Bruno Garret - O retesar da sobrancelha e outros feedbacks

Literatura brasileira contemporânea
Bruno Garret - O retesar da sobrancelha e outros feedbacks - Editora Patuá - 180 Páginas - Capa, projeto gráfico e diagramação: Fernando Campos - Lançamento: 2026.

O mais recente lançamento do pernambucano Bruno Garret, "O retesar da sobrancelha e outros feedbacks", é uma coletânea de 13 contos que convida o leitor a refletir sobre as fragilidades humanas em um mundo no qual as relações são cada vez mais mediadas pelas redes sociais e pela inteligência artificial. O gesto sutil e quase involuntário de retesar a sobrancelha, geralmente associado à dúvida ou à desaprovação, funciona como uma metáfora da ironia bem-humorada que permeia a maioria das narrativas, recurso por meio do qual o autor expõe situações cotidianas, por vezes extrapoladas para um contexto fantástico, marcadas pela busca incessante por validação e reconhecimento, no ambiente presencial e, especialmente, digital. 

Contudo, por trás do aparente humor, revela-se um sarcasmo ferino que leva o leitor a sorrir com certo amargor ao reconhecer aspectos da própria realidade, seja em suas dimensões mais trágicas, seja naquilo que talvez mais incomode o nosso ego: seu caráter ridículo. Um bom exemplo é o conto "Inadimplente", um dos pontos altos da coletânea. Nele, um obeso senhor de calça de linho amarrotada aguarda na secretaria de uma escola para quitar uma mensalidade enquanto alimenta fantasias eróticas com a jovem atendente de seios fartos. A moça, leitora voraz e admiradora de Nabokov, parece corresponder ao flerte. A cena é observada por ninguém menos que Deus e o Diabo, que se divertem apostando no desfecho daquele improvável encontro.

"Dr. Alexandre, com naturalidade e sem pudor, alternava a visão entre o grande relógio metálico de fundo branco e ponteiros escuros, fixado na parede bem acima da jovem, e os seios firmes e generosos insinuados pelo leve decote. O último botão da blusa parecia perto de romper a casa. Sem perceber, ele começou a alisar o bigode grisalho e farto com rapidez ruidosa. Os óculos foram descendo até a ponta do nariz graúdo e ali permaneceram equilibrados, em suspensão. A vista pula as lentes de armação retrógrada para repousar apenas nos seios. Nada mais atrapalhava a malícia do momento. [...] Ohando-o agora com mais ousadia do que antes, a secretária até que gostou da expressão rude e grotesca impregnada naquele rosto largo, suado e rechonchudo. Ela pensou que talvez aquela brincadeira pudesse ir além e, curiosa, sempre curiosa, medindo-o dos pés à cabeça, quase demonstando que gostava do que via, repetiu a pergunta que há pouco havia feito, com voz aveludada e ainda mais libertina, que por pouco não fez o coração debilitado do Dr. Alexandre parar. — Dr. Alexandre, como vai? Pode vir, é sua vez. O senhor aceitaria um cafezinho para começar?" (pp. 76/87) - Trecho do conto "Inadimplente"

No conto "Entrevista", a revolução tecnológica alcança seu ponto máximo em um futuro incerto, quando a inteligência artificial finalmente livra o mundo da presença de todos os homens, restando apenas as máquinas e as mulheres, que passam a competir pela sobrevivência em uma inusitada entrevista de seleção. A premissa absurda serve como veículo para uma crítica mordaz à cultura do feedback, padronização de comportamentos e à submissão aos critérios de validação impostos por sistemas cada vez mais automatizados. Levando ao extremo a lógica dos algoritmos e dos processos seletivos contemporâneos, o autor constrói uma distopia na qual a individualidade e a capacidade de sentir emoções transformam-se em defeitos.

