Mieko Kawakami - As irmãs de amarelo

Literatura japonesa contemporânea
Mieko Kawakami - As irmãs de amarelo - Editora Intrínseca - 496 Páginas - Imagem de capa: Tetsuya Noda - Design de capa: Tiana Dunlop - Tradução de Rita Kohl - Lançamento no Brasil: 2026.

Este romance de Mieko Kawakami, lançado originalmente no Japão em 2023, na sequência do elogiado Peitos e ovos, retorna ao tema do universo feminino inserido em uma sociedade tradicionalmente patriarcal. Em As irmãs de amarelo, acompanhamos a narrativa em primeira pessoa de Hana Ito, uma protagonista pouco confiável que, vinte e cinco anos depois, relembra passagens de sua vida durante a adolescência, no final da década de 1990, em Tóquio, ao lado de um grupo de amigas igualmente desajustadas e sem dinheiro. A obra tem como pano de fundo a pobreza e a luta pela sobrevivência à margem da sociedade japonesa, especialmente para mulheres que vivem em condições raramente associadas à imagem que costumamos ter do país.

Aos 15 anos, Hana vive com a mãe, que trabalha como hostess em um bar e está ausente durante a maior parte do tempo. As duas moram em um cortiço na periferia de Tóquio. A chegada da misteriosa Kimiko, amiga de sua mãe e já com quarenta anos, faz com que Hana tenha alguma perspectiva de acolhimento quando, juntas, passam a administrar o Lemon, um pequeno snack bar, agregando mais duas jovens ao negócio, Lan e Momoko. A convivência entre essas mulheres acaba assumindo contornos de uma família improvisada, mas a relação entre Hana e Kimiko é controversa desde o início e justifica a percepção de que Hana é uma narradora que pode estar distorcendo a memória dos fatos de acordo com sua própria versão dos acontecimentos.

"Conheci Kimiko no verão dos meus 15 anos. Certa manhã, no começo das férias do meu último ano do ensino fundamental, acordei e vi, em vez de minha mãe, uma mulher desconhecida que dormia ao meu lado. Ela dormia profundamente, de costas para mim, de modo que não dava para ver seu rosto, e, embora usasse um pijama de minha mãe, percebi de imediato que era outra pessoa. Recuei um pouco, apoiada no cotovelo, mas logo concluí que não devia ser nada de mais e voltei a me deitar. Já havia acontecido antes de minha mãe, que trabalhava num snack bar ali perto, trazer alguma amiga ou outra hostess do bar para dormir em casa. Quando acordei novamente, não vi a mulher, mas o pijama que ela usava estava perfeitamente arrumado em cima do futom, dobrado em três. Aquela cena inédita me hipnotizou por um tempo. As peças já gastas do pijama, usadas por minha mãe durante anos, estavam tão bem dobradas que pareciam um produto novo numa loja." (p. 23)

Ao longo da narrativa, depois do incêndio não explicado que destroi o Lemon, as mulheres ficam sem o sustento financeiro e Hana se envolve em um esquema de cartões de débito clonados para sustentar o grupo. As atividades fraudulentas aumentam com a orientação de amigos suspeitos de Kimiko, tornando Hana uma espécie de chefe e responsável pela administração do dinheiro, o que gera disputa entre as amigas. De fato, o caráter pouco confiável da narradora fica cada vez mais flagrante quando percebemos o clima de insatisfação e certa tirania de Hana na condução das atividades e controle dos ganhos. Também fica a dúvida se Kimiko é uma salvadora ou estaria todo o tempo apenas manipulando Hana.

"Quem sugeriu o nome Lemon fui eu. Não tinha pensado na questão da grafia, mas quando a imagem de um limão-siciliano me ocorreu de repente, achei que era uma ideia fenomenal. A fruta combinava com o amarelo do nome de Kimiko. Uma empresa de um conhecido dela fez a placa do bar por uma pechincha. Kimiko deixou que eu escolhesse a minha preferida entre as opções de design que nos mostraram. [...] A inauguração do snack-bar Lemon seria no começo da semana seguinte, e nós corríamos com os últimos preparativos. Até poucos meses antes, porém, outro bar funcionava no mesmo lugar, de modo que todo o básico — a decoração, as luzes, o karaokê, os copos — permaneceria igual. Trocamos apenas o nome e a placa, e o restante ficaria como estava. [...] O bar ficava num prédio comercial a alguns minutos de caminhada da estação de Sangenjaya, um pouco mais para dentro do bairro. No térreo havia um pequeno restaurante chamado Boa Sorte, onde trabalhava apenas a velha proprietária; no segundo piso, um estúdio de tatuagem que eu nunca vi aberto; e no terceiro o Lemon." (pp. 60-62)

O ganho e a perda do dinheiro, ilegal ou não, estão sempre no centro das preocupações das personagens, demonstrando o lado sombrio de um país como o Japão, com alto poder econômico, mas incapaz de distribuir riqueza e oportunidades de forma equilibrada, especialmente para mulheres, trabalhadores sem qualificação e minorias étnicas. Ao explorar essas questões por meio de uma narradora cuja memória está sujeita a distorções e ressentimentos, Kawakami constrói um romance que discute não apenas amizade, pobreza e sobrevivência, mas também os limites da verdade e da lealdade por meio de personagens complexas e moralmente ambíguas.

"É disso que eu tô falando quando digo que tô fodida, que as coisas tão zoadas. É porque, logo mais, esses lances que eu gosto, tipo os cartões que você usa, que são confiáveis, de qualidade, garantidos... isso aí vai acabar. Toda moda vem e vai. Hoje em dia, a onda são os computadores. Quem souber fazer os esquemas com eles é que vai bombar. Agora quem vai dar a letra são uns caras sem rosto, sem nome. Pensa nos agiotas da Yakuza, por exemplo. Eles tocam o terror, cobram cinquenta por cento de juros em dez dias, mas pelo menos emprestam mesmo o dinheiro. Tá aparecendo por aí uma pá de gente que vem te arrancar dinheiro sem nem ter emprestado nada pra ninguém. Bem mais prático, mais direto, nem precisa falsificar cartão nenhum — Viv abriu um sorriso contrriado. — Então a gente tem que aproveitar enquanto dá e tirar o máximo de grana possível. Já, já a maré muda." (p. 318)

Literatura japonesa contemporânea
Sobre a autora: Mieko Kawakami é a aclamada autora de Peitos e ovos, eleito um dos livros notáveis do ano pelo New York Times e um dos dez melhores livros de 2020 pela revista Time. Seus outros romances incluem Hevn [Paraíso], finalista do International Booker de 2022, e Subete Mayonaka no Koibito Tachi [Todos os amantes da noite], finalista do National Book Critics Circle de 2023 na categoria ficção. Em 2024, As irmãs de amarelo ganhou o Prêmio Yomiuri de Literatura. Seus livros, traduzidos para quarenta idiomas, são conhecidos por reflexões sobre o corpo feminino e por questões filosóficas sobre gênero, classe e ética na sociedade moderna. Nascida em Osaka, Kawakami vive em Tóquio, no Japão.

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