Danilo Giroldo - Rosa infinito
Os poemas de Danilo Giroldo neste seu mais recente lançamento, Rosa infinito, surpreendem pela inspiração que afasta-se do lirismo convencional para apresentar ao leitor imagens inusitadas, como em Precipício (p. 17): "quem é o precipício / na perspectiva do abismo / um vazio apenas / a sensação própria da queda / andar junto ao precipício / não é para qualquer um", versos que evocam, em alguns momentos, a poética de João Cabral de Melo Neto, especialmente à ideia de aprendizagem pela dureza do mundo real, me fazendo lembrar de A educação pela pedra: "É preciso tirar algumas lições / dos líquens e dos musgos / a nutrição em total aridez / o amor pelo substrato / a aderência integral à beirada / a escora na rocha clivada".
A imagem da resistência fria da pedra retorna em Sentido (p. 33): "aprender com a pedra / com a folha amarela / o sentido sem som / a palavra em silêncio". Contudo, as referências poéticas principais são mesmo as rosas, ainda que não naturais, como quando o poeta se lamenta da sua própria artificialidade em Rosa de plástico (p. 81): "sigo neste repouso / vivendo o fardo da longevidade / típico das coisas artificiais / invejando a efemeridade da vida / a decadência que sucede a beleza / nada é pior que a consciência / de que lhe falta o atributo / daquilo que é natural". Segundo o próprio autor, "um livro sobre o rosa, as rosas, as feridas e o infinito" que acaba nos fazendo refletir sobre as nossas perdas e a fragilidade da condição humana.
Precipício
É raro se adaptar ao precipício
poucos seres vivos conseguem
sobreviver por entre escarpas
conviver com o risco da queda
com as alturas e as vertigens
depender da acurácia dos pés
É preciso temer o tombo
respeitar a gravidade
nunca se pode pensar
em nenhuma hipótese
no vazio como alívio
para o tremor das pernas
É preciso tirar algumas lições
dos líquens e dos musgos
a nutrição em total aridez
o amor pelo substrato
a aderência integral à beirada
a escora na rocha clivada
quem é o precipício
na perspectiva do abismo
um vazio apenas
a sensação própria da queda
andar junto ao precipício
não é para qualquer um
Ser como a cabra da montanha
ter no precipício o amparo
a proteção contra o lobo
escapar de todos os males
por entre as mais finas fendas
viver em iminência de morte
Engana-se quem pensa
a planície sem precipícios
nem cabras da montanha
talvez os mais terríveis barrancos
os mais habilidosos caprinos
estejam por aqui nestas planuras.
Sentido
Hoje eu fiz aquele bolo de bergamota
com caramelo que você gosta
pena que ficou um pouco amargo
só foi bom porque ninguém me viu chorar
não é estranho dizer as mesmas coisas
sabendo que não há mais qualquer crença
já viu que palavras muito repetidas perdem o sentido
ando atrás de algo além delas para voltar a acreditar
aprender com a pedra
com a folha amarela
o sentido sem som
a palavra em silêncio
por isso agora apareço nas formas
às vezes faço força para engolir
superar minha própria garganta
não é só o bolo, tudo anda meio amargo.
Rosa de plástico
Flor artificial me dizem
trinta centímetros mais ou menos
sozinha
deitada nessa prateleira branca
no lavabo
é menos que um banheiro
lugar para mim
que sou menos que uma rosa
pétalas vermelhas de tecido sintético
caule verde com poucas folhas
feito de um plástico de baixo valor
ainda assim vejo que me notam
não sei se é pela solidão que exalo
talvez o contraste com o mdf branco
ou porque nunca serei mesmo uma rosa
sigo neste repouso
vivendo o fardo da longevidade
típico das coisas artificiais
invejando a efemeridade da vida
a decadência que sucede a beleza
nada é pior que a consciência
de que lhe falta o atributo
daquilo que é natural
para que haja o viço esplêndido
o tônus exato
as cores de intensidade única
tem de haver a sequência da morte
como conviver com a memória
da falta daquilo que não se teve
saber que seu brilho é constante
portanto insuficiente
Também não tenho
como me dói
saber que nunca terei
o cheiro das coisas vivas
perfume de uma rosa real
ou mesmo o odor da decomposição
ao contrário vivo exalando
aromas terríveis do plástico
Vivo de um único alento
sempre que ela me visita
sorrindo com cabelos cacheados
me olha de um jeito que ninguém mais
outro dia pude ouvi-la dizer
uma coisa tão bonita
quis chorar mesmo sem poder
disse que faria de mim um poema
Poemas também são coisas não vivas
mas vivem como se fossem
parecem não ter cheiro
mas exalam como se tivessem
não morrem mas fazem querer morrer
quase como uma pequena rosa artificial
deitada na prateleira de um lavabo.
Sobre o autor: Danilo Giroldo, 50 anos, é paulista e professor na Universidade Federal do Rio Grande – FURG. Publicou os livros de poesia “Vala” e “O canteiro das flores de metal e o jardim de areia” em 2019 e 2020, além do projeto coletivo “De labirintos e espirais: sete poetas de Rio Grande” em 2021 e “Contos de Morte” em 2023, todos pela Editora Patuá. Publicou também “Plexo Solar” pela Editora Penalux, finalista do prêmio AGES de literatura em 2024. Tem publicações em diversas revistas literárias, como WebTV, LiteraLivre, Ruído Manifesto, Literatura&Fechadura e Mallarmargens.
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