Angelo Lemos - A vida é um hotel dentro de um cemitério construído por deus
A vida é muito breve como bem sabemos e isso fica evidente no título e nos poemas do mais recente lançamento de Angelo Lemos. Nada mais apropriado para representar uma estadia passageira do que um hotel e não há metáfora melhor para a finitude da morte do que um cemitério. Com um estilo direto que remete em alguns momentos à crueza de Charles Bukowski e em outros à simplicidade dos versos curtos e bem-humorados que me fazem lembrar de expoentes da geração mimeógrafo no Brasil dos anos 1970, como Cacaso e Paulo Leminski, o autor fala de amor, perdas e dos erros da juventude na busca pela garota certa, como destaca Mário Bortolotto em um prefácio tão inspirado que poderia ser publicado com pequenos ajustes como um conto.
Alguns poemas sem título, devido à sua brevidade, concisão e simplicidade, se aproximam da estética de um haicai: "fio de cabelo seu na blusa / o vento leva / lembrança sua" (p. 54) ou ainda: "infância / gostinho de laranja chupada / agora / só o bagaço" (p. 97). No entanto, Angelo Lemos não se enquadra em qualquer estrutura rígida, preferindo utilizar versos livres que destacam a emoção e o impacto de uma ideia, como em cofre (p. 83): "coração sem chave / este que só com / segredos se abre" ou na valorização do cotidiano em pelada (p. 48): "teve nem graça / jogando no teu campo / o gol da vitória foi decidido aos 5 / do primeiro tempo". O autor nos surpreende com uma poesia leve e despretensiosa que nos pega desprevenidos como uma boa letra de rock.
espetáculo (p. 15)
na calçada dos meus olhos
você passa
um palavrão alto
sai
na boca do beco
da minha mente
a ponta-metal do teu salto
arrebenta
o meu tímpano-peito
num som estridente
e no meio do palco
perco todo o sentido
feito fã cego idolatrando artista
em seu show ao vivo
roupa suja (p. 71)
hoje venceu a quinta parcela
da máquina de lavar
das quinze
que fiz sem juros
no cartão casas bahia.
ontem você se foi
e levou tudo
exceto
a roupa suja
que agora lavo de você.
na sacada do apê
& um marlboro às 2 da manhã (p. 76)
trago
a pessoa amada
aqui dentro
mas amor não se prende
sendo assim
solto-o
ao vento
só estou de passagem (p. 105)
essa vida é mesmo contraditória:
uma hora você tá vivendo
outra, tá morrendo
uma hora vive morrendo
outra, você morre vivendo
vira um vivo-morto-morto-vivo
a vida é um hotel dentro de
um cemitério construído por deus
e nela, baby, só estou de passagem
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