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Inventário de Sonhos - parte I - Jimi Hendrix

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Nunca mais a sonoridade da guitarra foi a mesma depois de Jimi Hendrix (1942-1970), criador de composições e arranjos ainda hoje utilizados como referência para músicos "modernos" que tentam inutilmente repetir suas harmonias, escalas e efeitos. Hendrix foi um músico genial e autodidata que, embalado pela psicodelia libertária dos anos sessenta, marcou o cenário pop e rock a partir do blues eletrificado, tendo influenciado os principais artistas ingleses da época, incluindo Beatles, Rolling Stones e Eric Clapton. O lançamento em 1967, no mercado londrino, do single " Hey Joe " foi a chave para o sucesso, precedendo o lançamento do album antológico "Are You Experienced" que incluiu os clássicos "Purple Haze" e "Fire". A versão incendiária de " Wild Thing " no festival de Monterey Pop alavancou de vez a carreira de Hendrix que não parou de crescer nos alucinantes três anos seguintes até sua morte em 1970, um preço alto que, a...

Jorge Luis Borges - A Biblioteca de Babel

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A foto é do setor de teologia da biblioteca de Strahov, contida no segundo monastério mais antigo de Praga . O fato é que bibliotecas sempre me lembram do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) e por um motivo muito simples: ele foi, antes de tudo, um leitor extraordinário e compulsivo. Sua obra é famosa por tratar de temas filosóficos e fantásticos, em sua maior parte contos. A Biblioteca de Babel , conto incluído no livro Ficções de 1944 é um exemplo marcante do estilo de Borges: " O universo (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas. De qualquer hexágono, vêem-se os andares inferiores e superiores: interminavelmente ." "Como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, talvez do catálogo de catálogos; agora que meus olhos quase não podem decifrar o que escrevo, pre...

Orhan Pamuk - Literatura e Solidão

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O escritor turco Orhan Pamuk , 55 anos, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2006 lançou o livro " A maleta de meu pai ", com três ensaios, sendo que um deles é o discurso de agradecimento à Academia Sueca. Este discurso pode ser consultado na versão completa em tradução para inglês na página da Fundação Nobel. Trata-se de um texto maravilhoso, melhor do que muitos romances que li nos últimos anos.   " A maleta de meu pai " foi o título que o escritor turco deu ao discurso, trata-se de uma maleta com textos que o pai lhe entregou dois anos antes de morrer. Pamuk explica que poderia acontecer do conteúdo da maleta não ser de seu agrado, mas também que ele descobrisse que seu pai havia sido um bom escritor. A partir desse gancho ele disserta sobre o processo de criação literária:   " Depois de muitos anos de trabalho, creio que ser escritor significa descobrir a pessoa secreta que abrigamos e o mundo interno que torna possível essa pessoa. A literatura...

Harold Bloom - Gênio, Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura

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Harold Bloom - Gênio, Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura - Editora Objetiva - 828 páginas - Publicação 2003 - Tradução de José Roberto O´Shea. Levei algum tempo para concluir a leitura deste trabalho enciclopédico do conceituado e polêmico crítico Harold Bloom. Em minha opinião, Bloom é excessivamente Shakespeariano, sendo que esta posição acabou influenciando a crítica neste livro a vários autores consagrados que foram, de uma forma ou de outra, sempre comparados de uma maneira repetitiva e injusta com Shakespeare. Sobre a paixão de Bloom pela "bardolatria" e a influência negativa em sua crítica, o trecho a seguir de Pedro Sette Câmara é muito elucidador: " O fato é que Bloom pretende estabelecer uma distância intransponível entre o leitor comum e Shakespeare, e ele, Bloom, não pretende agir como uma mensageiro entre mundos - que seria o seu papel de professor -, mas te convencer de que você não pode mesmo entendê-lo, e que somente Sha...

Clarice Lispector - A Hora da Estrela

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Clarice Lispector - A Hora da Estrela - Editora Rocco - 87 páginas - publicação 1998. Neste romance, que é seu último livro publicado, lançado originalmente em 1977, percebe-se a reflexão de Clarice Lispector (1920-1977) sobre a própria morte já próxima. Assim é que ela parece tentar se esconder neste trabalho, tanto no que se refere à escolha da protagonista, a nordestina Macabéa, uma mulher miserável e que não tem consciência da própria existência, quanto na escolha do processo narrativo que é desenvolvido através da criação de seu alter-ego, o escritor Rodrigo S. M., um homem sem muitas esperanças e que resume assim a sua necessidade de escrever:  "Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias." A alagoana Macabéa, órfã de pai e mãe, cri...

