Jozias Benedicto - Aqui até o céu escreve ficção

Literatura brasileira contemporânea
Jozias Benedicto - Aqui até o céu escreve ficção - Editora Patuá - 172 Páginas
Projeto gráfico e diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: 2020.

Lendo a deliciosa autoficção de Jozias Benedicto nesta antologia de contos – obra vencedora do Prêmio Literário 2018 do Governo do Maranhão –, me ocorre um sentimento de melancolia ao perceber que as nossas melhores lembranças são sempre o resultado de um pouco de fantasia, uma adaptação do que realmente aconteceu, como na famosa autobiografia de Gabriel García Márquez, Viver para contar, citada por Antonio Carlos Lima no prefácio deste livro: "A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la." Assim, já não precisamos saber o que é verdade ou ficção, mas isso importa verdadeiramente? Acho que não.

Os contos são inspirados, em sua maioria, na infância e juventude do autor na cidade de São Luís do Maranhão, mas é importante ressaltar que se tratam de memórias nada confiáveis. Afinal, nessas terras até o sol mente, conforme epígrafe do Padre Antonio Vieira: "amanhece o sol muito claro, prometendo um formoso dia, e dentro em uma hora se tolda o céu de nuvens e começa a chover como no mais entranhado inverno. De maneira que o sol, que em toda parte é a regra certa e infalível por onde se medem os tempos, os lugares, as alturas, em chegando à terra do Maranhão, até ele mente". Este gancho será utilizado em alguns contos, "uma ilha onde até o céu mente"

"Olho pela janela, lá fora o tempo nublado de sempre, frio, umidade, névoa, suicídios. No aplicativo do tempo no celular dou cliques rápidos por "minhas cidades" até chegar a uma tela com a imagem de um céu de um azul intenso; mas, como sempre, há animações de nuvens carregadas; e a legenda, como sempre, é imprecisa: 'mostly sunny'. Ninguém garante que estas pequenas nuvens ao longe não vão crescer, se agigantar e, grávidas de tormentas, finalmente desaguar em um dilúvio sobre as ruas estreitas e as praças cheias, expulsando até os pombos, os ratos e os cães vadios. Para depois, em questão de segundos, o sol voltar a resplandecer como no quarto dia da criação. Bem faz o aplicativo com sua falta de assertividade, sempre se mantendo nos 'partly cloudy', 'maybe', sem nunca dar certeza sobre o tempo naquela ilha onde até o céu mente; ou escreve ficções, ou autoficções. Como eu." Trecho do conto Aqui até o céu escreve ficção (pp. 27-8)

Cada narrativa é sempre uma surpresa, seja um tema histórico como no conto Ingleses nos trópicos de caráter polifônico que oferece diferentes pontos de vista para o comportamento dos integrantes de uma comunidade de ingleses trabalhando para a Western Telegraph Co., empresa contratada pelo governo brasileiro para cuidar do sistema de cabos submarinos que ligava o Maranhão ao mundo; ou uma distopia como em 2161, remetendo a uma sociedade que pretende eliminar toda criança que tenha algum brilho nos olhos, "uma leve luz que mostre que há algo dentro", mantendo apenas os descerebrados, um método que pode interessar certos governos totalitários.

Contudo, os melhores contos são aqueles que mostram a riqueza da natureza humana como em Inocência, no qual o protagonista tem a sua experiência da "primeira vez" com o sexo e a morte na mesma noite. É de se destacar também as diferentes técnicas empregadas em cada texto. Neste caso, o autor despreza as regras gramaticais para impor uma velocidade narrativa que atropela as vírgulas na urgência que se apresenta, como no trecho abaixo.

"E foi minha primeira vez, sempre falam que as primeiras vezes são estranhas mas comigo não foi nada disso, foi muito bom. Marçal me mostrou a morena com cara de índia e disse 'essa é gostosinha e chegou do interior há poucos dias, quer?' Eu nem tive tempo de dizer que sim que ele foi logo encostando nela e falou se ela podia tomar conta de mim pois era minha primeira vez e eu tinha pouco dinheiro, aí ela me levou para um quarto pequeno só uma cama e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e uma luz roxa acesa em baixo da santa como uma prece eu quase que nem tirei a roupa direito de tanta vontade que eu estava e ela sorrindo e gemendo com aqueles olhos fechadinhos de índia falsificada e eu meio que sem graça pois minha cueca era velha e rasgada mas ela nem que notou e depois ela me inquiriu se tinha sido bom, eu disse que sim. Disse: 'sim', a voz firme e os olhos bem abertos olhando nos olhos dela, eram olhos mortiços como os de uma velha, os cílios ralos como uma roça na seca. E não era mentira, foi bom de verdade, senti a gosma saindo de mim como se a índia sugasse minha seiva com sua mágica de menina e de puta. Foi quando ouvi os tiros lá fora. Foi tudo muito rápido, no início não entendi o que era. A música parou, e os tiros, os tiros, só se ouvia os tiros, e gritos, cada vez mais gritos. Ela disse, 'é melhor você ficar aqui um tempo, daqui a pouco eles sossegam. Vamos brincar de novo, tá no preço, meu lindo'. Mas eu não quis esperar, me vesti ligeiro, parece que eu estava adivinhando. Os tiros lá fora." Trecho do conto Inocência (pp. 70-1)

O nosso grande poeta maranhense Gonçalves Dias (1823-1864), autor de "Canção do Exílio", tem a sua morte trágica lembrada no prólogo e epílogo do livro quando o navio que o trazia de volta ao Brasil, depois de um tratamento de saúde, naufragou na costa brasileira, já próximo ao Maranhão, e todos a bordo se salvaram com exceção do poeta, que foi esquecido, agonizando em seu leito, e se afogou. Jozias Benedicto reflete sobre a memória, um tipo de matéria que não tem fim porque não pode ser destruída como a terra, pedra ou concreto, um lugar onde não existe exílio, um mundo para o qual não precisamos voltar porque nunca saímos.

Sobre o autor: Jozias Benedicto é escritor, artista visual e curador, com especialização em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo pela PUC-Rio. Trabalha com videoinstalações, performances e pinturas que unem palavra e artes visuais. Seu primeiro livro de contos, Estranhas criaturas noturnas (2013), foi finalista do Concurso SESC de Literatura 2012/2013. Como não aprender a nadar (2016) conquistou o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais 2014 na categoria Contos e o Prêmio Moacyr Scliar 2019, da Diretoria da UBE-RJ. Também recebeu premiações da Fundação Cultural do Pará (2018) por Um livro quase vermelho e da Fundação Cultural do Maranhão (2018) por Aqui até o céu escreve ficção. Lançou dois livros de poesia, Erotiscências & embustes (2019) e A ópera náufraga (2020).

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