Lara Tironi - Vapor de dendê não tem cor
O romance de estreia de Lara Tironi demonstra uma notável segurança narrativa, entrelaçando passado e presente na trajetória de suas duas protagonistas que, cada uma à sua maneira, expõem a violência da solidão e as dificuldades enfrentadas pelo universo feminino em uma sociedade marcada pela desigualdade e pelo patriarcado, fazendo valer a estranha afirmação de uma das personagens para justificar um aborto: "Sozinha você cabe em qualquer lugar". Salvador surge não apenas como cenário, mas como personagem viva, em uma ambientação que valoriza em detalhe os bairros, culinária e celebrações locais, reafirmando a força de um regionalismo que resiste e se reinventa mesmo em tempos de globalização.
O capítulo de abertura apresenta uma das protagonistas que não é nomeada até quase o final do romance, realçando assim a sua invisibilidade. Ela narra retrospectivamente em primeira pessoa suas lembranças desde a partida do Sertão, acompanhada do único amigo, Caricó — um calango que trouxe escondido na algibeira. Em Salvador, passa a trabalhar com a irmã cuidando de três gerações de uma mesma família, encontrando como uma das poucas satisfações tomar um sorvete em seu dia de folga. Mais tarde, busca refúgio na religião, tentando reencontrar um Deus que havia abandonado desde a morte da mãe ainda na infância, uma perda que nunca conseguiu superar e que a manteve prisioneira da própria solidão ao longo da vida.
"Poderia ter sido minha irmã e companheira de vida a mulher que veio aqui mais cedo afofar os travesseiros. Mas não, ela se foi há alguns anos. A mulher que entrou, não reconheço, não sei quem é, de onde vem, para onde vai. É nova, mas não muito, tem urgência em sair logo daqui. Ouço voz de criança, abafada pela porta, e os passarinhos piam lá fora. Esse quarto, mal iluminado, fede a mofo e água sanitária em partes iguais. Talvez o cheiro tenha também uma nota de velhice, mas, como é a minha, sinto menos no nariz do que nos ossos. Era de se esperar que eu ainda tivesse forças para alcançar a mãozinha de plástico pendurada na cabeceira da cama e coçar minhas próprias costas. Nem isso. Envelhecer frustra. O tempo, essa força implacável contra a qual não se pode lutar, passa. Mas se engana quem acha que ele é medido em semanas, meses, anos. O tempo é medido em coisas a fazer. E eu fiz." (p. 11)
Já a segunda protagonista, Tieta, vinda igualmente do interior para estudar e morar na casa de uma tia, vê sua vida mudar radicalmente após a morte dela, passando a trabalhar como diarista para se manter na cidade. Ao lado da amiga Val — mãe solteira e sobrevivente de um relacionamento tóxico —,vive em uma comunidade sob a constante ameaça do tráfico de drogas, contentando-se com a transitória ilusão de felicidade proporcionada pelo carnaval. As tensões se agravam quando Tieta descobre estar grávida e passa a viver a incerteza sobre a paternidade, levando-a em seu desespero a pensar em um aborto como única solução para tantos problemas.
"Vim do interior da Bahia, de um povoado chamado Carnaíba do Sertão, pertinho de Juazeiro. Cresci entre irmãos e umbuzeiros, pais e palmas, vizinhos e mandacarus. Terra vermelha me acalma, aquece, faz os ponteiros do relógio andarem para trás. Era bonito de ver o vento levantar poeira em redemoinho de aquarela. Antes da morte de minha mãe, fui feliz. Até calango eu tive! Se ele era meu ou eu era dele, nunca saberei, me entendi por gente, ele já estava lá. Ah, Caricó. Botei nele esse nome porque metia medo nas galinhas do galinheiro de meu pai. Gostava de rastejar até elas de mansinho, num silêncio oco, chegar bem perto, e então se levantar num rompante, todo empertigado. Juro que ria de jogar a cabecinha para trás quando elas saíam correndo, as penas voando alto antes de se espalharem pelo chão." (p. 11)
Lara Tironi alterna os capítulos entre as duas protagonistas até que seus destinos se cruzem, revelando diferentes aspectos da resistência feminina diante da solidão, da violência e da desigualdade que sufoca grande parcela da população brasileira. O desfecho inesperado é comovente e convincente, capaz de surpreender o leitor sem deixar pontas soltas. O livro é recomendado porque consegue equilibrar na mesma medida reflexão e entretenimento, trazendo personagens bem construídas que permanecem na memória após o final e consolidando o nome da autora como uma nova voz a ser acompanhada no cenário da literatura brasileira contemporânea.
"Dali do Morro do Gato se via tudo, trios empurravam para frente um mar de gente, feito artéria que pulsa sangue pelas avenidas da cidade. Tieta e Val chegaram ao pé da ladeira bem a tempo de ver o trio despontar da curva depois do Cristo. A multidão vinha da frente, dos lados, de trás, e a todo tempo mais e mais pessoas se incorporavam àquela massa colorida de tinta e pôr do sol. Era deslumbrante ver suspensa no ar a alegria quase palpável. Nas janelas, se aglomeravam pessoas de todas as idades, de bebês de colo a senhorinhas de cabelos de algodão, todos curiosos para ver passar o trio da felicidade. Na rua, vendedores ambulantes, com seus isopores de bebidas protegidos por guarda-sóis, delimitavam o caminho. Do outro lado, nos camarotes recém-construídos, pessoas de acotovelavam na tentativa de participar. As duas seguiam assim, pulando e gritando na trilha do axé. Chegaram às Gordinhas acabadas de tanto ser pipoca, de alma lavada da cabeça aos pés." (p. 71)
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