa com questionamentos de ordem filosófica, o autor mobiliza sua sólida formação acadêmica em Filosofia, construída na Universidade Federal de Santa Maria, para compor uma narrativa reflexiva que, sem abrir mão do entretenimento, mantém o leitor envolvido pelo suspense e pelo mistério.
Benjamim atravessa uma fase que ele próprio descreve como uma espécie de "confusão melancólica". Após dois anos atuando como estagiário em um escritório de advocacia e depois de fracassar na seleção para a carreira diplomática, na qual investira grande parte de seu tempo e de suas expectativas, ele passa a questionar suas escolhas profissionais e o próprio futuro. Seu primeiro caso é tratado pelos demais membros do escritório como uma investigação simples: pertences pessoais do jovem desaparecido foram encontrados em poder de Ariosto de Souza Daitinha, apontado como principal suspeito por possuir antecedentes policiais e manter antigas desavenças com a família de Venâncio em razão de disputas de terras.
"É certo que a iminência de assumir um novo posto, bem como a experiência iniciática que sempre subjaz ao começo de um renovado ciclo, possuíam ambas seu quinhão de responsabilidade, digamos, no estado de ansiosa solicitude em que se encontrava nosso personagem. Ainda assim, nunca é demais enfatizar que sua 'confusão melancólica' não era outra coisa senão isso: um estado duradouro de dispersão e torpor em que todas as coisas pareciam embaralhadas, um estado de espírito permanente e muito pessoal que se reafirmava sempre de novo nas mais variegadas situações, sejam elas tomadas como problemas em particular, sejam consideradas juntas numa só confusão como um todo. Assim, os males do dia, o nervosismo diante do primeiro emprego, a lembrança abrupta da namoradinha ou o recente insucesso na prova para ingressar na carreira diplomática, em suma, qualquer mínima contrariedade ou revés que Benjamim experimentasse prontamente evocava essa triste e quase instintiva confusão que sentia diante das coisas." (p. 32)
No entanto, à medida que as investigações avançam, Benjamim encontra indícios que apontam para caminhos distintos daqueles inicialmente considerados pelas autoridades, especialmente no que diz respeito à relação de Venâncio com Nathaniel Moritzen, um religioso ligado a uma enigmática congregação. Paralelamente, o agravamento da doença fatal de seu melhor amigo aprofunda sua já intensa crise existencial, levando-o a confrontar questões relacionadas à perda, à finitude e ao sentido da própria vida. Em meio a esse cenário de incertezas, surge uma jovem que desperta seu interesse afetivo e oferece um raro contraponto às suas angústias.
"E então notou que estava diante de uma pequena coincidência: lembrava que outrora, numa ocasião particular, já se deparara com aquele nome enigmático. Contente perante o alinhamento inesperado das coisas, deixou-se levar pela imaginação, e então por um instante acreditou que, após passar na prova e tornar-se diplomata, a sua primeira missão se daria na embaixada brasileira em Kuala Lumpur. Entregue ao sonho, sentia como se seu próprio futuro fizesse uma abrupta curva em direção ao Oriente. Era como se, de repente, o porvir e todos os seus amanhãs se deslocassem rumo ao quadrante oriental e estacassem apontando a região que verte os astros: doravante mirariam sem cessar aquelas terras distantes e misteriosas. Benjamim vislumbrava em sonho a promessa de um mundo novo, porém sem esperanças, a exemplo de uma bússola que tivesse o leste por norte, pareciam realmente orientar-se na direção de um mundo até então impensado e desconhecido, um mundo cuja novidade e estranheza, no entanto, sussuravam-lhe ao pé do ouvido uma lembrança quase imemorial, o resgate de um vínculo que bem poderia ser contado dentre aquelas recordações primeiras, que jazem apagadas e quietas, quase completamente esquecidas." (pp. 58-9)
O destaque da obra está na articulação entre o tom filosófico e a estrutura de investigação policial. Sem descuidar da dimensão emocional da narrativa, Daniel Temp explora a solidão de Benjamim, suas incertezas em relação ao futuro e as transformações provocadas pelos encontros e perdas ao longo da vida. Esse equilíbrio permite que o leitor acompanhe o desenrolar do mistério ao mesmo tempo que é conduzido a refletir sobre questões existenciais relacionadas às expectativas, às frustrações e ao sentido da própria experiência humana. O resultado é um romance que equilibra suspense investigativo e a reflexão filosófica, sem comprometer o ritmo da narrativa.
"Na pasta, havia ainda outras folhas esparsas, todas documentos do inquérito já instaurado, que acrescentavam alguns pormenores à história. Ao que constava, pouco depois do pai de Venâncio ter registrado o boletim de ocorrência, a polícia localizara o fusca do rapaz estacionado nos arredores de um bar; dentro do veículo, que não se encontrava trancado, foram encontrados alguns pertences, dentre eles uma carteira com dinheiro e um revólver de cano curto, carregado, que conforme o pai confirmara mais tarde, era uma das armas da família. A polícia descobrira ainda que, por volta das 20 horas, Venâncio havia estado no bar: comprara um maço de marlboro vermelho e logo após deixara o local. Por intermédio do depoimento do dono do bar, soube-se que pouco depois, por volta das 20h45, estivera no local Ariosto de Souza Daitinha, o homem com quem a família de Venâncio não se dava. De acordo com o dono do bar, Ariosto parecia um pouco alterado, e não descarta que pudesse ter tomado alguma coisa; para os outros frequentadores do bar, ele teria se vangloriado de um cordão com um crucifixo que trazia enrolado no punho, aparentemente uma peça banhada em ouro e com alguns detalhes em prata. Em nenhum momento explicara onde a conseguira. Ficara no estabelecimento até umas 21 horas e 20 minutos; nesse meio tempo, tomara dois martelinhos de cachaça e uma lata de cerveja, pagos em dinheiro." (pp.79-80)
Sobre o autor: Daniel Temp nasceu no interior do Rio Grande do Sul em 1993. Estreou como romancista em 2024 com Kuala Lumpur. Graduou-se em Licenciatura em Filosofia (2015), obteve seu Mestrado (2017) e concluiu o Doutorado em Filosofia (2021), todos os títulos pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Como autor acadêmico, seus escritos constam em periódicos universitários e anais de pesquisa.
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