"— Bom dia, pessoal. Sejam bem-vindos. É sempre gratificante conhecer pessoas fantásticas e tão diferentes. A propósito, currículos impecáveis. Pelas imagens das câmeras dos nossos arquivos, os comportamentos analisados foram, em geral, ilibados. Estamos falando aqui de vidas realmente insossas. Parabéns pela aderência. A futilidade é a nossa maior riqueza. O sistema, sabemos, almeja acomodação e capacidade de ajuste. Todas vocês são guerreiras, criaturas raras que souberam administrar, com sabedoria, o apogeu dos artificiais. Os homens morreram. Todos. Graças ao Deus Máquina. Somos o que restou (todas arfam em aparente alívio). O nosso objetivo hoje é conversarmos tranquilos, de forma leve e espontânea. É apenas um bate-papo para a gente se conhecer melhor. Prontas? Terceira candidata à direita, discorra sobre seus desejos mais íntimos   a mulher, mecanicamente, obedece.  Ao fim, ninguém aplaude. As palmas não existem mais. A candidata número seis, que transpareceu uma ligeira emoção, foi limada do processo. A selecionadora fez um gesto e a retiraram. [...]" (p. 103) - Trecho do conto "Entrevista"

Já no emocionante "Bolinha", um homem presencia o desmonte gradativo do próprio corpo, restando apenas a consciência preservada, como um grande castigo, fazendo-o relembrar os arrependimentos, principalmente o abandono da mulher e da filha sem explicações. Em outra abordagem mais bem-humorada sobre a questão da memória, no conto "Fusca", um fusquinha verde-musgo relembra passagens de sua vida, assim como de alguns antepassados da época do regime militar, até o acidente em que foi vitimado, a queda de uma caixa d'água em um supermercado, final inglório para um automóvel que foi guiado por 358 motoristas diferentes. A obra de Bruno Garret, seja no contexto crítico ou de entretenimento, é recomendada para entendermos as contradições do nosso tempo.

"Agora, apenas reflito e sonho. Sem ajuda, somente me locomovo via pensamento. Mudar de cômodo, só com ajuda. Todos acham que parti. Que não sinto nada. Verbalizam isso na minha frente. E dói.   Não me consideram presente, vivo. Mas ainda posso me mexer, com grandes limitações, é verdade. A comunicação é outro problema. Algo impede minha fala, dificulta a mastigação e deglutição. A consciência preservada  intacta, na verdade  me aprisiona. Aparentemente, nem todos sabem disso e sou ignorado. [...] O que sei? Em resumo, estou aqui, na varanda, apertando a bolinha azul. [...] Ando medroso. Tanta coisa há para se temer. Meus babadores caindo no chão, a bolinha azul que aperto  morro de medo que role do meu colo. [...] Gosto tanto dela aqui no meu colo, parece um bichinho que não me deixam ter... Eita! , que droga, poxa vida, deixei minha bolinha cair. Lá vai ela pra debaixo do banco da varanda... Júlia aparece, abaixa-se e apanha a bolinha. Me devolve. Pisco meus olhos várias vezes, dentro do possível. Perdão, filha. Deveria ter feito mais." (pp.154/157) - Trecho do conto "Bolinha"

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Bruno Garret nasceu no Recife (PE), em 1981. Leitor voraz, sempre escreveu para si. Formado em Direito, participou de oficinas literárias e publicou contos e crônicas em blog. Com o tempo, refinou seu processo criativo, unindo o real e o imaginário com sensibilidade e sutileza. Em dezembro de 2023, lançou de forma independente sua obra de estreia: a coletânea de contos A fresta, fruto de uma reflexão sobre a condição humana, marcada por diálogos internos e externos que exploram sonhos, frustrações e miudezas do cotidiano. Nesta nova obra, O retesar da sobrancelha e outros feedbacks, segue investigando artisticamente, com metáforas, alegorias e passagens insólitas, nossa frágil e íntima necessidade de aprovação e validação.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar O retesar da sobrancelha e outros feedbacks de Bruno Garret

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

As 20 obras mais importantes da literatura brasileira

As 20 obras mais importantes da literatura russa

O pai, as filhas e o pinto — um conto de Carlos Heitor Cony

20 grandes escritoras brasileiras

As 20 melhores distopias da literatura

As 20 obras mais importantes da literatura japonesa