Ian McEwan - Na praia

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Ian McEwan - Na praia - Editora Companhia das Letras - 128 páginas - publicação 2007 - Tradução de Bernardo Carvalho. Este romance compacto, ou novela, de Ian McEwan, finalista da edição deste ano do Booker Prize ( ver shortlist 2007 ), conta a história tragicômica da fracassada noite de núpcias de Edward e Florence em um hotel na praia de Chesil no início dos anos sessenta, uma das décadas mais revolucionárias em termos de comportamento da história da humanidade. No entanto, nesta noite, o casal ainda representa o que persistiu de mais conservador e moralista da era vitoriana inglesa. McEwan deixa claro, logo no primeiro parágrafo do livro, o tema que será desenvolvido: " Eram jovens, educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível. " Ao longo da narrativa, em terceira pessoa, ficamos conhecendo alternadamente as expectativas de Edward e Florence com relaçã...

Juan Carlos Onetti - Junta-cadáveres

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Juan Carlos Onetti - Junta-cadáveres - Editora Planeta - 317 páginas - Publicação 2005 - Tradução de Luis Reyes Gil. Neste livro de 1964, novamente o uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994) utiliza-se da cidade fictícia de Santa María para narrar os atos desesperados de seus personagens, sempre fracassados e sem rumo. Este romance apresenta uma faceta talvez um pouco mais bem humorada do que em " A vida breve ", mesmo que se trate, na verdade, de humor negro e cáustico, começando pelo título surpreendente, alcunha do protagonista Larsen devido à sua experiência em arregimentar prostitutas pobres, velhas e consumidas, na tarefa insólita de montar o "prostíbulo ideal" em Santa María. Os serviços de Larsen são contratados pelo farmacêutico e vereador da cidade Barthé que, após doze anos de tentativas fracassadas, consegue aprovar o "seu velho ideal civilizador" com a Câmara de Santa María o que lhe renderá dez pesos por futuro freguês das prostitutas. ...

Anne Enright - Booker Prize 2007

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Depois da premiação de Doris Lessing com o Nobel, mais uma surpresa no meio literário com a divulgação do romance ganhador do Man Booker Prize de 2007. Nem o britânico Ian McEwan com " On Chesil Beach " ("Na Praia", Editora Companhia das Letras) e muito menos o neozelandês Lloyd Jones com " Mr. Pip " ("O Sr. Pip", Editora Rocco), que eram considerados favoritos nas casas de apostas, foram agraciados com o prêmio de 50.000 libras (cerca de 102.000 dólares). A escritora irlandesa Anne Enright, 45 anos, que pela primeira vez figurou na lista de candidatos ao Booker Prize, foi a escolhida com o romance " The Gathering " ("O Encontro"), que conta a história de três gerações de uma família irlandesa. O livro, o quarto de Anne (nenhum deles publicado no Brasil), é narrado do ponto de vista de uma das protagonistas, Veronica Hegarty. Ela estuda a história da família numa tentativa de encontrar sentido para a morte de seu irmão Li...

Doris Lessing - Nobel 2007

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A escritora britânica Doris Lessing  tornou-se a 11ª mulher a receber o Nobel de Literatura desde o início da premiação em 1901 ( ver relação completa de laureados por nacionalidade ). Nascida no território da Pérsia, atualmente Irã, em 1919, quando seu pai era capitão do Exército britânico, Doris May Taylor viveu parte da juventude na então Rodésia (atual Zimbábue), o que marcou sua obra. Muitos dos livros de Doris Lessing abordam temas controversos como a divisão entre negros e brancos, o colonialismo, o racismo, as questões feministas e a violência contra crianças. Ex-membro do Partido Comunista britânico, do qual se afastou em 1956 após a repressão soviética à revolução húngara, é comparada com a francesa Simone de Beauvoir por suas idéias feministas. José Castello definiu muito bem a escritora: " Lessing é uma rebelde, muitas vezes intransigente, mas que aprendeu a desconfiar dos rebeldes. Uma fantasista que suspeita das fantasias. Mitos modernos como o socialismo, o f...

Cães e literatura

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O cão é uma evolução do ser humano, não tenho a menor dúvida. Para quem ainda não acredita em tal asserção, na foto aí ao lado está o querido e simpático Pingo que não me deixa mentir, com toda a sua desinteressada lealdade e inteligência nata, própria de um autêntico vira-lata. A primeira citação sobre cães na literatura, que me ocorre no momento, é na Odisséia de Homero, quando Ulisses, após longo exílio e diversas  venturas, retorna à ilha de ítaca disfarçado de mendigo e é reconhecido apenas por Argos seu cão já velho e sem forças para qualquer outra ação além de abanar o rabo ao reencontrar o dono. Ulisses então chora; nem mesmo o deus Poseidon, com toda a sua fúria e poder havia conseguido fazê-lo chorar. A passagem acima está destacada na introdução do excelente: “ Da dificuldade de ser cão ” de Roger Grenier (Editora Companhia das Letras - Publicação de 2002), onde são apresentadas várias histórias sobre famosos autores como Camus, Sartre, Voltaire, Kafka e seus a...